O capachismo cultural de nossos militares

Tweet do nosso Exército parabenizando o dos EUA é uma expressão da mentalidade colonizada de nossos militares

Imagem: Reprodução
por Danilo Matoso

Numa demonstração pornográfica de capachismo cultural, nosso Exército Brasileiro publicou em sua conta oficial do Twitter no último dia 14 uma felicitação de aniversário ao Exército dos Estados Unidos, com a bandeira norte-americana, soldados soldados batendo continência e a mensagem: “Feliz 246° aniversário @USArmy #ArmyBDay #StrongerTogether #BraçoForte #MãoAmiga”. O episódio demonstra que, deixados livres em seu estado natural, os militares brasileiros – supostamente patriotas defensores de nossa soberania e de nossas fronteiras – mostram sua verdadeira face entreguista e submissa aos interesses estrangeiros.

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Eles não fazem por mal. Foram treinados para ser assim. O idílio ao estrangeiro é algo que vem de dentro. Talvez não seja por acaso a estranha presença da expressão “#BraçoForte #MãoAmiga” no post: o onanismo parece estar internalizado por Forças Armadas que há décadas não atuam conflitos externos efetivos. Na falta de foco em ação de combate externa, os militares voltam-se à interferência renitente na política interna – pelo menos desde a proclamação da República. Isso ocorre não apenas por uma vontade corporativa de poder mas também porque desde a Segunda Guerra, e definitivamente após o golpe de 1964, a alta cúpula militar serve abertamente aos interesses do grande capital estrangeiro.

América do Sul para os americanos do norte

Como se sabe, a chamada Doutrina Monroe – “América para os americanos” – se tornou elemento essencial para os Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, a partir da década de 1940. Se por um lado os países do Eixo haviam tido alarmante influência em regimes de países centrais como o peronismo argentino e o varguismo brasileiro, por outro lado a influência soviética ou qualquer política que cheirasse a socialismo seria duramente combatida. Pior ainda: anticomunismo se tornaria o mote ideológico para justificar o patrocínio estadunidense de golpes de Estado em toda a América Latina, inclusive o de 1964 no Brasil.

Vale lembrar que não apenas o deep state dos Estados Unidos promoveu e apoiou a instauração da ditadura militar no Brasil: o presidente Lyndon Johnson o fez expressamente por meio da atuação do embaixador Lincoln Gordon e do adido militar Vernon Walters, que financiaram campanhas eleitorais de oposição ao governo pela direita, promoveram ataques na imprensa contra João Goulart, instalaram think tanks como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), enviaram uma armada para a costa brasileira para garantir o golpe, após o qual o presidente Johnson fez questão de enviar uma “mensagem bem calorosa” ao marechal Humberto Castelo Branco, que tomara o poder.

Na ocasião, iniciou-se um grande expurgo de cerca de 7,5 mil militares que se opuseram ao golpe. Isso incluiu não apenas todos aqueles com alguma relação com o comunismo ou a esquerda, mas também todos aqueles nacionalistas, que não viam com bons olhos a interferência estrangeira explícita no regime político brasileiro. Desde então, os estadunidenses mantêm estrito controle ideológico de nossas Forças Armadas. Se Castelo Branco e outros altos oficiais haviam estudado na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos, eles também treinaram o baixo oficialato em técnicas de guerra psicológica, contra-insurreição, técnicas de “interrogatório” (tortura) etc.. Isso foi feito sobretudo por meio de uma certa Escola das Américas no Panamá onde se graduaram entre 1946 e 1984 mais de 60 mil militares e policiais de cerca de 23 países da América Latina. Desnecessário reforçar que tal formação tinha um forte viés ideológico.

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Doutrina da entrega ao estrangeiro

Sob os auspícios dessa política imperialista, nossa Escola Superior de Guerra (ESG) formulou uma bizarra Doutrina de Segurança Nacional (DSN) segundo a qual a soberania brasileira estaria paradoxalmente relacionada com a submissão aos Estados Unidos. O inimigo a ser combatido era o comunismo, quer materializado na política do bloco soviético, quer idealizado pelos grupos locais.

Tal filosofia a serviço do imperialismo foi legitimada pelo decreto-lei nº 314/1967, segundo o qual, “a segurança nacional compreende, essencialmente medidas destinadas à preservação da segurança externa e interna, inclusive a prevenção e repressão da guerra psicológica adversa e da guerra revolucionária ou subversiva”. Por “guerra psicológica” entende-se “todo o emprego da propaganda, da contrapropaganda e de ações nos campos político, econômico, psicossocial e militar, com a finalidade de influenciar ou provocar opiniões, emoções, atitudes e comportamentos de grupos estrangeiros, inimigos, neutros ou amigos, contra a consecução dos objetivos nacionais”. Enfim: o que hoje a direita chama de “marxismo cultural”, a que a direita opõe o capachismo cultural: tudo aquilo que nos coloque em posição submissa aos desígnios dos países centrais do capitalismo: os capachos dos gringos.

