A Sagrada Guerra do povo contra o fascismo

Menos de 20 anos depois de vencer a guerra imperialista conhecida como Guerra Civil Russa os soviéticos tiveram que enfrentar o exército fascista de Hitler

"Defenderemos a cidade de Lênin!" Imagem: Vladimir Serov (1941)
por Alexandre Flach

O texto abaixo é a décima parte da série Fogo e revolta nas ruas: para onde vai a luta popular?

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Se você está entre os que acreditam que Hitler foi vencido pelos “aliados”, que a coisa começou a ficar feia pra ele na Normandia, no “dia D”, e quem venceu os nazistas na União Soviética foi o inverno russo, entenda: você está sendo uma vítima inocente de propaganda fascista. 

A verdadeira história da vitória sobre Hitler

“Não ousem com suas obscuras asas,
Voar sobre nossa Pátria Mãe!
Não ousem pisar em nossos vastos campos
Que a nossa ira os arraste como uma onda!
Coloquemos uma bala em frente de cada parasita fascista
É a guerra do povo, uma guerra sagrada!”

A luta contra o fascismo é, antes de tudo, uma luta de classes. Fascismo é o papo-reto da burguesia. É a burguesia sem máscaras, sem disfarce, mostrando exatamente do que são capazes. Querem dominar o povo, querem explorar o máximo que puderem, são conservadores e acham que o certo seria mesmo voltar aos bons tempos da escravidão. O que poderia existir melhor do que Hitler, Mussolini, Bolsonaro ou a política externa de qualquer presidente dos EUA para os ideais burgueses?

Para o bom burguês, manda quem tem grana e obedece quem tem juízo. Quem não tem, chicote e pau-de-arara nele. “Democracia” Foi um negócio que inventaram para dar o golpe no povo que os levou ao poder. E é algo muito útil também para botar a mão grande no petróleo por aí mundo afora, e enganar otário detonando o regime realmente democrático de Cuba, Venezuela e China. 

Entenda, se existe um pessoal que é especialista em vencer fascistas, não tenha dúvidas, são os comunistas. Para os russos, a batalha contra Hitler até hoje é chamada de “A Sagrada Guerra”.

“De pé, enorme país, de pé até a morte!”

Menos de 20 anos depois de vencer a guerra imperialista conhecida como Guerra Civil Russa — que deixou quase 10 milhões de mortos e uma economia em frangalhos — os soviéticos tiveram que enfrentar a mais temida máquina de guerra de seu tempo, o exército fascista de Hitler. 

A Operação Barbarossa, preparada minuciosamente por dois anos pelos nazistas, lançou em junho de 1941 quase 4 milhões de soldados na União Soviética, organizados em 104 divisões de infantaria, 19 divisões de blindados, 15 de infantaria motorizada, 9 divisões de segurança e mais duas de reserva, em um total de 3350 tanques, 7200 peças de artilharia, 2770 aviões, 600 mil veículos a motor e quase 700 mil cavalos: a maior força de invasão de todas as guerras. O objetivo era matar – na bala, no gás ou de fome – os camponeses dos locais conquistados, substituí-los por colonos alemães e escravizar os russos que sobrassem.

“Não tínhamos ideia de que seríamos invadidos. Os bombardeiros alemães começaram do nada. Eles nos pegaram totalmente desprevenidos. Pelo menos, depois daquele primeiro ataque, todos poderiam se preparar para a guerra. Mas não tínhamos tempo para isso. Só pudemos reagir depois que o turbilhão já havia nos tragado.” É assim que meu avô, Mikhail, costumava iniciar suas lembranças da guerra. (Russia Beyond)

A invasão da URSS pelos nazistas foi a maior operação de guerra da Segunda Guerra mundial. Imagem: Pyotr Bernstein/Sputnik

Os nazistas chegaram tão rápido às vizinhanças de Moscou, que ninguém mais acreditava em recuperação da União Soviética. Se tivessem conseguido derrubar Moscou, o mundo iria afundar no holocausto do Terceiro Reich. Só que aí falou mais alto o sangue revolucionário do Exército Vermelho e do povo russo, inclusive seus partisanos, que expulsaram os fascistas da URSS – já então comandados pessoalmente pelo Fuhrer – e de quebra, entraram na Alemanha, foram até Berlim, e esmagaram para sempre o reinado de Hitler.

