Britto García: receita para a América Latina insurgente

A cozinha política e literária de renomado autor venezuelano. Em panela funda, refogue Marx, piratas, cultura popular, novas tecnologias e ideias descoloniais

Imagem: Facebook
por Rôney Rodrigues

O perfil de Luis Britto Garcia a seguir completa a série Mundos (im)possíveis de Britto García, publicada ao longo de junho n’O Partisano, em traduções inéditas para o português. Os oito contos da série podem ser acessados pelos seguintes links: Carne | Rubén | Piquinique interrompido | O fazedor de deuses | Livros | O presidente acordou de bom humor | População | Helena

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Sobre idílios piratas

Franzino, miudinho que só ele, o escritor venezuelano Luis Britto García, 80 anos, defensor não acomodado da Revolução Bolivariana, intelectual respeitado cuja pena pode chacoalhar governo (e oposições, alla destra e sinistra), queria mesmo era ser astrônomo – ou, então, matemático. Talvez cantor de salsa; melhor ainda, pirata! Mas não é ressentido; sabe que a vida é por demais curta para shots de amargura e, apesar da solidão em frente a papéis, Olivettis e computadores, pôde exercer um pouquinho destes ofícios sonhados através da arte e ciência da fabulação.

Por trás de sua obra, que desvela o horror colonial, mas sapecada de fina ironia, tresloucada ficção científica e utopias possíveis, está um cara tímido e cortês, que transparece certa serenidade gritante – e, num idílio corsário, que talvez ele mesmo já tenha fantasiado, poderíamos muito bem imaginá-lo agarrado ao mastro de uma fragata, espreitando o horizonte incerto que se afigura, curtindo pele e cuca sob o ensolarado Mar do Caribe.

Também poderíamos presumir que seria pirata aplicado – afinal, desde criança, já se interessava pelo mergulho livre, a plenos pulmões, como diz, e na adolescência logo descolou emprestados seus primeiros escafandros autônomos (começando ali sua carreira no mergulho esportivo, ainda ativa, com mais de 300 horas de imersão pelas águas salgadas do Caribe, Japão, Mar de Cortês, Galápagos, Grécia, Mar Vermelho e Malásia).

Mas voltemos ao jovencito Britto García, que devorava alfarrábios sobre o universo de caravelas, bergantines, saveiros e urcas. Obcecado por qualquer navio que tivesse atravessado a costa venezuelana. Que mergulhava na história das Grandes Navegações – ou Primeira Guerra Mundial, como pontua ele hoje, desencadeada em 1492 quando Cristóvão Colombo pisou na América, conturbando a geopolítica dos mares. Pois bem. Este inquieto venezuelano queria explorar lugares nunca dantes navegados; ir além dos livros; se enveredar in loco pelas complexas terminologias marinhas da Era de Ouro da Pirataria; sentir o sazón do mar aberto. Reuniu, então, sua tripulação-pana, amigos porra-loucas dispostos a navegar, por eles mesmos, em um balandro, embarcação similar às dos flibusteiros, os gloriosos piratas das Antilhas dos séculos XVII e XVIII. E assim o fez.

Tomou gosto pela coisa. Não só: também se enveredou pela arqueologia naval e, em 1978, como explorador submarino e cronista, integrava a equipe que descobriu, no litoral venezuelano, os destroços da frota francesa do vice-almirante Jean d’Estrées, que naufragara em 1678 a caminho de Aruba e Curaçao. Na’guara! Canhões coloniais, artilharia pesada e navios, mais para carcaças de ferro e madeira, ali, diante de seus olhos assombrados, uma paisagem mágica, história viva submersa no tempo por 300 anos…

“A história real dos piratas é infinitamente mais interessante que as besteiras das novelas e do cinema”, conta ele, em entrevista por e-mail. “A princípio, eles foram instrumentos expansionistas dos reis, logo tornaram-se independentes e fundaram sociedades autônomas e igualitárias no Caribe e em Madagascar, para terminarem exterminados pelos mesmos monarcas cuja expansão naval facilitaram. Para este assunto dediquei um romance, Piratas [1994], e três livros de investigação histórica: Demonios del Mar [1999]; Indígenas, Piratas y Conquistadores [2001] e Los Piratas Libertarios [inédito]. Quando a pandemia se amenizar, penso em explorar os restos da nave insígnia da frota com a qual o ‘Pacificador’ Pablo Morillo veio em 1814 para acabar com a Guerra de Independência [Espanhola, 1808-1814]”.

