Rodrigo Pilha: preso, condenado, torturado

Militante de esquerda foi detido por chamar Bolsonaro de genocida e está há mais de 45 dias na prisão, onde sofreu espancamento e tortura. Ditadura não estreia…

Imagem: Cris Vector / Instagram
por Danilo Matoso

Numa quinta-feira, 18 de março, um grupo de cinco militantes estendia uma faixa na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Ela trazia uma charge em que a cruz vermelha é pixada e convertida em suástica por um Bolsonaro endemoniado que diz: “Bora invadir outro?” Ao lado, em letras maiores, lia-se: “Bolsonaro genocida.” Os policiais militares bolsonaristas que patrulhavam a Praça não gostaram e prenderam os manifestantes.

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Rodrigo Pilha, Guilherme Perez, Artur Castelo, Emanuel Mendes e Vitor Vec foram levados à Superintendência da Polícia Federal, onde teriam sido enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Os deputados federais Gleisi Hoffmann (PR-PR), Alencar Santana (PT-SP), Natália Bonavides (PT-RN) e Paulo Pimenta (PT-RS) acorreram ao local denunciando o arbítrio autoritário. Em algumas horas, todos foram soltos. Ao sair, porém, Rodrigo Pilha foi preso. Tinha início ali um martírio kafkiano do militante e comunicador petista que se estende até hoje e que inclui episódios de espancamento e tortura.

Botando Pilha

Rodrigo Grassi Cadermatori, o “Pilha,” não é um militante comum. O petista é um ativista de rua e um comunicador. Militante desde a adolescência, Pilha já foi assessor parlamentar da então deputada distrital Érika Kokay (PT). Sua página no Facebook, “Botando Pilha,” tem mais de 225 mil seguidores e produz diversos tipos de conteúdo – de debates a abaixo-assinados. O forte de sua atuação porém são as transmissões ao vivo que faz desde 2014, promovendo ou cobrindo atos da esquerda, além de confrontar pessoalmente os políticos de direita com perguntas desconcertantes. Desde o início da luta contra o golpe e contra a prisão de Lula, Pilha foi presença constante nas ruas em todos os atos promovidos pela militância petista no Distrito Federal, com sua câmera, às vezes com seu drone, mas sempre em atitude desafiadora.

Segundo seu irmão, Érico Grassi, durante as eleições presidenciais de 2014 Pilha foi a uma partida de futebol num estádio com uma bandeira da campanha de Dilma Rousseff às costas, presa no pescoço. A PM tentou fazê-lo tirar a bandeira e o prendeu por “desacato.” Como o militante mudara de endereço, o processo teria transitado em julgado – ou seja, sem direito a recurso – à sua revelia. Sem que soubesse, Rodrigo foi então condenado a sete meses de prisão – uma pena que não ensejaria regime fechado. A condenação foi usada como pretexto para encarcerar o ativista. O recurso de perseguir politicamente adversários políticos por supostos “crimes comuns” é mais velho que a serra. Basta lembrar que os militantes de esquerda na década de 1960 eram presos por “assalto a banco” e que Lula foi preso por “corrupção.”

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Na terça daquela semana (16), o youtuber Felipe Neto havia sido intimado a depor na Polícia Federal também por chamar Bolsonaro de genocida, gerando uma enorme reação popular. O ato dos cinco ativistas na praça era um posicionamento claro de repúdio não apenas contra o genocídio em si mas também contra a perseguição do Estado aos críticos do presidente. Acabaram sendo, eles mesmos vítimas de um arbítrio ainda maior. Na semana seguinte, o ativista da luta pela moradia Thiago Ávila foi preso ao tentar impedir um despejo ilegal de catadores de papel a poucos quilômetros do Palácio do Planalto.

Torturando Pilha

Na última semana, o jornalista Guga Noblat divulgou um relatório médico da Gerência de Saúde do Sistema Prisional do Distrito Federal atestando que Rodrigo Pilha fora espancado na prisão. Amigos e familiares do militante denunciaram que, após sua transferência para o Centro de Detenção Provisória II – conhecido como “Covidão” – ele foi espancado e torturado pelos guardas prisionais que o custodiavam.

