Das filas do desemprego aos palcos do mundo

O ano de 1977 marcou o lançamento de discos e a formação de bandas decisivas do punk rock, em um contexto de luta contra o fascismo e o racismo no Reino Unido

Imagem: Dimitris K
por Ivan Conterno

O texto abaixo é a quarta parte da série “Grito de ódio: uma breve história do punk“.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

O ano de 1977 foi o mais marcante da história do movimento punk. Mesmo com apenas poucas músicas lançadas em disco no ano anterior, os primeiros grupos já acendiam a chama do punk rock em todo lugar que tocavam. A filosofia era “se você não gosta do que existe, faça você mesmo”. Foi nesse ano que começaram a surgir grupos que tocavam punk rock na costa oeste dos Estados Unidos, na Austrália, na França, no Canadá, na Irlanda, na Iugoslávia, na Holanda e na Suécia. 

Para o crítico Robert Hilburn, tudo se resumia a crianças com suas guitarras querendo ganhar um milhão de dólares, sendo que o punk dizia que você nem precisava saber tocar guitarra para conseguir isso. Essa avaliação soa ridícula quando o movimento é visto de perto, mas reflete o pensamento reacionário da época. Os anos 70 estavam no fim, num ambiente em que a luta pelos direitos civis e a luta feminista tinham se dispersado. Era hora de voltar ao trabalho e calar a boca. A TV ensinava que “as minorias” – negros, mulheres etc. – já tinham conseguido coisas demais e que essas questões tinham sido superadas.

 O ressurgimento do nazismo na Inglaterra

Na Inglaterra, o desestímulo geral era acompanhado pela desilusão dos movimentos sociais com o Partido Trabalhista britânico. A esquerda parlamentar não dava mais respostas satisfatórias a toda uma geração de jovens desempregados. Enquanto a população das antigas colônias arriscava enfrentar o poder, a luta da classe trabalhadora do primeiro mundo passava por um enorme refluxo. Como consequência, o mundo “civilizado” assimilava cada vez mais a cartilha conservadora.

O fracasso do governo trabalhista aliado ao desemprego crescente alimentavam a campanha fascista, que era repercutida por astros do rock’n’roll como Eric Clapton e David Bowie. Clapton fez um discurso bêbado pedindo para fãs votarem nos conservadores para impedir que os negros superlotassem a Inglaterra; Bowie queria que a Inglaterra fosse governada por alguém como Adolf Hitler e saía de conversível fazendo a saudação romana. E não era brincadeira: os fascistas estavam se reagrupando em torno do National Front (Frente Nacional) desde o final dos anos 60. Quase uma década depois, o partido de extrema-direita estava no seu auge, arrebanhando retardados para os bandos de porradaria anti-imigrantes.

David Bowie e a foto que o envergonharia anos mais tarde. Imagem: reprodução

A explosão punk

Em 1977, Londres já tinha sua própria meca do punk rock, a Roxy. Durante 100 noites, o local abrigou ininterruptamente bandas punks que se formavam aos montes. Era lá que Don Letts, o anfitrião da casa, colocava sua coleção de discos de reggae para tocar entre uma banda e outra. É claro que, à medida que as bandas punks gravavam suas músicas, Letts colocava esses pequenos discos para tocar também. Mas, para sua surpresa, o público não queria ouvir os discos de punk rock que surgiam. Ele tinha que continuar tocando reggae, o que destoava do clima racista crescente no país.

Em janeiro de 1977, os Sex Pistols foram mandados embora da EMI por falar palavrões na TV, o que atrasou as gravações da banda. Não bastasse isso, em fevereiro, o baixista Glen Matlock saiu do grupo devido à falta de afinidade com Johnny Rotten e formou os Rich Kids. Foi aí que Johnny convidou seu amigo Sid Vicious para entrar na banda, embora Sid não soubesse tocar baixo, o que atrasou mais ainda as gravações. Sid foi a inspiração definitiva para que uma pessoa que nunca tivesse encostado num instrumento montasse a sua própria banda.

Enquanto os Sex Pistols não conseguiam um contrato, o Damned lançou o primeiro álbum do movimento punk inglês em fevereiro, pela Stiff Records. Os nova-iorquinos do Television também lançaram seu primeiro álbum no mesmo mês. Era o auge do movimento, com lançamentos não só de bandas punks como de músicos de outros estilos inspirados no movimento, como o grupo mod The Jam, o Motorhead, Elvis Costello, o Ultravox e os Talking Heads. No mesmo ano, Iggy Pop, o antigo vocalista dos Stooges, lançou seus dois álbuns solos mais importantes, “The Idiot” e “Lust for Life”.

Em março, o Clash lançou o single “White Riot”. A música convocava os jovens brancos a se juntarem aos imigrantes caribenhos que enfrentavam a repressão policial durante o carnaval. O lado B desse single continha “1977”, um grito contra todo o rock’n’roll anterior a eles, nomeadamente Elvis, os Beatles ou e os Rolling Stones. A partir dali, o mundo da música nunca mais seria o mesmo.

Um mês depois, saiu o primeiro álbum do Clash. Nessa mesma época, Bob Marley e Lee “Scratch” Perry estavam em Londres e ouviram a versão do Clash para a música “Police and Thieves” – que Scratch havia escrito anos antes. Logo se assustaram com a voz áspera de Joe Strummer, mas gostaram do resultado. A união dos dois movimentos agradava Bob: “os punks são excluídos da sociedade; os rastas também, então eles são obrigados a defender o que defendemos”. Pouco depois, ele gravou a canção “Punky Reggae Party” em homenagem às bandas inglesas de punk rock. Essa afinidade entre os dois movimentos popularizou o punk em lugares pouco prováveis, assim como ajudou o reggae a ressurgir com força no final dos anos 70.

