Um genocídio consciente: 1 milhão de infectados, 50 mil mortos

Os números são de uma completa catástrofe, resultado de uma ação deliberada por um governo que normaliza o extermínio de sua população

Imagem: Cartaz do movimento #EleNão, durante as eleições
por Danilo Matoso

Chegamos a 50 mil mortos por Covid-19 no Brasil. Pesquisas que levam em conta que há subnotificação, apontam que podem ser mais de 150 mil óbitos, e até sete milhões de infectados. Na última sexta (19), fontes oficiais informaram um crescimento recorde no número de novos casos diários: 54 mil. Não há pânico ou luto generalizado. Tampouco há uma intensificação das ações de contenção da epidemia. Ao contrário: autoridades, empresários, os grandes meios de comunicação, pisam no acelerador e reforçam os processos de “retomada das atividades econômicas”, decretando conscientemente a sentença de morte de outras dezenas de milhares de pessoas.

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Em 11 de março de 2020, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom, declarou pandemia de coronavírus no mundo. Nas duas semanas anteriores, o número de casos aumentara 13 vezes e o número de países afetados triplicara, com 118 mil casos e 4.291 mortes em todo o mundo. A Itália e a Espanha passavam por uma situação de verdadeiro terror, com colapso de seus sistemas de saúde e sistemas funerários, o que implicava dezenas de mortos sem atendimento em casa e velórios forçados dos cadáveres por famílias desesperadas.

No Brasil, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, atestava que na prática a declaração de pandemia da OMS não mudaria nada para o Brasil, que contava 69 casos e nenhuma morte e cujas ações de mitigação se restringiam ao controle de pessoas sintomáticas (febre e problemas respiratórios) provenientes do exterior. Embora alguns governadores e prefeitos suspendessem as aulas nas escolas e fechassem o comércio na semana seguinte, o presidente da República adotaria a partir dali a política negacionista que mantém até hoje: a Covid-19 seria uma “fantasia”, que estaria provocando uma “histeria”, até porque trata-se apenas de uma “gripezinha” que não afetaria o povo brasileiro, que “pula em esgoto ali: ele sai, mergulha e não acontece nada com ele”.

Bolsonaro, face grotesca do capital

Bolsonaro é uma figura bizarra, mas seu comportamento individual não pode ser visto senão como a face crua do capitalismo – e afinal foi o grande capital quem o elegeu. A política de mitigação da pandemia indicada pela OMS era o chamado “distanciamento social”, o isolamento amplo da população em casa, a quarentena dos infectados. Evidentemente, tais procedimentos implicam redução brutal da produção e da circulação de mercadorias.

Embora a imprensa em geral – como sempre – coloque foco no comportamento individual (como se a proteção social dependesse somente de “cada um” de nós), só os estados nacionais seriam capazes de promover políticas públicas que tornassem possível o isolamento amplo capaz de reduzir a disseminação da doença, assim como um atendimento médico capaz de dar conta dos casos. Num país em que 40% da força de trabalho (38,6 milhões de pessoas) opera na informalidade, é evidente que o isolamento só seria possível se a renda das camadas mais vulneráveis fosse garantida pelo Estado.

As empresas deveriam ainda ser forçadas a dispensar os trabalhadores – garantida a renda e a estabilidade –, o acesso à moradia salubre deveria ser proporcionado, e um plano de segurança alimentar e manutenção de serviços mínimos deveria ser elaborado e colocado em prática. Mas na terra governada por Bolsonaro nada disso aconteceu – ao contrário. A Bolsa de Valores de São Paulo já vinha operando com fortíssimas baixas, comparáveis somente às da crise de 2008. A classe dominante nacional e internacional não estava disposta a arcar com mais perdas. Sua palavra de ordem diante da pandemia seria “viva e deixe morrer”.