Segundo matéria da Revista Fórum, Pilha foi recebido com “chutes, pontapés e murros enquanto ficava no chão sentado com as mãos na cabeça,” enquanto lhe perguntavam se ele “não tinha vergonha de ser um vagabundo petista,” reiterando que “Bolsonaro tinha vindo para que gente como ele tomasse vergonha na cara.” Em outro momento, relata a Revista, “esparramaram um saco de sabão em pó na sua cabeça, jogaram água e depois o sufocaram com um balde” enquanto seus colegas de cela eram despidos e recebiam chutes enquanto eram advertidos que apanhavam por culpa do novo detento.

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Impedido de ver visitas, Pilha não recebeu roupas, e “passou 22 dias preso apenas com uma bermuda, uma cueca e uma camiseta que lhe foram doados por colegas de cela,” que demonstraram solidariedade apesar da repressão. Rodrigo Pilha está preso há mais de 45 dias e, caso a sua defesa não obtenha a progressão de pena que reivindica, permanecerá encarcerado até 4 de julho.

Diversos grupos e militantes de esquerda vêm prestando solidariedade a Rodrigo Pilha. A militante Selma Vieira criou o abaixo-assinado Liberdade para Rodrigo Pilha, que já conta com mais de 8 mil adesões.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) encaminhou ofícios aos órgãos de Execução Penal inquirindo sobre o caso e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) anunciou que apuraria os casos de tortura no “Covidão” – cujo apelido se refere, evidentemente, às precárias condições sanitárias do local. Segundo matéria da Ponte, as agressões e a tortura são comuns naquela unidade prisional. Um detento soropositivo teria sido agredido e ficado sem remédios em janeiro. Os maus-tratos, os espancamentos, a tortura, o assassinato, são desde sempre a regra em nosso sistema prisional.

Bolsonaro genocida

Mas, afinal, por que Bolsonaro se incomoda em ser chamado pelo que é? A ação renitente do presidente em forçar uma “volta à normalidade” em meio a uma pandemia vem colocando pressão política permanente sobre os prefeitos, governadores e autoridades sanitárias em geral que lutam para implementar medidas de contenção. É muito mais difícil difundir e praticar uso de máscara, higienização reforçada, distanciamento social, isolamento social e quarentena com o Governo Federal jogando contra e ainda por cima se recusando a adquirir vacinas tempestivamente.

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Bolsonaro representa, na Presidência, uma parcela do empresariado que não se importa com a morte de 0,5% da população (um número que pode chegar à casa de um milhão de pessoas), para “manter a economia funcionando” – leia-se “para manter suas elevadas taxas de lucro.” Como a maioria dos mortos são os desprovidos de recursos, os pauperizados, os negros, há um grupo social e étnico preferencial como alvo dessa política. É legítimo, sim, considerar o que ocorre como um genocídio deliberado – quer seja ele culposo ou doloso.

Num arroubo de autoritarismo, Bolsonaro decidiu a partir de março reprimir “exemplarmente” aqueles que tratam-no pelo que é. Desde lá vem usando a Polícia Federal para intimar, prender e calar diversos opositores. Felipe Neto, os cinco ativistas de Brasília e Guilherme Boulos são apenas alguns exemplos mais notáveis de uma onda persecutória que aos poucos vem tomando conta do país, da qual participam amplos setores do poder Judiciário e das forças de repressão.

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Progressivamente, instala-se entre nós um regime policialesco de perseguição, prisão e tortura dos ativistas de esquerda. Reza o adágio popular que “ditadura não estreia,” e o que se opera aqui é esse processo de endurecimento de um regime que afinal nunca poupou os excluídos, mas agora quer também calar suas vozes e eliminar seus representantes. Rodrigo Pilha foi preso e torturado porque está sempre nas ruas desafiando a direita. Caso não reajamos com veemência, em breve o seremos todos nós.

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