Estrelas da arquitetura tentam cancelar a Rússia

Renomados escritórios de arquitetura ocidentais suspendem seus trabalhos na Rússia numa tentativa tão xenofóbica quanto ridiculamente eurocêntrica de excluir o povo russo

Cúpula do Reischstag Alemão, projeto de Norman Foster. Imagem: Ank Kumar (Wikimedia Commons)
por Danilo Matoso

Diversos grandes escritórios de arquitetura europeus e norte-americanos se manifestaram contrários à ação militar russa na Ucrânia, declarando a suspensão de seus trabalhos na Rússia. Notas de repúdio foram publicadas por diversas firmas de renome como David Chipperfield ArchitectsZaha Hadid ArchitectsFoster + PartnersOMA e outras. Os textos e manifestações têm diferentes tons, que vão da solidariedade às vítimas da guerra, passando pelo apoio ao governo ucraniano, até o repúdio a Putin, ao governo russo ou simplesmente à Rússia. Fato é que, para além das palavras, o aparente boicote se dirige ao país, somando-se a uma série de atos discriminatórios ao povo russo que vêm ocorrendo nas últimas semanas em todo o chamado “Ocidente” – sobretudo na Europa.

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A iniciativa foi precedida pela de um grupo de mais de 6.800 “arquitetos e construtores” da Rússia que primeiro se manifestou em 26 de fevereiro numa “carta aberta contra operações militares na Ucrânia”. O viés é pacifista. Para os profissionais, “Questões de política externa devem ser resolvidas por meios exclusivamente pacíficos! A guerra não pode ser um instrumento político no século 21”. Também no meio artístico, seguiu-se a manifestação do estilista italiano Giorgio Armani, 87, que realizou um desfile silencioso ao exibir sua coleção na Settimana della moda di Milano, “como sinal de respeito para com as pessoas envolvidas na tragédia que se desenrola na Ucrânia”.

Da solidariedade à condenação política

O pacifismo e a solidariedade acabaram abrindo as portas à oposição política declarada e ao boicote. Na quarta-feira de cinzas (2), o escritório de David Chipperfield declarou-se solidário à Ucrânia e ao seu povo, decidindo “suspender todo o trabalho na Rússia”, condenando “as ações de Putin e do governo russo”. Há uma transição aqui em relação às manifestações anteriores. Não se trata apenas de pacifismo e solidariedade, mas também de condenação aberta ao mandatário do país e a sua política exterior. Mais ainda: por estranha que possa parecer, a suspensão dos trabalhos é um boicote ao povo russo, e não apenas a seu regime ou a seu governo. O escritório conduzia o restauro da Central de Telégrafos em Moscou, projetada por Ivan Rerberg em 1927.

O escritório londrino da arquiteta iraquiana Zaha Hadid, falecida em 2016, também conduzia obras nos países diretamente envolvidos no conflito , como três estações de metrô em Dnipropetrovsk, Ucrânia, ou o centro de negócios Rublyovo-Arkhangelskoye, a oeste de Moscou. A firma, hoje liderada pelo alemão Patrik Schumacher, aderiu ao boicote suspendendo seus trabalhos na Rússia. O inglês Norman Foster, um dos expoentes da arquitetura high-tech da década de 1970 e autor da reforma do Reichstag alemão pós-reunificação, anunciou: “nós repudiamos a invasão russa à Ucrânia e por isso decidimos parar os trabalhos de todos os nossos projetos na Rússia”.

Na Europa continental, o primeiro escritório a suspender os trabalhos foi o MVRDV de Rotterdam que, acompanhando uma epígrafe de Yuval Hararideclarou “condenar veementemente a violência” contra a Ucrânia, paralisou seus trabalhos naquele país, levando-os também a “parar os projetos russos, mesmo que isso signifique deixar de colaborar com pessoas que conhecemos há anos, dedicadas a levar uma visão mais colaborativa e internacional à Rússia”. Embora com uma nota mais curta, o escritório de Rotterdam OMA, do starchitect holandês Rem Koolhaas, também aderiu ao boicote, seguido ainda pelo também holandês Ben Van Berkel e seu UNStudio, que condenaram as “ações desumanas” provocadas pela “invasão e violência do governo russo”.