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Livrar o planeta do pesadelo nazista foi mais uma das decisivas consequências da Revolução Russa.

Uma corrida para o leste impossível no capitalismo

“Durante uma recepção no Kremlin em homenagem ao Dia da Vitória, o ex-líder soviético Jossef Stálin se aproximou dos comandantes militares e perguntou-lhes à custa de que a União Soviética havia vencido a guerra. Enquanto eles falavam sobre a coragem das pessoas e do heroísmo do povo soviético, Stálin chamou um dos ministros e, apontando para ele, disse que o heroísmo e a genialidade militar não seriam de grande valia sem ferro fundido, tanques e aviões.” (Russia Beyond)

A vitória contra Hitler não teria sido possível se a Rússia fosse capitalista.

Guerra, na era industrial, é basicamente uma batalha entre indústrias, como bem apontou o georgiano líder da URSS. Sem indústria pesada, não tem aviões, tanques, bombas, fuzis ou munição. E o problema é que a quase totalidade da indústria soviética estava implantada justamente no oeste da Rússia, bem à mão da eficiência genocida de Hitler.

Produção de ogivas. Antes de tudo, a guerra é uma batalha entre indústrias. Imagem: TASS

E não é só: a maior parte da população russa também estava ali bem pertinho das garras do nazista. Eram milhares de pessoas prontas para serem escravizadas ou mortas.

Mas o regime soviético mostrou-se capaz de algo totalmente impensável nos marcos estreitos do capitalismo: evacuar 18 milhões de pessoas e 2.500 fábricas (entre as quais, a maior indústria siderúrgica da Europa), e isto apenas nos primeiros quatro meses de guerra, debaixo de bala e bomba, com a Operação Barbarossa de Hitler avançando a todo vapor.

Mas a todo vapor também estavam as ferrovias russas: 1,5 milhões de vagões foram usados até à exaustão para transferir milhões de pessoas e milhares de indústrias para o leste. Na volta, traziam militares e equipamentos para as frentes de batalha. Só a usina Zaporojstal precisou de 8000 vagões, 800 a 900 por dia. Ou melhor, por noite, pois com a luz do sol, a aviação de Hitler não perdoava: era bombardeio para tudo que é lado.

“Ocasionalmente, as pessoas viajavam em vagões de carga abertos ou em plataformas. Sorte se havia uma lona com a qual era possível se proteger da chuva. Às vezes, nem isso tinha. Junto iam máquinas ou materiais e algumas coisas das pessoas que estavam sendo evacuadas. (…) Em condições mais favoráveis, dois ou três vagões cobertos eram destinados às mulheres com crianças.”

Chegando no destino, muitas vezes não tinha nem galpão pronto ainda, e as fábricas começavam a operar ao ar livre mesmo. Ligavam as máquinas, enfrentavam 30 graus negativos, e começavam a tornear projéteis.

Tudo para frente, tudo para a vitória!

Deslocar o pólo industrial da União Soviética em tão pouco tempo só foi possível porque já há alguns anos a URSS estava se preparando para esta guerra inevitável, construindo a infraestrutura necessária, como na questão energética, por exemplo, que não poderia ser criada num passe de mágica. E quem ganhou este tempinho a mais para o povo russo foi Stálin.

Dois anos antes da invasão nazista, logo após a França e o Reino Unido assinarem um acordo com Hitler em que diziam “ok Fuhrer, até aí pode” para a invasão do nazista na Áustria e parte da Tchecoslováquia, Stálin percebeu que a sanha fascista não demoraria a se voltar contra seu maior inimigo, o comunismo soviético. Mas a URSS estava completamente despreparada para uma invasão alemã. Seria um passeio, se Hitler tivesse condições de entrar na União Soviética naquele momento.

Entre a direita capitalista e a extrema-direita capitalista e fascista, Stálin inicialmente procura aliar-se à França e Grã-Bretanha, e assim construir uma coalizão que poderia atacar — ou pelo menos intimidar — a Alemanha por duas frentes ao mesmo tempo. A ideia era boa, mas os planos dos capitalistas até então eram outros.

Neville Chamberlain, do Partido Conservador inglês, cumprimenta Adolf Hitler. Imagem: Getty Images

O Partido Conservador inglês, gostava mesmo de fascistas e preferia apertar as mãos sujas de sangue do Hitler do que as manchadas de graxa de um governo operário. Mesmo assim, as negociações com a URSS avançaram até um acordo preliminar com França, Inglaterra e União Soviética comprometendo-se a dar apoio militar a quem fazia fronteira com a Alemanha, em caso de agressão de Hitler.