A Cabeça

A captura do pirata Barba Negra (1718), de Jean Leon Gerome Ferris. “A história real dos piratas é infinitamente mais interessante que as besteiras das novelas e do cinema”

Mas voltemos àquela fantasia inicial de pirataria. Britto García enganchado no mastro, horizonte contemplativo e… de repente, não mais que de repente, surge um ataque furtivo de embarcação inimiga. Canhões candelas, correria, cheiro de pólvora, ganchos, corpos ao mar, embate mano a mano, sangue no convés. Se por desventura, nesta algaravia toda, a cabeça do escritor – 58 centímetros de circunferência, 6,2 quilos, forrada por pele alva, lisinha, barba e cabelos brancos-escorridos, entradas protuberantes na moleira, sobrancelhas acinzentadas, olhos esbugalhados, ternos e vívidos, e lábios finos, finíssimos – fosse decepada por cimitarra, e rolasse ao pé de certo marujo güevón, curioso que só ele, que ousasse descortiná-la com abridor de latas, ou qualquer outro instrumento bem afiado, a partir da têmpora esquerda, “só para ver o que tem dentro”, levaria um baita susto: lá dentro, em meio à massa encefálica e frenéticas descargas elétricas de sinapses, urram, exaltam-se, pululam mundos imaginários, feitos torresmo no tacho quente, à espera de serem paridos.

“Há vários livros saindo do forno”, adverte ele. “E outros cuja massa ainda está cozinhando”: uma ficção científica sobre Inteligência Artificial, “para a qual estou lendo muita matemática, espero poder escrevê-la, teria que ser um computador a escrevê-la”; um livro de relatos ultrabreves; outro de ensaios literários; um estudo sobre os possíveis caminhos ao desenvolvimento no século XXI; avança, de vez em quando, em vários tomos sobre as artes na Venezuela, da pré-colombiana até hoje, projeto “que honestamente necessitaria de várias vidas para concluí-lo”; e recém-colocou ponto final em um sobre a Questão Essequiba [imbróglio territorial entre Venezuela e Guiana, que remonta ao século XIX, por uma região riquíssima em recursos naturais]. Também leva, “sem saber se sairá algo delas”, várias anotações autobiográficas e de seus sonhos.

“Para mim, terminar um livro é começar vários outros mais. Como se pode ver, desenvolvi imunidade contra a síndrome TMT, Tudo Menos Tese, que esteriliza a tantos intelectuais venezuelanos”, disse ao Correo del Orinoco, quase se justificando, quase como se relatasse uma sina.

Presa e vagar

“Cada indivíduo elabora o seu próprio mistério e a literatura é a narração dele”

Não é que ele, com sobriedade, peso e urgência-vagarosa de 80 primaveras (e invernos) esteja em busca do tempo perdido. Não, não. Definitivamente, não. Ele desfruta a posterioridade em vida. Após longa e sólida carreira como professor de Direito em prestigiada universidade, pesquisador do Instituto Armando Reverón, diretor da editora Monte Ávila, ter recebido quase duas dezenas de prêmios e representado seu país na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (2013-14), é frequentemente homenageado em eventos literários e acadêmicos, convidado a ministrar conferências, procuradíssimo pela mídia para dar pitacos sobre a conjuntura política e postulado a cargos públicos (recusados educadamente).

2014. Na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Britto García rebate alegações de que Estado venezuelano monopoliza mídia e persegue jornalistas

 

Tampouco que se interesse apenas por política, pirataria e ficção. Publicou cerca de 90 títulos, profícua média de mais de uma obra por ano vivido, em diversas áreas: romance, contos, Direito, História, dramaturgia, Política, Cultura, Comunicação, Filosofia, roteiros de cinema, humor, desenho. Entre eles, dois clássicos da literatura latino-americana, ainda inéditos no Brasil: Rajatabla (1971) e Abrapalabra (1981) – uma das lacunas que Eric Nepomuceno, célebre tradutor brasileiro das obras de Borges, Rulfo e García Marques, cita como retrato da pasteurização do mercado editorial brasileiro. 

A volumosa bibliografia brittogarciniana abarca desde estudos sobre a contracultura, a formação da identidade do povo venezuelano e o imperialismo na América Latina à filosofia da Ciência e Tecnologia, os “gêneros malditos” da Comunicação, a geopolítica do petróleo e o Socialismo do Terceiro Milênio.

“Frequentar locais inconfessáveis me levou a multiplicar lamparinas a óleo velas velonas círios, sempre perguntando-me o quanto demoraria em acompanhar-me o primeiro ingênuo, o quanto demoraria em aparecer a primeira vítima da pegadinha. Eu que esperava a primeira velinha não colocada por mim, e numa madrugada noto, enroscada em uma das pernas daquele que era chamado de O Rinoceronte Gripado ou O Burro de Hérnia, uma guirlanda de flores de plástico sorrindo à alvorada iminente com suas vibrantes cores verde arara rosa gengiva de cachorro amarelo hepatite, o primeiro hino de glória que, com meus dedos tímidos, acariciei.” – Trecho de O fazedor de deuses

Mas, como o leitor atento pode notar, nada de poesia. Confessa que rabisca, sim, seus versos, embora nunca tenha se atrevido a publicá-los – e tampouco sabe se o fará. Floreia as razões, citando Philip Sydney [1554-86, poeta britânico], “que se pode ser poeta sem escrever versos, assim como se pode escrever versos sem ser poeta”. Mas o motivo real é que os poetas têm línguas muito afiadas.

