População | por Luis Britto García

Com tecnologia e fármacos de ponta, erradicar a população, os úteros rebeldes e a vida que insiste em nascer – até sobrar apenas ecos e espanto. Uma distopia malthusiana (não tão distante)…

Imagem: Haikus, de Fernando Asián (1951), artista venezuelano
por Luis Britto García, com tradução de Rôney Rodrigues

Dando sequência à série Mundos (im)possíveis de Britto Garcíapublicamos o conto Población, do livro Rajatabla (1971), de Luis Britto García, com tradução inédita em português por Rôney Rodrigues.

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É a explosão, diziam, não se deve ter filhos, é a explosão demográfica, diziam os técnicos, olha: teu país rico, teu país produz bons dividendos, mas tua gente é pobre porque ah, como em todos os países subdesenvolvidos, a explosão demográfica.

 E vieram os técnicos com suas brigadas educativas diga se prefere as pilulazinhas ou a ovariectomia mas sempre há também a esfincterotomia irreversível mas tão boa, adeus crianças, adeus subdesenvolvimento, e isso aconteceu há tempos e tivemos o mar sem pescadores e os montes sem pastores e as planícies sem peões e a população se reduziu à metade mas de que adiantou, a fome era a mesma, apertava como um alicate e então voltaram as brigadas.

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É a explosão, disseram, sempre, sempre a explosão demográfica. A prova, repare só: teu país é rico, teu país tem dado os melhores dividendos, mas não é suficientemente rico para que vocês vivam. São muitos, muitos.

E regressaram os técnicos com os raios que provocam overdose e a vacina dada com a de varíola ou melhor ainda sem a da varíola, que vivam as pestes, e tivemos as escolas sem crianças e tivemos os campos sem lavradores e tivemos as janelas das cidadezinhas sem moças e tivemos os jardins sem jardineiros e a população se reduziu a um quarto do que era antes, mas a fome apertava como um torniquete e então voltaram as brigadas.

É a explosão, disseram, ainda é a explosão, só assim se explica país que dê tantos dividendos aos bons vizinhos, e ainda sim tem gente na miséria. Não murmurem sobre as corporações, não suspeitem dos consórcios, não pensem nisso, é a explosão.

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E nos deram créditos para que nos aplicássemos Esterilamida e empréstimos para que comprássemos os pulverizadores de colheita e expandíssemos o Nulfertizão e por vezes o cianogênio mortal e tivemos as ruas sem transeuntes e tivemos as salas esvaziadas e sem tias discutindo o sarampo dos sobrinhos e tivemos os mercados que só vendiam ecos e tivemos as carpintarias com pregos que nunca saíram das latas e enlouqueceram dentro delas e tivemos as trepadeiras estrangulando os balanços e tivemos as bonecas que eternamente retorcem a mão e tivemos os aquários cuja água se evaporou, e a população se reduziu a um dezesseis avos do que era antes, é a explosão, diziam, e a população se reduziu a um trinta-e-dois avos e víamos por todos os lados cada vez mais consórcios e cada vez mais dividendos, é a explosão, me repetem.

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Agora fiquei eu só, só em todo o país que antes abrigava a tantos, e ainda estou com fome, ainda estou doente, ainda ignorante. É a explosão, me dizem, é a explosão que impede o desenvolvimento, e lá longe vejo muito arame farpado de muitos consórcios e hoje morrerei de fome, morrerei de fome em país afortunado o primeiro a livrar-se da explosão demográfica, e está crescendo um grande silêncio, um grande silêncio, um grande silêncio.

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