Seis motivos para a esquerda não ir ao ato do MBL

Não faz qualquer sentido apoiar os bolsonaristas do MBL contra Bolsonaro. O resultado seria o fortalecimento de uma terceira via de direita e de mais ataques à população

Imagem: O Partisano
por Danilo Matoso

Foi numa quinta, 8 de julho de 2021, quando o Movimento Brasil Livre (MBL) resolveu convocar um ato nas ruas pedindo o impeachment de Bolsonaro. A data escolhida era o então longínquo 12 de setembro – mais de dois meses depois. Naquele momento, a pandemia de Covid-19 já havia matado mais de meio milhão de brasileiros, devido à condução genocida do presidente da República. A esquerda já havia chamado atos contra o presidente em 29 de maio, 19 de junho e 3 de julho, com outra convocação já feita para ato que se realizaria no dia 23 de julho. Além disso, com a ameaça da reforma administrativa que ainda é bastante presente, as centrais sindicais chamariam um ato em 18 de agosto.

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Tudo isso coroado pela manutenção do tradicional Grito dos Excluídos realizado há 25 anos no 7 de setembro, e que se tornou desde 2016 uma data de luta contra o golpe que depôs Dilma Rousseff e possibilitou a eleição de Bolsonaro. Esse último foi bastante esvaziado pela própria esquerda devido à ameaça de fechamento do regime, supostamente legitimada pelos atos pró-ditadura convocados pelo presidente e financiados pelo agronegócio.

Foram pelo menos seis atos nos últimos três meses e o MBL não foi bem-vindo em nenhum deles – embora o PSDB e outros grupos da direita liberal até tenham tentado timidamente pongar em alguns deles – com direito a pink washing e saída de governador do armário.

Na via inversa, as organizações populares de esquerda não estão convocando sua militância às ruas para o ato convocado pelo MBL, que se realizará no próximo domingo. Embora alguns estejam ansiosos para abraçar quem os quer ver pelas costas, estão certas as lideranças de esquerda que negam apoio ao MBL em seu movimento pelo “Fora Bolsonaro”.

Você, militante de esquerda, está em dúvida se vai ou não vai? Acha que “contra Bolsonaro vale tudo”? Bem, aí vão seis razões pelas quais não vale a Penna embarcar nessa canoa furada.

1. Confirmação da tese de que “é tudo farinha do mesmo saco”

Os movimentos fascistas como o bolsonarismo conseguem unidade de ação graças à escolha ou invenção de um “inimigo comum a ser combatido”. Se para os nazistas alemães de Hitler esses eram os judeus e os comunistas, para os bolsonaristas são os “comunistas” que querem “transformar o Brasil numa Cuba” – quem nos dera estivéssemos sequer próximos disso. Nessa toada, bolsonaristas paulistas chamam João Dória ou qualquer liberal de “comunista” – assim como os trumpistas chamam os democratas liberais estadunidenses de “socialistas”. Ao ir pra rua com essa galera, reforçaríamos para o gado bolsonarista a ideia de que somos todos “farinha do mesmo saco”, ou “tudo isso que está aí” que o intrépido capitão supostamente quer mudar – quando na verdade eles, a direita, é que são mais do mesmo. Ao agregar esquerda e direita num mesmo movimento antibolsonarista, aumenta-se assim a coesão interna entre seus apoiadores. Quer uma prova disso? Da última vez em que a esquerda se juntou à direita contra o Bolsonaro foi no tal #EleNão. Deu no que deu.

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2. Incentivo à oposição a Bolsonaro pela direita

Desnecessário dizer que Dória, o PSDB e o Partido Novo são liberais e que o MBL é ultraliberal. Sua oposição ao governo Bolsonaro é pela direita: eles acham que as presepadas do presidente estão atrapalhando o urgente desmonte do estado e ataque aos direitos dos trabalhadores que eles iniciaram com o golpe de 2016, que aliás foi dado por eles mesmos.

Além disso, foram eles os apoiadores de primeira hora da candidatura de Bolsonaro – antes de se declararem inimigos políticos em disputa pelo eleitorado de direita. Fortalecer um ato chamado pelo MBL com a militância socialista ou pelo menos social-democrata nada mais é do que apoiar um movimento que pretende intensificar os ataques ao povo promovidos pelo presidente.

Aliás, você sabe o que é o MBL, que se fortaleceria se a esquerda ajudar a encher esse ato?

3. O MBL é um movimento financiado por grandes corporações internacionais

O MBL é um daqueles movimentos de viés neofascista criado no bojo dos atos de 2013 , como o Nas Ruas – de Bia Kicis e Carla Zambelli. Seus líderes são jovens da classe trabalhadora levados ao estrelato por meio de “fábricas de ativismo” financiadas por megacorporações bilionárias, como a Atlas Network e a Students for Liberty.