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Na mesma linha os suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, que divulgaram uma nota “em solidariedade ao povo da Ucrânia” declarando que, com a compreensão de seus clientes haviam decidido suspender seus trabalhos em projetos russos”. Os dinamarqueses do Snøhetta também condenaram “todos os atos de vilência” e suspenderam seus trabalhos. Essa insólita lista cresce cada vez mais. A estadunidense Liz Diller, em nome do escritório Diller Scofidio + Refro e o escritório escocês Kettle Collective teriam também emitido notas de repúdio e suspendido seus trabalhos na Rússia.

A manifestação mais curiosa é a do dinamarquês Bjarke Ingels, à frente do escritório BIG, que declarou em seu perfil no Linkedin se unir à “comunidade internacional em solidariedade ao povo ucraniano, nossos colegas, amigos e familiares na região. O BIG não tem quaisquer projetos na Rússia ou encomendados pelo governo russo, mas nosso apoio à soberania da Ucrânia, à democracia, aos direitos humanos e à integridade territorial é inabalável”. Ou seja: não tem como boicotar a Rússia, mas se pudesse o faria seguramente.

Trata-se aqui de uma expressão de solidariedade, de afeto justo por pessoas que os profissionais conhecem, e que residem nas áreas afetadas pelo conflito. É claro que esse sentimento deve ser respeitado.

Mas trata-se também de uma não solicitada explosão de arrogância colonialista e eurocêntrica há muito conhecida de qualquer asiático, latino-americano ou africano que circula pelo chamado Ocidente. Afinal, que diferença faz para o povo russo a suspensão dos trabalhos dessas mentes iluminadas e escritórios endinheirados em seu território? Absolutamente nenhuma.

Ao contrário, a maioria dos arquitetos russos – inclusive boa parte dos mais de seis mil que se manifestaram contra a guerra – deve estar exultante com um projeto gringo superfaturado a menos em suas terras, e um concorrente inconveniente a menos, claro.

Sistema estelar

O esquema dos megaescritórios de arquitetura que atuam globalmente é bem conhecido há décadas, e é diferente do que ocorria até a década de 1970. Até então, se arquitetos como o brasileiro Oscar Niemeyer ou o suíço Le Corbusier realizaram obras no exterior, o faziam a partir de pequenos ateliês, ou mudando-se temporariamente para o país em que executavam as obras. Grandes escritórios como Skidmore, Owens & Merryl sempre atuaram em todo o mundo para grandes clientes corporativos, torres bancárias etc..

O chamado Star System, Sistema Estelar atual opera de modo diferente. Afirmam-se globalmente praticando uma arquitetura via de regra estrambótica e pouco econômica, que se destaca por sua bizarrice associada a algum discurso hermético próprio de certos setores da cultura contemporânea. São publicados nas revistas e livros de seus países, recebem prêmios globais e ganham uma espécie de legitimidade incontestável para atuar em qualquer cidade, em qualquer território, por qualquer preço, fazendo qualquer coisa que chame bastante a atenção.

A partir de tal cacife simbólico, são atraídos arquitetos ou empreendedores locais para realizar grandes e chamativas obras capazes de dar publicidade e atrair o turismo para uma determinada região. Nesses casos, parece que todos ganham: o arquiteto gringo e seu parceiro local faturam um bom projeto e seus honorários, o proprietário faz uma obra chamativa, a região ganha em investimentos e turismo.

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O exemplo mais conhecido desse tipo de procedimento é o mundialmente famoso Museu Guggenheim projetado pelo estadunidense Frank Gehry na cidade basca de Bilbao. É claro que, como em todo empreendimento colonialista, nem tudo são flores. Os arquitetos locais são preteridos, a execução da obra é normalmente caríssima e superfaturada por adotar soluções técnicas pouco usuais na região, e muitas vezes a cidade acaba com uma obra abandonada – caso da Cidade da Cultura, projetada em 1999 pelo estadunidense Peter Eisenman na Galícia – ou um elefante branco que acabou por não atrair ninguém.

Boa parte do campo arquitetônico conhece e deplora há décadas esse modelo predatório de funcionamento do chamado Star System da arquitetura global. Afinal de contas, a esmagadora maioria de nossas cidades não é composta de obras excepcionais projetadas por gênios, e a veneração dessa prática não auxilia os jovens arquitetos a encontrar seu lugar no mundo do trabalho, cada vez mais precarizado, competitivo e até mesmo plataformizado – com autônomos executando desenhos para escritórios estrangeiros de outros continentes sem qualquer direito trabalhista.