Aos poucos, ao longo de março, o empresariado nacional daria a linha política abertamente e na primeira pessoa. O dono da rede de restaurantes Madero, Junior Durski, sintetizaria: “o país não aguenta, não pode parar dessa maneira. As pessoas têm que produzir e trabalhar. Não podemos parar por conta de cinco ou sete mil pessoas que vão morrer”. O dublê tupiniquim de Donald Trump, Roberto Justus, apareceria de bermudas num vídeo declarando que 15 mil mortos no mundo todo era “muito pouco”. Alexandre Guerra, sócio dos restaurantes Giraffas e candidato ao Governo do Distrito Federal pelo Partido Novo em 2018, ameaçaria diretamente os trabalhadores que pleiteavam direito ao isolamento social: “você deveria também estar com medo de perder o emprego”.

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A esquerda se mobilizaria e lograria aprovar no Congresso Nacional em 26 de março uma parca Renda Básica Emergencial de R$ 600. Seria um passo decisivo no combate à Covid-19 se não fosse amplamente boicotado por Pedro Guimarães, o bate-pau de Bolsonaro encarregado de destruir a Caixa. O presidente do banco público estimularia todo tipo de omissão para evitar a ampla distribuição da verba aos mais pobres e vulneráveis – e de quebra desgastar a imagem da própria Caixa.

Diante da necessidade de um amplo plano de emergência para lidar com a crise, o Governo Federal optaria pela melhor solução possível, mostrando que – como reza nossa verdadeira constituição – todo poder emana do capital e em seu nome será exercido: lançaria em 27 de março uma ampla campanha publicitária de cinco milhões de reais com o slogan O Brasil não pode parar.

A dinâmica política daquelas duas semanas iniciais se prolongaria ao longo do mês de abril: a burguesia em geral usaria de todos os seus meios para retornar à normalidade e fazer vista grossa aos mortos. Seu principal instrumento de ação seria o Governo Federal, eleito na marra e com apoio militar a seu serviço para fazer justamente isso: impor uma agenda brutal de ataque ao povo.

Mais suscetíveis às pressões populares, os prefeitos e governadores foram forçados a negociar e a manter políticas mitigadoras locais. Repartições e o comércio foram fechados, as escolas mantiveram a suspensão das atividades. Além disso, a alta burguesia nacional que voltava do exterior era justamente a mais afetada pela Covid-19 até então. O noivado de um Orleans e Bragança realizado em 7 de março no Rio, por exemplo, infectara diversos socialites. “Gente de bem” estava morrendo e não convinha exagerar na normalização da pandemia.

Sem muita mesura, por outro lado, o empresariado local se mobilizaria em carreatas descaradas reivindicando a reabertura do comércio e a retomada das atividades econômicas. Eram desfiles de carrões bem fechados, para ninguém sair infectado. O  “direito a trabalhar” que reivindicavam na realidade era o seu direito a forçar seus empregados a trabalhar durante a pandemia. O cabo de guerra continuava.

Tá tudo bem, o problema é só o pobre

Na primeira semana de maio, o Brasil tinha já 135 mil casos confirmados de Covid-19 e dez mil mortos. O presidente da XP Investimentos comemorou numa entrevista: “o pico da doença já passou, quando a gente analisa a classe média, classe média alta. O desafio é que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba dificultando o processo todo”.

Superado aquele pequeno constrangimento inicial – da morte de ricos que têm condições de se manter isolados – o campo estava aberto para o ataque mais resoluto às medidas de isolamento da população em geral. Os governos estaduais e as prefeituras passaram a lançar planos de “retomada das atividades” mesmo com um crescente número de novos casos diários. Eram planos fantasticamente irreais que previam condições sanitárias inatingíveis na maioria dos estabelecimentos comerciais – como o distanciamento de dois metros entre as pessoas em lojas pequenas. A regra era, como sempre, confundir, mentir, enganar.