Mas a coisa não foi muito longe. Quando passaram às questões logísticas das operações militares, França e Inglaterra boicotaram as tratativas mandando apenas oficiais subalternos para Moscou, sem autonomia para as decisões necessárias. Sub-representação, dentro da lógica da diplomacia internacional, é sinal claro de desinteresse ou boicote. A regra básica é conversas entre lideranças de nível equivalente de poder. O desnivelamento proposital é uma grosseira falta de respeito diplomático.

Na prática, os enviados da França e Inglaterra não podiam tratar da questão militar mais importante: a possibilidade das tropas soviéticas ingressarem no território polonês para confrontar a Alemanha. Sem isto, não havia como a URSS ajudar, pois a União Soviética não fazia fronteira direta com a Alemanha.

“Os soviéticos ficaram chocados com essa atitude e não levaram as negociações a sério”, explica Olég Budnitski.

Sem conversa com o ocidente, Stálin não tinha outra saída senão procurar Hitler, mesmo sabendo que faria um acordo de fachada, temporário. Mas além do tempo, o georgiano precisava também de alguns quilômetros de vantagem. E conseguiu. Assinou secretamente uma divisão da Polônia, vista por muitos como traição ao movimento operário, mas que acabou sendo decisiva na defesa da União Soviética, dando aos russos mais  300 preciosos quilômetros de vantagem contra a Operação Barbarossa.

Segundo o historiador Aleksêi Issaev, “os 300 quilômetros entre a antiga e a nova fronteira da URSS deram vantagem de tempo e distância” para os russos, fato que foi determinante para salvar milhares de vidas soviéticas e permitir a evacuação que levaria à vitória sobre Hitler.

Com Moscou a um passo do abismo, os russos jogam bombas em Berlim!

Massacrando, escravizando e avançando rapidamente sobre solo russo, Hitler estava a um passo de conquistar a capital da União Soviética. Báltico, Bielorrússia, metade da Ucrânia e até os arredores de Leningrado já haviam caído em mãos dos fascistas. Os alemães brindavam antecipadamente o que representaria uma vitória capaz de selar os destinos da humanidade: a tomada de Moscou.

Mas enquanto chovia bomba alemã na capital socialista, quinze bombardeiros russos partiram da Ilha de Ösel — de uma pista precária, abastecidos por gasolina e munição trazidos em pequenas barcaças, únicas capazes de atravessar as águas minadas do Golfo da Finlândia —  e voaram 900 km à noite, em direção a Berlim. Pegaram os alemães tão de surpresa que, a princípio, os vigias nazistas pensaram que eram aviões da própria força aérea.

“Os alemães não esperavam nada tão ousado. Quando nossos aviões se aproximaram do alvo, eles nos enviaram sinais do solo: ‘Que aviões são vocês?’, ‘Para onde estão voando?’. Eles pensaram que eram aviões alemães que haviam perdido o rumo, e os convidaram para pousar nos aeródromos mais próximos”, conforme descreveu Nikolai Kuznetsov, almirante da Marinha Soviética.

As bombas russas choviam na capital alemã mas a rádio nazista “informava” que “um grande destacamente da Força Aérea Britânica, cerca de 150 aviões, havia tentado bombardear a capital, e dos 15 aviões que chegaram à cidade, nove foram abatidos.”

Fake news fascistas à parte, a coisa não ficou só nisso. Mesmo sem poder contar com a proteção do elemento surpresa, os soviéticos fizeram mais nove incursões durante aquele mês, causando um estrago enorme na capital da suástica com enorme efeito psicológico: não dava mais para enganar ninguém, os russos estavam bem vivos e com sangue nos olhos!

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Era só um toque do que viria por aí. O povo soviético estava pronto para virar o jogo.

Um comentário

  1. […] Acontece que o Kremlin preparava rapidamente reforços para o Exército-Vermelho, muitos voluntários: o povo soviético queria lutar! Além disso, a indústria soviética estava a todo vapor, produzindo armas, tanques, aviões e munição. Inúmeras fábricas foram convertidas para os esforços de guerra, sem contar que a tática alemã de destruir as instalações industriais russas não contava com a Marcha Para o Leste que mostramos nesta matéria. […]

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