As redes sociais são corporações e não democracias

Os movimentos organizados talvez devam ver as plataformas hegemônicas menos como uma arena a ser disputada e mais como um inimigo a ser combatido

Imagem: TY Lim
por Danilo Matoso

Há quase uma década, a parcialidade política dos grandes conglomerados de internet vem sendo denunciada: seu conluio com agências de vigilância estatais, o uso de seus recursos para manipulação de opinião, o caráter venal de suas políticas de censura. Não é novidade que grandes companhias sejam máquinas impessoais de geração de lucro. O que é surpreendente é que, quanto mais essas corporações mostram seu verdadeiro caráter político, mais insistimos em cobrar delas uma “ação republicana”, como se fossem organizações democráticas prontas a ouvir as demandas dos usuários. Isso nunca ocorrerá.

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Com 2,6 bilhões de usuários, se o Facebook fosse um país, seria o maior do mundo. E seu governo seria em grande medida uma autocracia. O americano Mark Zuckerberg (36) conduz muitas das políticas da companhia de acordo com suas convicções pessoais que ele faz questão de divulgar como “pragmáticas”: a empresa deve simplesmente atrair cada vez mais usuários, mais patrocinadores e mais lucros. Diz-se inclusive que o CEO da maior rede social do mundo só tem um partido: o Partido do Facebook.

O que à primeira vista parece uma postura imparcial implica – do ponto de vista da luta de classes – um profundo conservadorismo político: mais anunciantes, mais mercados, mais lucros, são os valores fundamentais do capitalismo monopolista. O mesmo que domina os Estados nacionais, promove golpes, perseguição política, retirada de direitos da população. Zuckerberg, o Facebook e suas outras principais redes sociais – Instagram e WhatsApp – têm um lado: o do capital.

É claro que as políticas dessas grandes companhias não são mero fruto da cabeça de Zuckerberg. Tal como se apresentam hoje, elas são reflexo do jogo de forças que opera dentro das próprias companhias – com diversos atores de tomada de decisão –, bem como das ações regulatórias de vários Estados nacionais dos países onde as plataformas de comunicação são amplamente usadas pela população. Parece ser cada vez mais consenso, em todo caso, é que o lucro de tais companhias vêm de duas fontes: por um lado – até certo ponto visível – vendem sua capacidade de persuasão, de formação de opinião, de modo a vender determinados produtos ou difundir determinados valores políticos ou culturais; por outro lado, conforme cada vez mais divulgado desde a denúncia de Edward Snowden, vendem os dados de seus usuários a grupos políticos hegemônicos – incluindo agências de espionagem e vigilância.

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Manipulação

O uso político da capacidade de manipulação das plataformas foi comprovadamente empregado na campanha presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016 e na de Bolsonaro no Brasil em 2018. A presença do estrategista americano e ativista de extrema-direita Steve Bannon em ambas as campanhas era o indício de manipulação que se transformou num escândalo internacional. Uma das principais agências a operar na campanha de Trump, a Cambridge Analytica, teria coletado os dados de mais de 50 milhões de eleitores norte-americanos e desenvolvido estratégias estruturadas de seleção e direcionamento da informação que chegaria até cada um deles em suas redes sociais e ferramentas de busca a partir da elaboração de perfis psicológicos em massa.

Embora o Facebook e o Google tenham sido apontados como simplesmente “omissos” no caso, é evidente que as plataformas não foram neutras naquelas campanhas. Até hoje, os mesmos sistemas de manipulação e difusão de desinformação fomentam uma grande onda de negacionismo na Inglaterra, Estados Unidos e Brasil, capaz de minar as políticas de isolamento social destinadas a reduzir o número de mortos.

O sistema de manipulação é sutil. Não é por acaso, por exemplo, que sites antimarxistas surgem no topo de pesquisas de usuários sobre “marxismo”, que vídeos de policiais oprimindo orgulhosamente a população pobre brotem naturalmente no sistema de reprodução automática do Facebook Watch ou do YouTube. Não é acaso ainda que tais conteúdos sejam alavancados artificialmente por visualizações, curtidas, comentários e compartilhamentos de robôs (perfis falsos com comportamento automatizado). É fato conhecido, por exemplo, que a política de uso de robôs é usada pelo próprio Facebook, mediante pagamento. É célebre ainda o episódio em que a Folha de S. Paulo publicou as palavras “bolso” e “bolovo” numa mesma matéria e ativou a reação de robôs pró-Bolsonaro no Twitter.