Está funcionando, e por vários motivos. A população até aqui não encontrou força organizativa suficiente para resistir à pressão de seus empregadores e de sua própria miséria – e quanto maior a miséria, maior a vulnerabilidade às enfermidades. De acordo com levantamento do Programa Cidades Sustentáveis, as metrópoles mais desiguais apresentam as maiores taxas de mortalidade por Covid-19. Segundo o estudo, “proporcionalmente o número de óbitos causados pela doença é 40 vezes maior nas capitais com maiores índices de população vivendo abaixo da linha da pobreza”. Em São Luís, Recife e Manaus, por exemplo, onde mais de 30% da população vive com menos de US$ 5,5 por dia (faixa que, segundo o Banco Mundial, define a linha da pobreza), foram registradas 40 mortes para cada 100 mil habitantes. Em Florianópolis, por outro lado, onde 9% da população vive abaixo da linha da pobreza, registram-se menos de dois óbitos por 100 mil habitantes.

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Também na capital catarinense, 100% da população tem acesso a água tratada, assim como em Campo Grande e Curitiba – respectivamente com 0,8 e 2,5 mortes para cada 100 mil habitantes. Já em Porto Velho, onde apenas 35% da população tem rede de água, são 26 óbitos por 100 mil habitantes.

Além disso, num país em que mais de 30 milhões sequer têm uma moradia adequada, é difícil seguir a recomendação de “ficar em casa”. Segundo estudo do Cidades Sustentáveis, em 6 de maio, Fortaleza, São Luís e Recife eram as cidades que apresentavam maior taxa de incidência do vírus, respectivamente com 339, 320 e 292 casos para cada 100 mil habitantes. Na capital do Ceará, 16% das pessoas vivem em aglomerados em condições precárias, enquanto nas capitais do Maranhão e de Pernambuco, esse percentual chega a 23% dos habitantes. No outro extremo, em Campo Grande, onde apenas 0,2% dos habitantes moram em más condições, contam-se 16 casos para cada 100 mil habitantes.

Na realidade, a pandemia torna mais evidentes as condições gerais de insalubridade de nossas capitais. Em cidades com altas taxas de mortalidade por doenças respiratórias antes da pandemia, o Cidades Sustentáveis aponta que a letalidade da doença também é maior. Por exemplo, 12% das pessoas que contraíram a doença no Rio de Janeiro morreram – 13 vezes a mais que em Florianópolis.

De fato, todas as vítimas preferenciais da desigualdade social são também mais suscetíveis à morte por Covid-19. Segundo estudo elaborado pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde da PUC-Rio com dados de notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) provocados pelo coronavírus, nos municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) a população tem o dobro de chance de morte por Covid-19 que num município com IDH alto. Também nesse universo de pacientes com sintomas graves, cerca de 38% vêm a óbito entre a população branca, enquanto entre pretos e pardos a mortalidade chega a quase 55%.

Um genocídio consciente

Nossa classe dominante e seu fantoche de ocasião à frente da Presidência sabem muito bem que quem já morria mais por ser negro, pobre ou idoso antes da pandemia vai morrer ainda mais na epidemia. No já mencionado surto de sinceridade de Roberto Justus, por exemplo, o empresário fez questão de reforçar: “vocês sabiam que 15 pessoas, entre adultos e crianças, morrem por problemas ligados à desnutrição no Brasil, todos os dias? E não vi o Brasil parar por isso. Ou seja, em dois dias, morre mais gente ligado à desnutrição, principalmente dos estados do Nordeste, do que com o coronavírus”.

Além disso, a doença pode trazer vantagens àqueles que lutaram e lutam pela retirada de nossos direitos, promotores da reforma trabalhista e da reforma da previdência. Solange Paiva Vieira, Superintendente de Seguros Privados (Susep) – do Ministério da Economia conduzido por Paulo Guedes – atestou que “é bom que as mortes se concentrem entre os idosos… Isso melhorará nosso desempenho econômico, pois reduzirá nosso déficit previdenciário”.

Não apenas no Brasil o capital escancara seu caráter de classe. A burguesia global já encontra seus meios de assumir a conta social da mortalidade da pandemia. No dia 8 de junho, a própria OMS – que divulgara amplamente a recomendação de isolamento amplo da população – fez um “balão de ensaio” rumo a uma política global de “isolamento vertical” (isolar apenas casos sintomáticos e a população de risco). Baseada em estudo incipiente, Maria van Kerkhove, chefe da unidade de doenças emergentes da Organização, declarou que “parece ser raro que uma pessoa assintomática realmente transmita adiante para um indivíduo secundário”.

