Monumentos e luta política: quatro ou cinco experiências de Niemeyer

Gravar memórias em pedra não garante sua eternidade. Todo monumento, seja da força do opressor ou da luta do oprimido, implica uma luta política

Oscar Niemeyer e os militantes do MST com um modelo do que seria o monumento em Marabá. Fonte: Acervo Jornal do Brasil
por Danilo Matoso

Era madrugada de 2 de maio de 1989 quando um carro-bomba carregado de explosivos plásticos explodiu na praça Juarez Antunes em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Ninguém ali foi ferido, mas o atentado cumpriu seu objetivo: levou ao chão a lâmina de concreto do Memorial 9 de Novembro, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer em homenagem a três operários mortos durante a greve do ano anterior. A obra foi parcialmente reerguida e segue no local. Sete anos depois, na noite de 22 de setembro de 1996, um outro trabalho de Niemeyer em homenagem aos oprimidos seria destruído. Um grupo de pessoas com picaretas e marretas reduziram a escombros o Monumento Eldorado Memória – em Marabá, Pará – que fora uma homenagem às dezenas de trabalhadores rurais sem terra mortos por jagunços e policiais a mando de fazendeiros em Eldorado dos Carajás em abril daquele ano. A obra nunca foi reconstruída. Os dois exemplos vêm sendo rememorados por pesquisadores conscientes de que a criação, a preservação e a demolição de monumentos está no cerne da disputa política pela memória.

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Nos últimos anos, movimentos antirracistas começaram a destruir estátuas de assassinos de indígenas e traficantes de escravos na Europa e América do Norte. A moda pegou por aqui – até porque o que não falta no Brasil é homenagem a gente ruim. Desde as manifestações antifascistas de 2020, as estátuas de militares e bandeirantes passaram a ser objeto de especial e justificada animosidade por parte de muitos, resultando inclusive na queima recente da estátua de Borba Gato em São Paulo – com direito a prisão ilegal envolvidos. O caso é que a imagem glorificada dos bandeirantes – homens brancos caçadores de índios – está em todos os altares da extrema-direita no Brasil desde que o integralismo é integralismo, notadamente a partir dos preparativos para a comemoração do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo celebrado em julho de 1954.

Um exemplo significativo é o edifício da “Universidade Commercial Conde Francisco Matarazzo” – projetado em 1948 pelo escritório de Marcello Piacentini, arquiteto “oficial” do regime fascista italiano. O imóvel seria desapropriado pelo Governo do Estado, abrigando desde abril de 1964 (atenção para a data) a sede do Poder Executivo estadual e residência oficial do governador com o nome de Palácio dos Bandeirantes. Outro exemplo é a organização paraestatal financiada por empresários de extrema-direita e criada em 1969 para vigiar, perseguir, prender, torturar e matar militantes de esquerda. Seu nome: Operação Bandeirante (Oban). Para além das figuras históricas evidentemente contraditórias e complexas que os bandeirantes foram, o culto moderno a seus monumentos tem pedigree e viés político bastante claros.

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Mas nem só com fascistas se comemorou o aniversário de São Paulo. O Parque do Ibirapuera, destinado a receber uma grande exposição comemorativa da data, foi projetado em 1951 por Oscar Niemeyer com Hélio Uchôa, Zenon Lotufo, Eduardo Kneese de Mello, Gauss Estelita e Carlos Lemos – a maioria paulista, claro. Como se sabe, Niemeyer era do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde meados da década de 1940. Era envolvido com a causa revolucionária a ponto de ceder sua casa na Glória para as reuniões do Partidão capitaneadas por Luís Carlos Prestes e a ponto de ir em visita oficial à União Soviética em 1953 para receber comendas. Para o Quarto Centenário, dentro do Parque, Niemeyer chegou a desenhar uma escultura comemorativa abstrata de 12 metros de altura – o monumento propriamente dito. Talvez não por acaso, essa obra foi mal executada. O monumento definitivo da data ali acabaria sendo mesmo aquele dedicado às… Bandeiras – talvez a obra mais célebre de Victor Brecheret.

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Oscar Niemeyer. Projeto do monumento ao Quarto Centenário da Cidade de São Paulo, Parque do Ibirapuera, 1951. A obra, executada com gesso às pressas, durou poucos dias. Fonte: Oscar Niemeyer Works.

Em suas memórias, Niemeyer revelava constantemente que sempre pensara fazer escultura. Dizia que as primeiras “assumiram sempre um caráter político” que para ele as justificava. Nesse sentido, de fato, suas obras escultóricas frequentemente se veriam envolvidas em polêmicas políticas. Para elevar a escultura de Juscelino Kubitschek diante do Memorial dedicado ao fundador de Brasília, concebeu em 1980 um pedestal encimado por um arco que pareceu aos militares uma “foice” comunista em que a figura do presidente seria o “martelo”.