Apesar de temer a notória maledicência dos círculos literários, ele é o autor nacional postulado ao Prêmio Nobel de Literatura pela Academia Venezuelana de Letras – ao menos, nos últimos dois anos. “Bater à porta não significa entrar”, diz, quase se desculpando, se esforçando para colocar a modéstia à frente dos louros, já que nem todos chegam a tocar o interfone da Casa sueca.

A esta altura, é de se perguntar: o mosquito da procrastinação nunca picou Britto García? Quais shakes toma, “treinos” que leva, dieta que mantém e coaching que reza para manter esta vitalidade intelectual? Especulo de forma mais sutil, camuflada de psicologia barata – e o previno: olha, isso é psicologia barata. “Mas você não seria um ressentido com a vida, por ela ser uma só? Ou é apenas um tremendo curioso sobre seus mistérios?”.

“A brevidade da vida me incomoda em comparação com a extensão dos projetos em que estou trabalhando. Para mim, a escrita é uma apropriação e uma reelaboração da vida, uma tentativa fracassada de sistematizar o mistério”, responde ele.

Insisto:

“Alguma pista para uma juventude por demais apressada que tenta mergulhar nesse mistério?”.

“Para cada um esse mistério é diferente”, explica. “Para os países com grande demografia de povos originários, pode ser a tradição. Para os países com grande migração europeia, poderia ser um redescobrir-se a partir de uma ótica inusitada. Para países como Venezuela, Brasil, Colômbia e grande parte do Caribe, o questionamento sobre a miscigenação, o choque e a hibridização cultural. Mas cada indivíduo elabora o seu próprio mistério e a literatura é a narração dele”.

Contento-me com a resposta, mas talvez, quem sabe, olhar sua vida pelo retrovisor forneça algumas pistas.

Olhando, então, pelo retrovisor

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Britto García e doña María: “Minha mãe se negou a ler para mim os quadrinhos para me obrigar a aprender a ler”

O pequeno Lucho nasceu em berço de classe média, em 1940. Seu pai, Clemente Britto, era professor de literatura; a mãe, María García, secretária do Ministério da Educação, chegou a trabalhar ao lado do renomado romancista (e futuro presidente da Venezuela) Rómulo Gallegos, autor do clássico Dona Bárbara [1929, esgotado no Brasil, mas que recentemente ganhou nova tradução]. Luis segurou a bronca de ser o filho mais velho da prole Britto García completada por outros seis rebentos: Clemente, Yanina, Gerardo, Fernando, Clemente (outra vez) e a raspa do tacho, Carolina.

Não havia televisão na casa, como se pode presumir. Além de explorar a vizinhança, nadar de peito aberto, rodopiar piões e empinar pipas, o muchacho amava os quadrinhos, lidos como espécies de contos de ninar pela doña María, já que o filho mal formava sílabas.

“Eram fantásticos aqueles caricaturistas, como Burne Hogarth, o realizador de Tarzan, que tinha um amplo conhecimento sobre a anatomia humana e fazia desenhos fantásticos”, relembra o primogênito mimado – e, aproveitando que adentrou o universo das HQs, não se contém em exaltar também Harold Foster, de Príncipe Valente, e Winsor McCay, de Pequeno Nemo, artista que considera visionário, tanto nos traços quanto na formulação de distopias.

Winsor McCay, Little Nemo in Slumberland (1905). “Eram fantásticos aqueles caricaturistas”

Queria ser quadrinista – e, pirralho, recusava-se a aprender a ler e escrever; o desenho parecia-lhe a linguagem mais efetiva, e não havia motivos para tomar atalhos desnecessários. Aos cinco anos, já desenhava capa para a revista Onza, Tigre y León, editada pelo Ministério da Educação, onde a mamãe labutava. Mas…

“Minha mãe se negou a ler para mim os quadrinhos para me obrigar a aprender a ler. Passei violentamente do Príncipe Valente para A Ilíada. Não tive outra motivação para ler e escrever do que o prazer. Aos dez anos comecei a escrever dois romances com ilustrações, um de ficção científica e outro policialesco”, conta.

“Se o vento aumentar, soltar corda. Meu papagaio, sozinho sobre a colina, fazia oitos feito um louco, todos os outros cortados ou recolhidos. Se o vento diminui, recolher corda. Sozinho não, mentira, uma coisinha branca como uma calcinha voava, rebolando meio que com câimbra à direita refletindo o sol quase piscava. O melhor ataque puxadas longas combinadas com soltadas de corda curtas. Senhor, quase sem olhar poderia ter dito que aquela merdinha branca estava sendo empinada pela Helena.” – Trecho de Helena

Aos 15 anos, está no tradicional Liceo Aplicación de Caracas. Educação rígida, exemplar, mas com brechas para cavar rebeldias. Logo, ele toma gosto pelo jornal mural – dedicando-se a crônicas, desenhos e edição, sob o crivo (e censura) pesado da Direção do colégio – e pelo movimento secundarista, em efervescência contra a ditadura de Pérez Jiménez.

