Em Araraquara, prefeito do PT desafia bolsonarismo e combate a pandemia

Em um mês, Araraquara passou de 41 a 9 mortos por semana, chegando a zerar os óbitos diários após 44 dias

por Danilo Matoso

A Prefeitura Municipal de Araraquara, São Paulo, tem se destacado no cenário político nacional na gestão da pandemia de Covid-19. O prefeito Edinho Silva (PT) instalou um Comitê de Contingência do Coronavírus que publica boletins diários, fez ampla testagem com isolamento e tratamento de infectados, realizou um verdadeiro lockdown frente à crise da nova cepa do vírus e promoveu barreiras sanitárias efetivas. Como toda administração petista, porém, a atuação de Edinho vem sendo sistematicamente ocultada nos jornalões.

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Na Folha de S. Paulo, O Globo e Estadão, quem faz as políticas públicas é “Araraquara.” A cidade de 238 mil habitantes estaria de motu proprio promovendo políticas públicas adequadas para sua população. Para a Folha, “Doria anuncia início da vacinação de policiais e professores em abril em SP” e “Zema iniciou acordo em MG para 2ª vacina chinesa no Brasil” enquanto “Araraquara está no caminho certo, diz leitor.” O diário dos Frias logrou ainda o prodígio de dar uma notícia positiva com viés negativo: “Pela primeira vez em 44 dias, Araraquara não registra morte por Covid.” A cidade com política sem nome segue nos demais veículos. A rádio CBN anunciou que “Um mês após entrar em ‘lockdown,’ Araraquara (SP) registra queda nas mortes por Covid-19,” enquanto o Estadão estampou: “Após ‘lockdown total,’ Araraquara não registra mortes pela covid no dia em que o Estado bate recorde.”

O combate à Covid-19 tem nome e partido

Edinho Silva (55), cientista social, filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 1985, já presidiu o Partido em São Paulo entre 2007 e 2011, foi deputado estadual de 2011 a 2015 e ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República no segundo mandato de Dilma Rousseff, de 2015 a 2016. Esteve à frente do município em dois mandatos consecutivos entre 2001 e 2008, voltou ao cargo com 41.220 votos em 2016 e foi escolhido no primeiro turno por 48.405 eleitores em 2020 – em plena pandemia. Este resultado se deveu sobretudo ao bom desempenho da Prefeitura no combate à Covid-19, gerenciado a partir do Comitê de Contingência do Coronavírus.

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Em setembro do ano passado, por exemplo, a política da Prefeitura de Araraquara foi tema de reportagem no jornal francês Libération, que destaca a diferença entre as ações municipais e a (falta de) ação do Governo Federal. A média de testagem na cidade era de 9 mil testes PCR por 100 mil habitantes – quatro vezes acima da média brasileira então –, realizados por meio das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). À época, a equipe da prefeitura optou por um lockdown amplo, duramente combatido pela extrema direita e pela política genocida bolsonarista – em que os comerciantes em geral pressionam pelo seu direito de mandar seus funcionários ao trabalho, à mercê da Covid-19.

Araraquara tem características especiais e a gestão do PT tem um conjunto de políticas públicas eficientes que vão muito além do lockdown. A cidade é um pólo agropecuário e uma cidade universitária, com uma importante rede de educação e pesquisa aproveitada pela Prefeitura. Matéria recente de Márcia Speranza e Vítor Marchetti indica outras medidas no combate à pandemia: “a abertura de um hospital de campanha, uma central de internação, centros de atendimento exclusivos para pacientes sintomáticos, parceria com a Unesp para auxílio em testagem e vacinação, programa de telemedicina para monitoramento de pacientes infectados que estão em casa, equipes médicas de consulta domiciliar, centro de inteligência de covid-19 que organiza e divulga diariamente dados sobre contaminação, disponibilidade de leitos e perfil de doentes e casos fatais, equipes de bloqueio que coloca em quarentena os infectados e familiares, rede de solidariedade com distribuição de kits de higiene pessoal e cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade, bolsa cidadania para famílias em situação de extrema vulnerabilidade (mães arrimo de família, em situação de cárcere, idosos, mulheres grávidas); apoiadores de combate ao covid-19 contratados pela prefeitura com dispensa de concurso público, para trabalho temporário por 6 meses prorrogáveis por mais 6, envolvimento da guarda municipal para auxiliar na orientação da população para que fique em casa”.