O caso do suposto boicote à Rússia como forma de protesto político, por parte desses escritórios, é uma espécie de demonstração ridícula da mentalidade que grassa entre essa turma. Parece que para eles a execução de trabalhos na Rússia seria uma espécie de ato caridoso ou civilizatório, uma migalha de desenvolvimento que eles estariam dispostos a benfazejamente compartilhar com essas terras inóspitas que não são conhecidas por “Ocidente” nem fazem parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Na melhor das hipóteses, os arquitetos seriam os “aliados” – em companhia de Armani e outros estilistas – mencionados pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que anunciou no último dia 1º: “estamos nos juntando com aliados europeus para apreender os iates, jatinhos e apartamentos de luxo dos oligarcas russos”.

Xenofobia inconsciente?

Eles não fazem por mal. Não se trata de uma ação urdida por mentes malignas imperialistas dentro de uma sala envidraçada na City de Londres. É simplesmente o eurocentrismo natural que permeia sua cultura e seu meio. Essa inconsciência do ridículo de seu suposto boicote ao povo russo é talvez o lado mais lamentável do episódio, só comparável à explosão de comoção racista por parte da imprensa europeia e estadunidense quando eclodiu o conflito: “oh, céus, é uma guerra envolvendo gente branca e europeia, e não negros, latinos ou árabes em outros lugares do mundo”.

Ao fim e ao cabo, a suspensão dos trabalhos dessas estrelas na Rússia é tão xenofóbica e inefetiva no que diz respeito à guerra quanto os cancelamentos bizarros que vêm sendo promovidos na Europa e até mesmo no Brasil: demissão de artistas russos, suspensão de pratos russos, suspensão de cursos sobre literatura russa, e outros absurdos que parecem mostrar que, se “o liberal é um fascista de férias” – como reza o bordão popular –, o descanso parece ter acabado. Consta que até mesmo um restaurante de São Paulo deixou de servir um estrogonofe duvidoso, como uma forma ridícula de represália à pátria de origem do prato.

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O detalhe é que, por burlescas que pareçam essas demonstrações, elas não são inócuas: são manifestações explícitas de xenofobia, da tentativa da destruição e da eliminação do povo russo do mapa: um “cancelamento” de cariz fascista. É uma institucionalização explícita da tentativa de proscrição de uma cultura. Não foi outro o teor do pedido do presidente da União Nacional dos Arquitetos da Ucrânia (CANY), que teria implorado à União Internacional dos Arquitetos (UIA) pela expulsão da Rússia da organização – conseguindo em todo caso uma nota de repúdio.

Solidariedade para quem?

Lembremos que dizer-se “contra a guerra” tout court é de um truísmo similar ao nosso bem conhecido “ser contra a corrupção”. Afinal, quem é a favor da guerra ou da corrupção? Ninguém – pelo menos não explicitamente. É bastante cômodo assumir uma postura de aparente neutralidade pacifista para implicitamente defender o agressor mais forte: a Otan, no caso. Pega bem com os amigos nos coquetéis e nas universidades, e ninguém perde cliente.

Vale reforçar também que os países desses arquitetos promoveram guerras e golpes de estado em todo rincão do globo de modo incessante no último século. Nenhum desses escritórios se manifestou contra qualquer desses conflitos, nem contra o bombardeio da Síria que ocorria na mesma semana. Eles não se preocupam minimamente com os arquitetos afegãos, sírios, etíopes, iraquianos ou libaneses, sobre cujos países despejaram toneladas de explosivos.

Nenhum deles foi solidário aos arquitetos brasileiros que se manifestaram contra o golpe de estado de 2016. Tocaram um solene “danem-se”, até porque foi o Departamento de Estado dos Estados Unidos que promoveu abertamente a Lava-Jato, a criminalização da esquerda, a derrubada de Dilma. Foi enfim a máquina de propaganda de Steve Bannon que elegeu Bolsonaro presidente.

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Sabemos que não há limites para a idiotice humana, mas é difícil acreditar que esses arquitetos globais não saibam os absurdos por que passamos nos últimos anos aqui no Terceiro Mundo. Se defendem a soberania de todos os países, se são contra o genocídio e a violência, como dizem, por que não se manifestam contra as ações predatórias e imperialistas de seus próprios países? A razão parece bem óbvia: o método de trabalho do Star System nada mais é que um braço cultural – ainda que aparentemente inconsciente – do mesmo imperialismo que promove esses ataques. Querem “cancelar” o povo russo com a mesma empáfia eurocêntrica com que “cancelam” e invisibilizam a arquitetura local dos lugares onde se metem.

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