Dois anos depois, em 1957, entra no curso de Direito da prestigiada Universidade Central de Venezuela (UCV), em meio a protestos estudantis que marcaram a história do país. O regime ia caducando frente à insatisfação e resistência populares, mas tentava forçar uma reforma eleitoral para garantir uma sobrevida. Em resposta, os universitários tomaram os campi e decretaram greve. Queimavam fotos do presidente, exemplares da Lei Eleitoral e dos jornalões. A Segurança Nacional foi acionada: tropas invadiram as universidades, prenderam estudantes e fecharam os centros acadêmicos. A brutalidade era o crepúsculo do ditador, que tombaria meses depois, deposto pelas Forças Armadas.

Estádio Olímpico da UCV, 1957. Protestos estudantis em 21 de novembro contra a ditadura de Pérez Jiménez e pela autonomia universitária. Data se tornaria o Dia do Estudante Universitário na Venezuela

Em 1962, em meio ao ativismo político, aos pesados tomos de Lei para estudar, às maçantes provas, à edição de jornais universitários, aos inúmeros textos, desenhos e charges para jornais “quase clandestinos” de esquerda, encontra fôlego-extra para seu primeiro romance, Velas de Armas, “uma narrativa em forma de expediente judicial”, que só seria publicada em 1970. 

Torna-se, enfim, bacharel. Apesar ver a profissão de forma pragmática – “instrumento crítico para a análise do sistema financeiro; centro de articulação de conceitos econômicos, sociológicos, políticos e linguísticos para meus estudos sobre ciências sociais e linguagem” – nutria certo “nojo dos tribunais”, como confessa décadas depois, e advogar não era sua praia.

Em 1964, publica Los fugitivos. Mas tornar-se escritor publicado não foi tarefa fácil, tampouco glamourosa: apresentou o original mal escrito à máquina, não houve edição, raspou as próprias economias para custear a impressão, corrigiu ele mesmo as provas e fez distribuição e divulgação, a conta-gotas. Tudo em um mês – “os escritores fazemos muita coisa má, mas pagamos de forma antecipada, nossa penitência é a tentativa de publicar o primeiro texto”, diz à Monthly Review.

Britto García: “Passei violentamente do Príncipe Valente para A Ilíada”

Em troca, recebeu o seguinte conselho dos editores: dedique-se ao ensaio, a ficção não é sua praia. Não que isso tenha jogado um balde de água congelante em suas pretensões literárias, mas parece que ele certificou-se de ter um paraquedas reserva: começou a dar aulas na Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais da UCV e concentrou-se no doutorado, com a tese El presupuesto del Estado [1968]. Porém, nunca deixou de inundar cadernos e martelar à máquina suas histórias.

 

Parindo a horror e o humor

Legenda: Britto García: “a epopeia do homem faz sentido a partir do ponto de vista do homem, imediato, de combate”

Em 1970, coloca o ponto final em novo livro, aterrador mas sem perder a ternura. Dedicara 10 anos a ele. O resultado da maturação foram 73 contos, breves e densos, escritos em vertiginosas espirais temáticas e linguísticas, indo da utopia à brutal desigualdade; do humor absurdo à violência subversiva; da poesia à ficção científica – “[obra] inserida em um universo miserável e neocolonial, um inferno de realidade que Dante poderia ter copiado, como propunha Martí”, a definiu o escritor uruguaio Eduardo Galeano [1949-2015].

Surge, então, Rajatabla [baixe-o aqui, em espanhol], que fatura o Prêmio Casa das Américas, na modalidade contos.

“O que acontece quando eu acabo de escrever Rajatabla? Veja bem, uma luta armada que abalou a Venezuela por 10 anos fora exterminada. Vários amigos meus haviam sido mortos, presos, torturados…”, conta ele em entrevista à Universidade Nacional de Cuyo (Uncuyo). “Havia um derrotismo total nas fileiras da esquerda. Por outro lado, numa perspectiva ampla do destino do universo e com ele o do homem, talvez a aniquilação e o esquecimento. Então, perceba, são histórias de combatentes; vistas também a partir da ótica do distanciamento, ou seja, a epopeia do homem faz sentido a partir do ponto de vista do homem, imediato, de combate, se nos afastarmos vários bilhões de anos do que está acontecendo agora, bem antes ou bem depois, que sentido há na resistência humana? Portanto, a conclusão disso é que a existência humana tem o sentido que queremos dar a ela, que nos impomos a dar. Pois o universo nada mais é do que um conjunto de matéria em movimento, tornando-se cada vez mais complexo. Mas para um observador não humano não faria sentido”.