Com um novo recrudescimento da pandemia nos últimos meses devido às novas cepas do coronavírus, a cidade se viu mais uma vez na contingência de realizar um lockdown. Dessa vez teve sucesso, suspendendo todas as atividades por dez dias em fevereiro – o recomendado por especialistas, em caso de saturação do sistema de saúde, é de 15 dias. Por meio do fechamento, foi possível evitar o colapso do sistema – quando não há leitos ou profissionais para atender os enfermos. Em um mês, Araraquara passou de 41 a 9 mortos por semana, chegando a zerar os óbitos diários após 44 dias – proeza repetida sucessivas vezes inclusive ontem e hoje, 6 de abril, quando o país superou a marca das quatro mil mortes diárias. No adensado interior paulista, muitas das infecções resultavam do contato com cidades vizinhas, motivando a realização de barreiras sanitárias mais rigorosas. Nessas blitze, chegou-se a barrar 20% dos veículos. Ao todo, 335 pessoas perderam a vida em Araraquara por Covid-19. São cerca de 140 mortos por 100 mil habitantes: um número inferior à média do estado de São Paulo, com 167,7 mortos por 100 mil habitantes, ou do Brasil, com 160,3 a cada 100 mil habitantes.

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A antipolítica genocida bolsonarista

A evidente função do Estado nesse cenário é formular políticas públicas de contenção da pandemia e de informação da população. Desnecessário relembrar que isso não corresponde à política de Dória no estado de São Paulo e muito menos à política de Bolsonaro no Brasil – como já notado pelo Libération. O país assiste ao ataque às políticas sociais, de saúde e de educação implementado desde o golpe de 2016 e bastante intensificado com o governo de Jair Bolsonaro – cujo propósito claro é forçar a população à morte até que se atinja uma suposta imunidade de rebanho com óbitos na casa de um milhão. A ordem nacional vigente, vocalizada pelo prefeito de Porto Alegre Sebastião Melo (MDB), é que a população “contribua com sua vida para que a gente salve a economia”. Mais de um ano após o início da pandemia, o Governo Federal não produziu qualquer campanha de conscientização sobre medidas de isolamento e distanciamento social, uso de máscara ou álcool em gel – adotadas em todo o mundo. Além de se esquivar de suas responsabilidades, Bolsonaro incentiva todo tipo de negacionismo, superstição, paranoia – faz tudo a seu alcance para minar as políticas mais básicas de higiene e prevenção à Covid-19. Na verdade, a campanha “informativa” que o Governo Federal tentou produzir trazia o slogan “O Brasil não pode parar” – retirada de circulação por ordem judicial.

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Em geral, cidades com eleitorado majoritariamente bolsonarista têm números piores em relação à pandemia, chegando a um acréscimo de 11% no número de casos e 12% no número de mortos. Isso ocorre porque a militância bolsonarista da desinformação é ativa trava combate contra as medidas de contenção. Embora derrotados nas urnas em Araraquara, supostos moradores da cidade estiveram no famoso “cercadinho” do Palácio da Alvorada em Brasília “denunciando” a “ditadura” do prefeito de Araraquara ao presidente, que tentou fazer uma espécie da ameaça velada afirmando que responderia à política de Edinho longe das Câmaras. Nas redes sociais também houve ameaças de morte ao prefeito. Um comerciante conhecido por “Deivão Hard Rock” teria perguntado em seu perfil do Facebook: “alguém sabe onde o prefeito Edinho Silva mora?” complementando que o esfaquearia “de baixo pra cima.” Ao registrar boletim de ocorrência junto à polícia, Edinho relatou que a Secretária Municipal da Saúde, Eliana Mori Honain, também vinha sofrendo ameaças.

Araraquara se tornou um exemplo no combate à Covid-19 por conseguir fazer o que a maior parte das prefeituras teria feito se não estivéssemos sob influência nacional do bolsonarismo. A prefeitura do PT em Araraquara tem mostrado, em todo caso, que é preciso ter vontade política, competência e coragem para agir normalmente nesses dias estranhos. Talvez seja esse o novo normal.

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Matéria atualizada em 13/4/2021, com informações do artigo “Não é só lockdown: o que o caso de Araraquara ensina sobre combate à covid”, de Márcia Speranza e Vítor Marchetti.

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