O roteiro do golpe é hoje conhecido, pois ocorreu em vários países na última década com o nome de “revolução colorida” – o 15-M espanhol, a Primavera Árabe etc.. Esses movimentos, impulsionados em redes sociais pelo imperialismo, logram criar grandes convulsões sociais apartidárias e despolitizantes que servem para impulsionar grupos liberais por um lado e de extrema direita, por outro lado – os socialistas e comunistas ficam fora da jogada. No Brasil, as ditas “Jornadas de Junho de 2013” foram em grande medida parte desse tipo de ação. Em pouco tempo, os líderes do recém-criado MBL ganharam holofotes na revista Veja e congêneres venais.

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4. Os líderes do MBL são apenas jovens representantes da velha política de direita

Imagem: Reprodução

Com o tempo, a realidade veio à tona. Figuras como Kim Kataguiri, Fernando Holiday e Arthur do Val (Mamãe Falei) se tornaram parlamentares filiados a partidos de direita tradicional como o DEM, o ultrafisiológico Patriota (antigo PEN), ou o Partido Novo – conhecido por abrigar velhos conservadores e ultraliberais. Sua pauta política e econômica é exatamente a mesma de gente como Michel Temer, Marco Feliciano ou Eduardo Cunha.

O MBL não apenas foi ponta de lança na agitação e propaganda que impulsionou os atos de 2015 que culminariam no impeachment de Dilma Rousseff, como também se sentaram à mesa com Eduardo Cunha para articular a mobilização dos coxinhas durante a tramitação do processo no Congresso. Eles seriam ainda contratados pelo gabinete golpista de Michel Temer para auxiliar na contratação de influenciadores capazes de fazer publicidade a favor daquele que foi o governo mais impopular da história do país – colaborando para sua manutenção na presidência até o final de seu mandato tampão ilegítimo.

Fortalecer o protagonismo dessa galera é simplesmente dar margem ao surgimento de uma “terceira via” de direita, em que as mesmas políticas de Bolsonaro seriam agenciadas por um troglodita neoliberal com um verniz mais “civilizado”.

5. O MBL era – e pode voltar a ser – a linha de frente do neofascismo brasileiro

Com o golpe de 2016, a esquerda foi em peso às ruas para protestar contra o desmonte do estado e das políticas públicas e a avalanche de ataques aos direitos dos trabalhadores, ao patrimônio nacional. As mais amplas mobilizações ocorreriam nos meses de outubro a dezembro daquele ano, somando a luta contra a “PEC da Morte” – que implementaria o novo Regime Fiscal e o teto de gastos – e a chamada Reforma do Ensino Médio – que na realidade era um início da implementação do Escola Sem Partido.

Mais de mil escolas de ensino médio e universidades foram ocupadas por estudantes e atos gigantescos aconteciam em Brasília e em todas as capitais. Para os movimentos de rua, a polícia recorreu aos Três Poderes: Tiro, Porrada e Bomba. Para debelar as ocupações em escolas e intimidar os jovens, o sistema recorreu a milícias neofascistas que cercavam as ocupações, ameaçavam e por vezes de fato agrediam os ativistas. É a prática conhecida das falanges fascistas. O movimento que capitaneou tais práticas foi o MBL.

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O MBL também estava à frente do ataque a exposições artísticasa movimentos e partidos de esquerda etc.. Suas táticas passavam pela exposição de militantes por meio de filmagens ocultas, intimidação por uso de armas e invasão de atividades políticas. É praticamente a cartilha completa do fascismo, que só não gabaritaram porque não chegaram de fato a matar ninguém. Mas estavam a caminho disso.

Aparentemente, seu resultado pífio na tentativa de desmobilizar as ocupações de escolas e universidades levou os donos do golpe a buscar o recurso dos “fascistas raiz”: a turma da ditadura militar, os velhos apologistas da tortura e da criminalização da esquerda etc.. E assim Bolsonaro chegou ao poder.

6. O MBL é apenas uma versão adolescente do bolsonarismo

Embora Kim Kataguiri tenha aprendido a comer de garfo e faca em Brasília, outras lideranças do movimento ainda não o fizeram. Arthur do Val segue assediando trabalhadores e ativistas políticos nas ruas, até outro dia Holiday andava invadindo escolas em busca de “doutrinação comunista” da parte dos professores, sua militância segue dando combate à esquerda e, sobretudo, sua pauta política segue sendo ultraliberal.

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Como se sabe, o liberal é apenas um fascista de férias. A “liberdade” que defende para o trabalhador é a liberdade de vender sua força de trabalho num mercado cada vez mais precarizado – além da liberdade da burguesia em explorar seus empregados sem entraves. Aliás, também é bem sabido que qualquer partido ou movimento que tenha as palavras “livre” ou “liberdade” no nome, provavelmente boa coisa não é. Basta lembrar que as manifestações bolsonaristas do último 7 de setembro pediam a implantação da ditadura em defesa da… liberdade.

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