“primeiro: esperar dá de noite chegar no sinaleiro junto dos carro que breca mostrar a caixinha de limpar sapatos e falar Moço, mim dá um trocadim pá comprá graxaaa até que o polícia se aporrinha e fala que tamo trapaiando o tráfego, segundo: correr até o cinema onde fala ESTREA PANAVISION LISA-BEST TAILOR e falar pra eles pros questacionam carros Moço deixa que eu olho até que o rapaz qué mais grande chama nois pra porrada, terceiro: na rua mais longe pular nos carros questacionam e quando eles fechar a porta gritar Aiai Uiui Ceta Ralho e falar ai carai você mim prensou a mão ai carai mim prensou a mão com a porta e aí talvez outro chega e fala Moço olha pra ele ele tá falando que tá doendo muito que se o senhor não dar alguma coisa pra ele ele vai quebrar o vidrio com uma pedraaa […]” — Trecho de Carne

Rajatabla quase passou despercebida na Venezuela. A imprensa local não estava interessada em obra e autor premiados pela “Cuba comunista” – só uma pequena nota noticiava o feito de um tal Britto García. Porém, a Editora Bárbara, vendo o bonde da história literária venezuelana passar, empreendeu esforços em sua humilde gráfica para lançar o livro em tempo recorde. Deu certo: ele teve considerável alcance na terra natal do escritor – e levou o recém-criado El Juglar, grupo teatral que renovaria o teatro latino-americano sob a direção de Carlos Giménez [argentino-venezuelano, 1946-1993], a um rebatismo: fiat lux a Rajatabla Teatro – que logo solicita uma peça ao novo rosto da moderna literatura nacional. Britto García escrevia cada ato à medida que o anterior era ensaiado. Em 1971, estreava sua primeira peça, Venezuela tuya, que logo fatura o Prêmio Juana Sujo.

Venezuela tuya (1971), montagem teatral da Cia Rajatabla

A trajetória do Grupo Rajatabla, que marcou o teatro venezuelano — e latino-americano

Nessa época, ele relembra, tinha pastas abarrotadas de rascunhos e materiais avançados para publicar mais “dois ou três Rajatablas”. Mas conteve o ímpeto em publicá-los. “Para mim, cada livro é uma proposta diferente. Quase sempre que escrevo eu trato não só de apresentar um tema novo, mas uma nova forma de tratar um tema”, diz. Anos depois, em 1980, na brisa de não repetir a si mesmo (e, talvez, temendo a síndrome de Orson Welles, cuja primeira obra-prima, Cidadão Kane [1941], ofuscou outros trabalhos), ele publica Abrapalabra, romance monumental descrito por Salvador Garmendia [escritor venezuelano, 1928-2001] como “proeza literária”, “um e mil romances enfileirados, paralelos, simultâneos, projetados ao infinito” [aqui, em espanhol]. Novamente, leva o Casa das Américas.

2018, Festival Internacional de Poesia de Medellín, Colômbia. Britto García lê Rubén, “trajetória condensada” de um dos personagens centrais de Abrapalabra: “um ritual de iniciação a que todos e cada um de vocês foram submetidos”

Em 1982, passa uma temporada na Europa, onde diploma-se, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de París, em Estudos Avançados Latino-Americanos. Dois anos depois, publica La orgía imaginaria, “um livro de utopias”, diz em entrevista à Uncuyo, “em que procuro usar uma linguagem diáfana porque o que me interessa é a utopia, como sujeito narrativo. Uma parte do livro é dedicada às utopias históricas e a outra é um conjunto de utopias que invento eu” [leia-o aqui, em espanhol]. Ativo nas investigações acadêmicas, conclui La máscara del poder [1988], estudo sócio-histórico sobre os mecanismos de conquista e concentração do poder, e El poder sin la máscara [1989], que analisa as raízes do populismo, ambas premiadas pela UCV, onde efetiva-se como professor titular.

“Romances, contos, obras de teatro, roteiros cinematográficos, artigos de opinião, textos humorísticos, estudos culturais, históricos e políticos, crônicas, ‘panfletos’, ‘gêneros malditos’ e de todos outra índole constituem a apaixonada e apaixonante obra de Luis Britto García”, analisa a escritora, tradutora e crítica literária Judit Gerendas, em entrevista por e-mail. “[Uma obra] marcada pelo hiperbólico, pelo excesso, pela contradição fecunda, por ser uma tentativa de imbricação de um tecido textual que se esforça por mostrar o seu rasgo, num processo infinito em que o discurso tenta ocluir o vazio, impulsionado pelo desejo trágico e irrealizável de dar sentido ao absurdo, a imagem devoradora do nada”.

Venezuelana mezzo húngara, Gerendas é professora aposentada de Teoria Literária da UCV, onde atuou por 25 anos. Hoje, debruça-se em um projeto homérico sobre a literatura venezuelana, em três tomos de quase mil páginas cada. Por coincidência, conta ela, meu e-mail chega justamente quando ela avança no capítulo sobre a obra de Britto García. Pergunto: por que lê-lo hoje?