Na prática, a DSN e seu decreto prescrevem expressamente que, em nome do interesse político anticomunista estadunidense, é lícito perseguir toda a esquerda brasileira. Consolidado como lei de Segurança Nacional em 1983, esse entulho normativo autoritário e entreguista jamais deixou de viger em nosso regramento jurídico – e vem sendo usado ultimamente para reprimir aqueles que qualificam Bolsonaro de genocida.

Não apenas a lei vige, mas também a mentalidade entreguista de nossos militares. Foi com esse espírito confesso que o ex-comandante do Exército Eduardo Vilas Boas interferiu ativamente no golpe de 2016, na manutenção da prisão ilegal de Lula, na eleição de Jair Bolsonaro.

Em setembro de 2017, o general Hamilton Mourão afirmou publicamente que os militares preparavam um golpe por aproximações sucessivas, passando a ser o autodeclarado “propagandista” da política militar – enquanto Bolsonaro seria o “agitador de massas”. Em meio ao processo eleitoral, o general Fernando Azevedo e Silva se tornara “assessor” do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli. Em seguida, por fim, a chapa do agitador e do propagandista do golpe militar venceria uma eleição fraudulenta em que o principal candidato fora aprisionado ilegalmente.

Mourão, o propagandista

Mourão, o general que verbaliza de modo mais sistemático a política do partido militar, esteve com frequência no exterior. Trabalhou, por exemplo, como adido militar na Embaixada da Venezuela e participou da Terceira Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola entre 1995 e 1998. São situações de potencial contato prolongado com agentes estrangeiros. Em 2012, o general seria acusado de envolvimento no favorecimento da empresa espanhola Tecnobit – contratada para fornecer um simulador de fogo ao Exército Brasileiro.

Antes de entrar para a reserva, Mourão já era publicamente um ativista político. Participava do grupo ultradireitista “Terrorismo Nunca Mais” (Ternuma) – dedicado a se contrapor ao movimento de direitos humanos Tortura Nunca Mais – onde, por vezes em sessões públicas da maçonaria, proferia diversas palestras de cunho golpista. Em 2015, então à frente do Comando Militar do Sul, o general criticou Dilma Rousseff, homenageou o torturador da ditadura Carlos Alberto Brilhante Ustra, e conclamou os militares ao “despertar de uma luta patriótica”.

Como diversos colegas de farda hoje no poder, Mourão é adepto da Doutrina da Segurança Nacional. Em setembro de 2018, defendeu “uma nova constituição para o Brasil”, cuja elaboração seria feita “por um conselho de notáveis”. Como muitos conservadores, acredita que a família seria o “núcleo central” da sociedade e sua “dissociação” seria a causa para os problemas sociais. Para o general, as áreas “onde não há pai nem avô” mas “mãe e avó” seriam “fábricas de elementos desajustados que tendem a ingressar em narco-quadrilhas que afetam nosso país”. Ou seja: as mães solteiras, viúvas, as trabalhadoras em geral, seriam as culpadas pela criminalidade, e não a desigualdade social e a miséria causadas pela concentração brutal de riquezas do capitalismo global – que ele mesmo fomenta. Na mesma época, Mourão questionou ainda o ensino de humanidades no país. Afinal, por que ficar “estudando filosofia em vez de se dedicar a outras matérias mais importantes”?

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As mulheres e o estudo da filosofia certamente seriam empecilhos ao desenvolvimento do país e a porta para alguma influência comunista ou na melhor das hipóteses parte de um problema social intrínseco ao nosso país, ao nosso povo, à nossa sociedade. Embora enxergue esses problemas, para Mourão, a causa última de nossas mazelas seria racial: a partir de uma leitura enviesada da “teoria das três raças”, afirmaria que “carregamos dentro de cada um uma herança cultural tripla: a herança ibérica, do privilégio, todo mundo quer se dar bem; a herança indígena, da indolência e a herança africana, que é a da magia, que tudo vai dar certo (…). Temos que romper este ciclo”. Talvez seja esse o fundamento eugenista escancarado da política genocida do governo federal no trato da pandemia. Certamente este é o fundamento do capachismo cultural que permeia todo o governo Bolsonaro.