Vigilância e desinformação

Edward Snowden, um analista de sistemas até então a serviço da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), denunciou em 2013 que o Estado norte-americano monitora amplamente governos e indivíduos de todo o mundo pelos meios digitais. A disponibilização cada vez mais ampla de dados pessoais de seus usuários a agências governamentais foi fato demonstrado durante a pandemia de Covid-19 na Coreia do Sul, por exemplo. Com diversas indústrias de tecnologia de ponta, o país usou os dados dos smartphones para impor quarentenas individuais ou determinar grupos de testagem a partir de proximidade física com pessoas infectadas. O tema vem sendo tratado em inúmeros artigos, filmes e livros, como Capitalismo de vigilância, da pesquisadora Shoshana Zuboff – que serviu de base para uma veemente palestra da presidenta Dilma Rousseff sobre o tema recentemente.

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Nesse cenário de ampla manipulação e vigilância, o fenômeno da desinformação – a propagação de notícias falsas – com finalidade política se tornou um importante instrumento. É patente a falta de disposição das grandes plataformas de redes sociais em ao menos dissimularem alguma política estruturada nesse sentido. Na última terça (27) o coletivo de comunicação social Intervozes publicou o documento Fake news: como as plataformas enfrentam a desinformação, analisando a atuação do Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube e Twitter. A pesquisa concluiu que “o modelo de negócio das plataformas favorece a ocorrência da desinformação”.

Segundo Jonas Valente, um dos autores do estudo, “uma vez que elas passam a diminuir o alcance e até mesmo a derrubar conteúdos, elas fazem isso numa escala gigantesca. E aí não tem agência de checagem que dê conta disso. Elas se apoiam em sistemas automatizados, não são pessoas analisando todos os posts, e mesmo em equipes de análise ultraprecarizadas”. O jornalista ressalta ainda que “quando existe um erro desses, a chance de violação à liberdade de expressão é muito maior”. Cria-se assim um cenário em que a retirada do ar dos conteúdos de determinados grupos políticos pode ser desculpada como um “erro do sistema”, e não uma política deliberada de censura. Para ficar no Brasil, basta lembrar que, na última semana, o Facebook tirou do ar a página da Campanha em Defesa do Serviço Público Contra a Reforma Administrativa, levada a cabo pelos servidores públicos federais.

A corporação sai do armário

Nada disso é novidade. O que vem ficando cada vez mais claro nos últimos meses é que as plataformas vêm cada vez mais abertamente favorecendo as políticas e grupos empresariais ligados à ascensão da extrema-direita global – e nisso o caso de Zuckerberg é emblemático. Há pouco mais de um ano, o empresário reuniu-se pessoalmente com Trump na Casa Branca. O conteúdo da conversa foi mantido em segredo, mas políticos governistas revelaram que exerceram pressão pela venda do Instagram e do WhatsApp. Em maio, com o início da onda de protestos Black Lives Matter nos Estados Unidos, Trump novamente convocou Zuckerberg para uma reunião com o objetivo de garantir que suas intimidações e seus chamados às milícias repressivas não seriam derrubados nas redes sociais. Parece ter funcionado. Como resultado, a empresa enfrentou não apenas a revolta de um grupo de mais de 5.000 funcionários como também um boicote anunciado de grandes corporações anunciantes na rede, opostas ao grupo de apoio de Trump.

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Artigo recente no The Wall Street Journal dá conta desses episódios com o título “Como Mark Zuckerberg aprendeu política”. Evidentemente, o dono de um império global de comunicação de mais de 100 bilhões de dólares não está “aprendendo política” somente em 2020. O que ocorre aqui é uma tomada de posição. Zuckerberg está saindo do armário.

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Os movimentos organizados pela liberdade de imprensa e da internet talvez devam ver as plataformas hegemônicas menos como uma arena a ser disputada e mais como um inimigo a ser combatido. Não se trata de simplesmente jogar a responsabilidade no colo dos usuários, fazendo campanhas de boicote individual – como aquela estranhamente sugerida no filme O dilema das redes, veiculado no Netflix. Campanhas de boicote individual nunca derrubaram monopólio algum – muito menos monopólios de comunicação. As soluções para dar combate nessa arena passam pela exigência de transparência ampla e irrestrita quanto aos algoritmos de priorização de informação aos usuários das plataformas, por um lado, e pela garantia de privacidade às pessoas por outro. Passam ainda pela organização da população na criação e priorização de ferramentas que caminhem nessa direção. Para usar o slogan de Julian Assange: “privacidade para os cidadãos, transparência para os poderosos”.

2 comentários

  1. […] Talvez estejam percebendo que a tomada econômica da China planificada pelo seu Partido Comunista já é absolutamente irreversível e qualquer propaganda abertamente “anticomunista” começa a doer no bolso. É provável que estejam percebendo também que já não têm condições sequer logísticas para administrar um regime fechado em tempos de milhões de celulares, mesmo que certamente estejam tentando, a todo custo, “domesticar” a sempre presente anarquia da internet usando suas armas de sempre: as grandes corporações. […]

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