“A razão é a mesma para ler qualquer clássico: suas obras nos falam de temas e questões que nos afetam e nos concernem, para além da época em que foram escritos; que nos cativam; nos sacode o espírito trágico de Abrapalabra e o irônico e humorístico de Rajatabla. São a expressão de uma criatividade poucas vezes igualada entre nós. Considero Luis Britto García uma figura única dentro da história da literatura venezuelana. Um intelectual ativo, não daqueles de gabinete, de mesa de bar. [Mas] participativo nos assuntos do país”.

Soy loco por tí, America

Um personagem histórico “ressuscitado” pela ficção. Monumento ao Cacique Guaicaipuro. Los Teques, Estado Miranda, Venezuela

Percebo, agora, que este perfil, que também é entrevista, poderia começar de outra forma. O mundo parece arder – e, o mal-humor dos desavisados poderia inquirir: poesia numa hora dessas? Talvez pudéssemos abrir espaço para as leituras urgentes de Britto García, sua faceta “mais política”. Recomecemos, então. Em vez de histórias de piratas, um guerreiro indígena, chamado Guaicaipuro Cuatemoc, cacique “descendente daqueles que povoaram a América há 40 mil anos”, que não se sabe precisamente quando ou onde, mas não faz muito tempo, comparece – ou fora convidado ou, mais bem, escrevera uma carta a ser lida, dependendo do relato – a uma cúpula multilateral que poderia ter sido da ONU, OEA ou de chefes de Estado da Comunidade Europeia. Faz contundente discurso:

“No Arquivo das Índias, papel sobre papel, recibo sobre recibo, assinatura sobre assinatura, que só entre 1503 e 1660 chegou a Sanlúcar de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata da América”, diz, após denunciar o genocídio indígena. Prossegue: “podemos nos perguntar: os irmãos europeus fizeram um uso racional, responsável ou, pelo menos, produtivo dos recursos tão generosamente adiantados por nosso Fundo Indo-Americano Internacional?”

Por vezes, o cacique não é um cacique, mas certo “embaixador indígena do México” ou, então, Evo Morales. Esta inflamada ode anticolonial correu o mundo, tomou vida própria e adquiriu contornos míticos. A princípio, pelas correntes de e-mail; depois, pelas redes sociais. Tornou-se expressão de uma América Latina insubordinada que, após o pesadelo neoliberal, elegia governos progressistas e buscava, aos trancos e barrancos, domar o touro arisco do imperialismo e recuperar a esperança no futuro.

O cacique, na verdade, é Britto García – ou melhor, seu personagem, que ganhou o sopro da ficção numa crônica ao El Nacional de Caracas, publicada em 18 de outubro de 1990, Dia da Resistência Indígena. A mentira que parece verdade, ou a verdade que parece mentira, o diverte, como nota-se no vídeo abaixo – ainda hoje, conta o escritor, muita gente, inclusive antropólogos, juram de pés juntos que Guaicaipuro Cuatemoc realmente existiu em carne, osso e ousadia.

Na Feira do Livro de Caracas, em 2017, o escritor comenta o jogo de verdades e mentiras em torno do Cacique Guaicaipuro Cuatemoc. Aqui, traduzido ao português

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E o que o Cacique, ou seu criador, diria ao mundo de hoje, pergunto.

“Exatamente o mesmo que no primeiro discurso. Talvez eu adicionasse um solilóquio contra os supostos movimentos indígenas que apoiaram a tentativa de secessão da Bolívia e o golpe contra Evo, ou àqueles que apoiaram o golpe contra Correa, pactuando com Lenín Moreno e chamando à abstenção nas últimas eleições equatorianas”.

“Nosso continente”, continuo eu, “caminha entre as rebeldias populares e o avanço do autoritarismo; entre as utopias possíveis e o ultraliberalismo. Como o senhor analisa a conjuntura? Que fazer – na América Latina?”

“Na América Latina vemos o contínuo fracasso do modelo de capitalismo dependente, analisado por teóricos como Theotonio dos Santos [economista brasileiro, um dos formuladores da Teoria da Dependência, 1936-2018]. Este modelo compensa sua falta de base social com autoritarismos atrozes, como o do Chile, Honduras, Paraguai, de algumas ditaduras que existiram no Uruguai, Brasil e Argentina, e aquela que se tentou impor na Bolívia. A alternativa é o socialismo, mas toda tentativa socialista na América Latina e no mundo é atacada de forma sistemática, contumaz, sanguinária, a ponto dela ter que gastar quase todas as suas forças para se defender”.

Britto García e Hugo Chávez: “Pense em uma fortaleza sitiada”

“Como construir (ou reconstruir) o Socialismo do Terceiro Milênio? Quais são os vícios por corrigir e as virtudes para se apostar?”