Num prenúncio do que seria a política externa da atual gestão, Mourão já afirmara na campanha que “o problema da política externa do Brasil é que nós nos ligamos com toda a mulambada, do lado de lá e de cá do oceano, na diplomacia Sul-Sul”. Era um indício de que os acordos com países igualmente oprimidos – como os da América Latina, África ou Ásia –, a formação de grupos como o BRICS, toda política de união com a vizinhança enfim, seria preterida em prol de acordos de submissão com as potências da América do Norte e Europa.

Amor não correspondido

Bolsonaro, outro misógino e racista assumido, também daria algumas amostra prévias de seu capachismo. Sua candidatura à Presidência da República, aliás, fora urdida em solo americano desde 2017, quando se garantiu o apoio e o aval do Chicago boy Paulo Guedes a ela. Na ocasião, em 2017, Bolsonaro fez questão de bater continência à bandeira dos Estados Unidos. Bolsonaro seria capacho de qualquer presidente norte-americano. Calhou, porém, de conseguir o apoio de Donald Trump e do seu estrategista Steve Bannon para sua campanha, motivando no capitão o surgimento de um amor sem peias por eles.

Em Washington, em 2019, o presidente brasileiro não mais se conteria e se declararia a Trump diante de diplomatas: “eu te amo”. A resposta seca: “bom te ver de novo”. Infelizmente a paixão não correspondida de Bolsonaro por Trump teria reflexos em nossa política externa, sob a batuta do olavista Ernesto Araújo.

Também naquele primeiro ano de governo Bolsonaro, o Brasil rompeu o princípio da reciprocidade e, sem qualquer contrapartida, isentou de visto os turistas dos Estados Unidos, Japão, Austrália e Canadá. Supostamente com aval estadunidense, o Brasil abriu mão do status de país em desenvolvimento para se candidatar à entrada da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Até hoje continuamos barrados no “clube”. Também sem qualquer contrapartida, o governo brasileiro fez uma ampla isenção tarifária para a importação de produtos dos Estados Unidos, como o etanol. Pior, Trump cortou, por exemplo, as cotas de importação de aço brasileiro.

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Desnecessário relembrar que o enfraquecimento e a privatização da Petrobrás e suas subsidiárias, a concessão irrestrita do direito de exploração a concessionárias estrangeiras, são elementos que estão no cerne do golpe de 2016. Nesse sentido, Paulo Guedes não se cansa de acenar que está fazendo o possível para atender seus patrões estrangeiros.

Capache-se

O capachismo cultural de nossas Forças Armadas tem causas e consequências bastante reais que vão além do mero discurso. Suas origens mais próximas estão na interferência das grandes corporações no Brasil por meio do governo dos Estados Unidos. Sua consequência é a condenação do Brasil ao eterno subdesenvolvimento, à desigualdade social, à pobreza endêmica. Entre a causa e a consequência estão a destruição da cultura nacional, das políticas sociais, do reconhecimento de nossas muitas identidades. Não é outro o sentido, por exemplo a nomeação de uma turismóloga – esposa de um ex-segurança de Bolsonaro – à frente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ou do capitão do mato Sérgio Camargo à frente da Fundação Palmares.

Se a Doutrina da Segurança Nacional é na verdade a doutrina da submissão ao estrangeiro, o mesmo ocorre com todas as campanhas que derivam dela. Assim, se os militares durante os anos de chumbo da ditadura importaram o bordão estadunidense pacifista love it or leave it invertendo-o como “Brasil, ame-o ou deixe-o”, isso era porque eles mesmos sempre aspiraram deixar o país e viver nos países centrais do capitalismo. Se um coxinha hidrófobo vocifera “vai pra Cuba” para um militante de esquerda, é porque sua meta é ir para Miami.

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A submissão parece ser natural para os militares especificamente, que passam toda a vida imersos num sistema hierárquico. E nada mais conveniente que a subordinação à autoridade militar estrangeira, mesmo que à custa de combater os representantes do povo à frente das instituições políticas nacionais. Como em todo sistema hierárquico, a aspiração dos comandados é assumir em alguma instância o posto do comandante mimetizando seu comportamento. O argelino Albert Memmi resume bem esse processo:

A primeira tentativa do colonizado é mudar de condição mudando de pele. Um modelo tentador muito próximo se oferece e se impõe a ele: precisamente o do colonizador. Este não sofre de nenhuma de suas carências, tem todos os direitos, desfruta de todos os bens, beneficia-se de todos os prestígios; dispõe das riquezas e das honras, da técnica e da autoridade. Ele é, enfim, o outro termo da comparação, que esmaga o colonizado e o mantém na servidão. A ambição primeira do colonizado será igualar esse modelo prestigioso, assemelhar-se a ele até nele desaparecer.

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