Além de lançarem o primeiro single e o primeiro álbum punk inglês, o Damned também foi a primeira banda punk britânica a fazer uma turnê pelos Estados Unidos. É frequentemente atribuído ao Damned a inspiração para a criação das primeiras bandas de hardcore punk na costa oeste desse país. Mas, antes mesmo da ida dos ingleses, várias bandas punks já vinham sendo formadas na Califórnia desde 1976, principalmente em Los Angeles e em São Francisco, a maioria delas inspiradas pelos Ramones.

Da esquerda para a direita: Brian James, Capitain Sensible, Dave Vanian e Rat Scabies: o Damned, em Nova Iorque, 1977.

O punk californiano era musicalmente bastante eclético e original. Parte das proezas musicais eram obra de um produtor conhecido como Geza X. Sobre essa cena, faremos um capítulo à parte nesta série d’O Partisano. Fiquem por enquanto com um trecho do filme What We Do Is Secret, no qual a banda Germs é formada para tentar se apresentar com o Damned em 1977. A cena mostra o grupo de amigos que ainda não sabia tocar se apresentado para os músicos da banda inglesa. Depois de serem reprovados no teste, passam a ensaiar e criam um estilo próximo ao que depois seria conhecido como hardcore.

Enquanto a turnê do Damned rolava, os Sex Pistols finalmente conseguiram uma gravadora que os aceitasse. A intenção de Malcolm McLaren era lançar a música “God Save the Queen durante o jubileu de prata da Rainha Elizabeth, em junho daquele ano. A nova gravadora, dirigida pelo excêntrico Richard Branson, alugou um barco para tocar a música pelo rio Tâmisa e atravessar as Casas do Parlamento, parodiando a procissão que a rainha faria dias depois. Quase todo mundo que estava no barco foi preso nesse dia, incluindo os punks do Bromley, o próprio McLaren e sua mulher, Vivienne Westwood.

Faça você mesmo

Os Desperate Bicycles foram uma das primeiras bandas londrinas a colocar em prática a ética do “faça você mesmo” de forma mais abrangente. Em maio de 1977, eles gravaram um EP em apenas 3 horas e lançaram por conta própria, dobrando encarte por encarte. Eles continuaram fazendo isso durante toda a carreira, convictos de que isso representaria uma mudança significativa, o que se tornaria recorrente entre as bandas anarquistas anos mais tarde. Para o vocalista Danny Wigley, era necessário colocar a mão na massa para alcançar algum controle sobre a própria vida.

No começo do ano, após roubar equipamento suficiente para montar uma banda punk, um grupo de ex-hippies formou o Crass. Assim que alcançaram a marca de cinco músicas ensaiadas, partiram do interior da Inglaterra para a estrada acreditando que havia uma revolução anarquista acontecendo. Insatisfeitos com o que presenciaram em Londres, se refugiaram numa cena própria que foi ganhando cada vez mais adeptos, o anarcho punk.

Nisso foram influenciados por Charlie Harper, o vocalista dos UK Subs. Charlie não era um adolescente, e sim um veterano do blues que tinha encontrado no punk rock as respostas para todas as suas indagações. No começo, ele acreditou verdadeiramente que o punk rock era a música da revolução popular. Não demorou muito e os UK Subs já estavam enturmados na cena da Roxy e tocando no programa de John Peel na BBC.

Os desdobramentos

Nem tudo se resumia a diversão e lançamentos no mercado. A resposta ao fascismo crescente era uma necessidade latente e a resposta a tudo isso não tardou a surgir no meio musical. No final de 1976, um grupo de ativistas fundou o Rock Against Racism (Rock Contra o Racismo), um movimento político e cultural que se opunha ao National Front e à xenofobia crescente. Em 1977, o movimento começou a se espalhar por todo o país, com mais de 200 grupos locais em todo o Reino Unido.

Tudo indicava que a combinação desse movimento com a explosão punk fosse óbvia. Não demorou muito para que alguns grupos punks começassem a participar do movimento antifascista. Em abril de 1978, como resultado da explosão no ano que tratamos aqui, o Clash reuniu 100 mil pessoas num festival aberto do Rock Against Racism, arrecadando fundos para a Liga Anti-Nazista. Nessa apresentação, Joe Strummer subiu ao palco com a camiseta do RAF, a guerrilha comunista que abalou o regime da Alemanha Ocidental em 1977. 

Essa explosão punk flertava com a política, mas ainda de maneira ingênua. Se o Clash, por um lado, polarizava com a sua militância, outras bandas, como a que foi formada pela Siouxsie Sioux – os Banshees –, se agarravam no discurso mais despolitizado e vaidoso. A despeito da cena londrina e novaiorquina terem sido produzidas essencialmente por jovens egressos das escolas de artes, a simbologia ainda era difusa até aqui. Apenas os adolescentes da classe operária que começam a formar suas bandas nesse ano emblemático é que, posteriormente, vão dar um caráter ideológico mais definido para o movimento em grande escala.

Joe Strummer no festival do Rock Against Racism, em 1978

Esse ano foi o mais importante da história do punk rock, mas é impossível destrinchá-lo sem falar sobre como o movimento impactou cada local. A partir de 1977, surgiram inúmeras vertentes do punk rock, cada uma com uma filosofia e uma origem social própria. Nas próximas semanas falaremos mais sobre algumas delas.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Continua semana que vem…

Deixe uma resposta