“Dizia [Louis Antoine Léon de] Saint Just [pensador e revolucionário francês, 1767-94] que quem faz uma Revolução pela metade cava sua sepultura. Qualquer progressismo que confie que as forças retrógradas lhe permitirão fazer mudanças de bom grado se encontrará cedo ou tarde com a violência externa e interna brutal. Lênin dizia que não há Revolução sem Partido Revolucionário, nem Partido Revolucionário sem Ideologia Revolucionária. Esse aforismo é mais válido do que nunca. Os progressismos também devem estar alertas contra a corrupção pessoal interna, que é o latrocínio, e a corrupção institucional, que é a conciliação de classes”.

“E vieram os técnicos com suas brigadas educativas diga se prefere as pilulazinhas ou a ovariectomia mas sempre há também a esfincterotomia irreversível mas tão boa, adeus crianças, adeus subdesenvolvimento, e isso aconteceu há tempos e tivemos o mar sem pescadores e os montes sem pastores e as planícies sem peões e a população se reduziu à metade mas de que adiantou, a fome era a mesma, apertava como um alicate e então voltaram as brigadas.” — Trecho de População

“A política venezuelana desperta paixões em todo o mundo, da ultradireita à esquerda crítica”, escrevo-lhe. Em mente, sua terra caribeña alçada a Nova Cuba pelo discurso bolsonarista, destino final para onde os insatisfeitos deveriam ser escorraçados; um certo presidente autoproclamado que ganhou o direito de acessar reservas de ouro e contas no exterior do Estado venezuelano no exterior; o bloqueio comercial; mas também as contradições da Revolução Bolivariana; a diáspora e a hiperinflação que acossa os descendentes de Bolívar. “O que o senhor responde quando alguém, como eu, lhe pergunta: como anda a Venezuela?

“Pense em uma fortaleza sitiada”, ele convida. “Nos têm roubado todas as nossas reservas internacionais e os ativos no exterior, em contravenção a uma Convenção da ONU sobre o assunto. Não podemos pagar por equipamentos, alimentos ou remédios porque os Estados Unidos e seus aliados ameaçam sancionar qualquer empresa ou país que faça negócios conosco. Sabotam os serviços públicos e tentam matar o Presidente e outros funcionários. Quase todos os anos há uma tentativa de invasão, como a protagonizada pela força mercenária Silvercorp, ou pelos mercenários paramilitares agora na fronteira com a Colômbia. A situação é difícil, mas o bolivarianismo continua tendo notável apoio popular, certificado pelo que Jimmy Carter [ex-presidente dos EUA, que já participou como observador internacional do processo eleitoral venezuelano] descreveu como um dos melhores sistemas eleitorais do mundo”.

“Agora, uma pergunta que jornalistas e críticos literários sempre atormentam aos artistas: você se considera um escritor engajado? Acredita em Arte Política?”

“Quando jovem solicitei minha inscrição em um partido revolucionário no mesmo dia em que ele entrou na ilegalidade. Salvei minha vida porque como sabia desenhar não me mandaram para a guerrilha, mas para uma célula de propaganda. O Partido se dividiu, fiquei numa fracção que ia se tornando social-democrata, e então descobri que tenho uma grande capacidade para me equivocar sozinho, não preciso fazer isso em grupo, e desde então estou engajado comigo mesmo, isto é, com minhas ideias radicais, que muito pouco têm variado. Toda arte é política, especialmente aquela que pretende não ser. Andrei Tarkovski [cineasta soviético, 1932-1986] disse que não se podia sustentar que certa obra não fosse representativa. Toda arte é, e se define muito mais pelo que evita tratar do que pelo que realmente representa”.

“Agora vamos inverter esta última pergunta; falar sobre política na arte. Como o Estado e as políticas públicas no campo da Cultura podem promover transformações sociais em um país latino-americano? Como se desenvolve a luta de classes na Cultura?”

“Ao estudar a cultura, descobre-se que ela também é classista. Os teóricos distinguem entre uma arte ‘popular’, a qual às vezes consideram tosca, ingênua, elementar, e uma cultura ‘culta’, refinada, elevada e requintada. [Pierre] Bourdieu [sociólogo francês, 1930-2002] realizou um estudo magistral sobre o consumo cultural, demonstrando como cada classe desenvolve um determinado gosto e um sistema de preferências. Às vezes, essas diferenças se confundem. Muitos ingênuos acreditam que a arte abstrata é ‘burguesa’, quando na verdade foi inventada pelos construtivistas soviéticos. O Estado com suas políticas públicas pode promover uma arte que incentive ou celebre as transformações sociais. Pense no cinema e no construtivismo soviéticos, no romance, no muralismo e no cinema da Revolução Mexicana, a Nueva Trova, a cinematografia e a produção de documentários cubanas. As polêmicas sobre essas manifestações são evidências da luta de classes na cultura”.

A semeadura para o pós-pandemia

O escritor na Muralha da China: “Tudo o que hoje é realidade, alguma vez foi utopia. Ou distopia”

“Dada a situação atual, essa pergunta é inevitável. Como o senhor está vivendo (e pensando) a pandemia?”