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Oscar Niemeyer. Memorial JK, Brasília, 1980. Foto: Nilson Carvalho/Agência Brasília, Wikimedia Commons.

Em 1986, projetaria para o Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, um fantástico monumento Tortura Nunca Mais encomendado pelo grupo político homônimo. Era um arco de 25 metros em balanço, com uma figura humana cravada em sua ponta. Fortemente rejeitada pelas forças políticas de direita, a obra perambulou como ideia pela Lagoa da Pampulha na década de 1990 e acabou construída em escala reduzida e carente das proporções originais no Parque das Esculturas de Brusque, Santa Catarina. Ao fim e ao cabo, os torturadores nunca foram punidos e de certo modo voltaram ao poder com Bolsonaro – idólatra de Ustra e congêneres. Em 1988, o arquiteto voltaria à carga com uma mão aberta sangrando por seus veios que projetou em São Paulo dedicado à integração continental. A obra, que integrava a “Mão Aberta” de Le Corbusier em Chandigarh às “Veias abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, talvez tenha se tornado a sua escultura mais célebre.

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Oscar Niemeyer. Monumento Tortura Nunca Mais, 1986. Fonte: Fundação Oscar Niemeyer.

Foi no ano seguinte que projetou para Volta Redonda uma homenagem aos operários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) – William Fernandes Leite, Valmir Freitas Monteiro e Carlos Augusto Barroso. Em greve por redução de jornada e readmissão de lideranças sindicais injustamente demitidas, os trabalhadores haviam ocupado a Usina Presidente Vargas. A mando do então presidente José Sarney (MDB-MA), o exército invadiu a indústria, feriu dezenas de operários e matou os três. Niemeyer desenhou uma placa de concreto com as silhuetas das vítimas trespassadas por um estilhaço. A explosão do atentado ao monumento, reivindicado por um grupo chamado Falange Patriótica, derrubou o conjunto e quebrou as janelas de todos os edifícios da praça. O ato foi aplaudido pelo general “linha dura” Newton Cruz. Niemeyer conta: “E propus que o pusessem de pé outra vez, com as fraturas à mostra e uma frase que redigi e assinei: ‘nada, nem a bomba que destruiu este monumento, poderá deter os que lutam pela justiça e liberdade’”. Assim foi feito e a obra permanece no local até hoje, embora ninguém tenha sido responsabilizado pelas mortes dos operários ou pelo atentado.

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Oscar Niemeyer. Monumento 9 de novembro em Volta Redonda, no dia de sua inauguração em 1º de maio de 1989 e a proposta de reerguimento feita pelo arquiteto. Fonte: Fundação Oscar Niemeyer.

Na década seguinte, a pequena cidade de Eldorado dos Carajás, no Pará, seria palco de uma das mais covardes e sangrentas chacinas operadas por forças policiais e jagunços de latifundiários contra um grupo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na madrugada de 10 de abril, 155 homens armados até os dentes abriram fogo contra um acampamento de 1,5 mil pessoas – incluindo mulheres e crianças – matando pelo menos duas dezenas de camponeses (não se sabe quantos foram enterrados no próprio local). Solidário, Niemeyer ofereceu à vizinha cidade de Marabá uma escultura que constava de um ancinho empunhado por um trabalhador numa placa em que se lia ao pé: “A terra também é nossa”. A obra foi brutalmente demolida a golpes de picareta e marreta a mando dos mesmos assassinos dos trabalhadores. Nunca foi reconstruída, salvo por uma pequena reprodução em baixo-relevo da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará em seu campus na cidade.

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Oscar Niemeyer e os militantes do MST com um modelo do que seria o monumento em Marabá. Fonte: Acervo Jornal do Brasil.

Os percalços por que passaram – e passam – as esculturas de Oscar Niemeyer (seguramente o maior arquiteto brasileiro de todos os tempos) são uma demonstração cabal de que a existência de monumentos é tão frágil quanto o que buscam rememorar. Ao fim e ao cabo, incorporam narrativas de disputas políticas, exprimem relações de poder, cristalizam as relações de dominação e a luta contra a opressão. São lutas que devem ser travadas. De sua pretensão de eternidade, como não lembrar o conhecido poema de Percy B. Shelley, Ozymandias?

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Encontrei um viajante vindo de uma antiga terra
Que me disse: — Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas, sobre a areia
Meio enterrado, jaz um rosto despedaçado, cuja carranca
Com lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor soube ler bem suas paixões
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou
E no pedestal aparecem estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplai as minhas obras, ó poderosos e desesperai-vos!”
Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas se espalham para longe.

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