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A OMS voltaria atrás na afirmativa no dia seguinte, mas o fato é que ela veio no bojo de uma ampla “retomada das atividades econômicas” nesse nosso Brasil que “não pode parar”. A palavra-chave é flexibilizar as regras de isolamento. Afinal, como se sabe, onde não há regras, vence o mais forte – o patrão. No início de junho, a maioria das capitais brasileiras reabriu o comércio. Poucos setores permanecem isolados, mas praticamente todos têm previsão de reabertura na marra – ou o trabalhador volta ao trabalho ou é demitido. Como o tempo de incubação do novo coronavírus é de 14 dias, o número de novos caos voltou a explodir e o Brasil atingiu nessa última sexta (19) a marca oficial de 1 milhão de casos e, neste domingo, de 50 mil mortos.

É um número impressionante, sobretudo se consideramos que os índices de subnotificação de casos e de óbitos são altíssimos devido à baixa testagem persistente no Brasil. Por aqui, testam-se em média 4,2 mil pessoas por milhão de habitantes. Nos Estados Unidos e na Espanha, por exemplo, testam-se 50 mil e 76 mil pessoas por milhão. Uma pesquisa da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) aponta que o número de infectados seria sete vezes maior. Segundo estudo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) tomando por base o estado de Minas gerais, o número de mortos poderia ser o triplo do divulgado.

Tais estimativas – que estão entre as mais otimistas – significariam que chegamos hoje a 7 milhões de casos e 150 mil mortos. São números de um genocídio de proporções bíblicas que vem sendo escondido não apenas por meio da baixa testagem mas também pela descarada tentativa de ocultação de dados. No dia 6 de junho, por ordem de Bolsonaro, o Ministério da Saúde simplesmente retirou do ar a divulgação oficial de dados da pandemia. Não se trata de mero arbítrio de um maníaco, mas de uma política deliberada dos donos do poder em manter a economia funcionando à custa de milhares, centenas de milhares, de milhões de mortos – sobretudo negros, pobres, idosos, enfermos.

É uma política genocida. Para tanto, vale qualquer omissão, qualquer desculpa. Não importa. Criou-se o mito de que a epidemia tem um “pico” definido, e que tal pico ocorreria inexoravelmente na semana seguinte, e isso justificaria as políticas de “retomada” que vêm sendo levadas a cabo. Evidentemente, não é assim. O pico da infecção ocorre justamente devido à manutenção das medidas de mitigação, que reduzem o contágio. A “retomada” significa, sempre, a redução das medidas de contenção e a “retomada” do aumento dos casos.

Em países que mantêm uma política de isolamento consistente, o número de casos não apenas se manteve baixo como chegou a zero – caso da Nova Zelândia. Na Argentina, um país vizinho com 45 milhões de habitantes, contam-se mil óbitos – como se no Brasil tivéssemos cerca de dez vezes menos mortes. São 45 mil mortos em nosso país por exclusiva responsabilidade de Jair Bolsonaro e de nossa classe dominante, que ele representa.

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Tudo sempre pode piorar. Sem qualquer isolamento, o vírus se disseminaria até atingir 70% da população – 140 milhões de pessoas – levando até 5% a óbito. O pico “natural” da Covid-19 só ocorre, portanto, quando o número de mortos no Brasil estiver na casa dos milhões. É com essa perspectiva que o capital lida ao normalizar a doença e seus mortos como um “mal inevitável” diante do qual pretende-se apenas dar de ombros, como fez Bolsonaro: “e daí?”.

Um comentário

  1. muto bão… o texto… penso que só faltou explicitar que 5% de 140 milhões… são 7 MILHÕES DE MORTOS…
    S E T E M I L H Õ ES D E M O R T O S….
    e não se daria em dois messes e depois tudo volta ao normal… seriam muitos meses de tragédia humanitária social… e consequentemente econômica…
    obrigado pelo texto

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