“Tenho a sorte excepcional de que meu trabalho de escritor possa ser feito em quarentena, desde que haja internet disponível, o que na Venezuela é um tanto precária. Também pela internet posso dar aulas e seminários e conferências. Há muitas décadas penso que todos os trabalhos que impliquem gerenciamento de informações ou criatividade possam ser feitos da mesma forma, em casa. 70% do PIB global corresponde ao setor terciário, administração, pesquisa científica, finanças, educação, arte, entretenimento, atividades que em grande parte podem ser realizadas à distância. Isso implicaria desconcentração urbana, cessação da migração diária da periferia ao centro das cidades, que consome pelo menos quatro horas de jornada, e o desperdício de combustível e poluição. Por outro lado, no sistema capitalista, isso pode levar a enormes índices de desemprego e superexploração, uma vez que o empregador não empregaria mais por hora de trabalho, mas por produção, e o mesmo trabalhador poderia se superexplorar para cumprir metas. No sistema socialista, tais mudanças implicariam apenas na redução da jornada de trabalho”.

“[…] mas o Presidente, ah o Presidente grita que ele não é chefe da Federação dos investidores dos poderosos vizinhos dos círculos militares do Sacro Colégio, mas do povo, e tudo pelo povo, e nos passa por baixo da porta decretos ou atira-os pela janela em aviõezinhos de papel e são coisas como investigue-se as fortunas de meus colegas de partido ou retire-se do país esta Missão Militar ou que fechem-se os quartéis ou criem escolas ou ampliem-se as universidades ou baixem os preços dos alugueis ou os trabalhadores donos de todos os lucros e que dificuldade tremenda ir pegando e ir queimando tudo principalmente porque há alguns que voam tanto que nas ruas já se chega a saber o que está acontecendo, há turbas que festejam e trinam as metralhadoras […]” — Trecho de O presidente acordou de bom humor

Não sei se devido ao enfado em responder sempre às mesmas perguntas, lapso ou falta de traquejo com as ferramentas digitais ao me encaminhar as respostas, Britto García anexou várias entrevistas brutas concedidas, nos últimos meses, a jornalistas venezuelanos, onde por supuesto há variações sobre o mesmo tema:

“Antes de tudo, [a pandemia representa] uma confrontação com a ideia da morte, reflexão que sempre tendemos a postergar. Em seguida, a necessidade de revisão de sistemas sociais para os quais a morte e o sofrimento de seus integrantes não importam caso eles não tenham dinheiro para pagar um tratamento, ou seja, nos quais a vida é menos importante que os dividendos. O que precisa tornar-se contagioso é uma reformulação dos valores que regem os sistemas sociais, econômicos, políticos e culturais. Na vida dos indivíduos ocorre a chamada crise da idade madura, na qual o sujeito reflete sobre a brevidade da existência e costuma mudar drasticamente seus valores, objetivos e práticas. O momento é propício para que a humanidade entre coletivamente na maturidade, reflita sobre o que está fazendo e decida se vai se dedicar às mesmas coisas o resto de sua existência, que poderá ser bem breve caso não mude de rumo”, escreve a Dariela Tello Medina, jornalista independente.

“A gravíssima crise econômica global, cujos efeitos muitos meios de comunicação atribuem apenas à pandemia, potencializou as condições objetivas para uma mudança revolucionária, ao intensificar exponencialmente a concentração de capital em um número cada vez menor de mãos e agravar brutalmente a pobreza, o desemprego e a marginalização das maiorias. É uma situação que deve ser aproveitada pelas vanguardas para avançar as revoluções radicais. Do contrário, essas massas empobrecidas cairão nas mãos de movimentos reacionários fascistas e racistas, como já aconteceu em vários países. Não há mais otimismo do que radicalismo. O vírus não vai nos trazer a utopia: temos que merecê-la”, a Manuel Abrizo, do Correo del Orinoco.

Faço minha última pergunta: “Todo desenvolvimento é uma celebração da fertilidade, você escreveu em La Orgía Imaginária [1984], em convite a revisitar as utopias imaginadas pela humanidade – e a formular outras novas. A epígrafe de Simón Rodríguez [educador, filósofo e político venezuelano, 1769-1854] já sublinha esse intento: Ou inventamos ou erramos. Frente à desesperança, que por vezes é avassaladora, como desenhar novas utopias?”

Espero. O e-mail chega:

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“Nada muito além do que olhando a realidade cotidiana. Temos os meios técnicos para acabar com a fome, a ignorância e a maioria das doenças. Também os temos para destruir o planeta, perverter a natureza e criar ditaduras comunicacionais absolutas e perpétuas. Assim como encontramos soluções para a produção de bens materiais, podemos encontrá-las para a produção da felicidade. Tudo o que hoje é realidade, alguma vez foi utopia. Ou distopia. Ao semear, é preciso aprender a distinguir as sementes”.

Ilustração de Britto García, em Me río del mundo (1984)

 

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