Eric Clapton, o véio do negacionismo

Dos véios de motocicletas aos trevosos fãs de Burzum, o rock se tornou a trilha sonora de brancos conservadores em todo o mundo ocidental

Imagem: Reprodução/YouTube
por Ivan Conterno

Há 45 anos, o mesmo cantor que hoje é compartilhado pelos bolsonazistas por criticar as vacinas e as medidas sanitárias usava a sua popularidade para defender a segregação racial.

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Em 5 de agosto de 1976, Eric Clapton subiu ao palco com integrantes dos neonazis do National Front no Birmingham Odeon para dizer que, da mesma forma que antes – na época em que tocava no Cream – ele tinha sido fissurado em drogas, ele tinha então passado a gostar do racismo.

O músico defendeu a expulsão de todos os imigrantes para evitar uma Inglaterra “superlotada” e garantir que o país fosse exclusivamente branco, e não uma “colônia negra”. No meio da sua fala, o guitarrista exaltou o supremacista Enoch Powell, querendo que assumisse como primeiro-ministro, e não poupou ninguém que não fosse branco de xingamentos.

Na época, as opiniões de Eric Clapton e de outros músicos conservadores foram respondidas com a campanha Rock Against Racism, que embora não fosse uma iniciativa ou exclusividade do punk rock, foi crucial para a politização desse movimento.

Eric Clapton já deu declarações dizendo que não era racista, mas sim um semi-racista. Vez ou outra alguém resgata suas influências musicais negras para dizer que ele tem até músicas que são mais escurinhas, coveres e coisas do tipo.

Agora, com a sua campanha anti-vacina e anti-isolamento em alta, reclama de um certo ostracismo. O seu telefone não toca, os emails não chegam, os músicos não o respondem mais.

O que ele fez de tão errado? Ficou espalhando teorias malucas sobre como não controlar a pandemia? Sim, foi isso o que esse delinquente fez. Passou o período todo usando sua fama para compartilhar informações falsas sobre a Covid, como a de que o lockdown deveria ser imposto apenas às pessoas dos grupos de risco (como ele, um velho de 76 anos com enfisema pulmonar) e deixar a doença se espalhar no resto da população (principalmente na parte mais pobre).

Como todo conservador de direita, Clapton aposta na parafernália liberal para advogar pelas políticas de extermínio da população.

Daqui a alguns anos o velho rockeiro, bluseiro e cocaineiro volta à tona e diz que foi tudo uma brincadeira e que se arrepende do passado “semi-negacionista”, isso porque o infeliz foi vacinado e está fora de perigo. Vai dar o ar da graça graças à vacina que ele tanto reclamou.

Vale ressaltar que os efeitos colaterais da vacina “denunciados” pelo músico – febre, dores, insônia etc. – já são esperados, na medida em que o nosso corpo está trabalhando na produção de anticorpos.

Os zé-ruelas da música

O saudoso tocador de violão elétrico não foi o único babaca a polemizar com as medidas sanitárias para conter a pandemia. O irlandês Van Morrison, que lançou pelo menos 3 músicas contra as medidas sanitárias, criou no final do ano passado uma música contra o lockdown, interpretada pelo parceiro de maluquice: “Ai minha Constituição, ai minha Magna Carta, ai minha liberdade” e por aí vai.

Além dos dois, Morrissey, o vocalista dos Smiths, passou a apoiar publicamente o partido de extrema-direita For Britain já há alguns anos. O líder dos Sex Pistols, John Lydon, é hoje um defensor fervoroso de Donald Trump. Ian Brown, dos Stone Roses, é outro que acredita que a pandemia foi um plano globalista para impor ao mundo uma tirania digital.

Como foi que o rock virou música de branco filho da puta?

O rock’n’roll nasceu como música negra, mas foi rapidamente apropriado por brancos rednecks. Dos véios de motocicletas aos trevosos fãs de Burzum, o rock se tornou a trilha sonora de brancos conservadores em todo o mundo ocidental.

Nos anos 50, no entanto, Chuck Berry ainda era o maior representante do rock’n’roll; no final dos anos 60, Jimmi Hendrix já era visto como um estranho no ninho, um negro tocando rock entre milhares de brancos psicodélicos. Como isso aconteceu?

Segundo Jack Hamilton, professor de estudos midiáticos da Universidade de Virginia, o rock passou rapidamente a significar apenas música com guitarras feita por brancos. Para que isso ocorresse, a imprensa teve que chamar o rock’n’roll dos negros de soul music e a música folclórica revivida pelos brancos da Califórnia é que passou a ser chamada de rock.

Excluir os negros da rock foi o primeiro passo. Enquanto os músicos negros lutavam por direitos civis nos Estados Unidos, os músicos brancos assumiam o compromisso com a indústria fonográfica de não trazer a política para os palcos. Os grupos que ousaram violar essa regra sofreram muitas represálias, como foi o caso do MC5, o Clash e Rage Against the Machine.

Um nicho estimuladamente branco com a política de esquerda longe de vista não poderia deixar de criar coisas espantosas.

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No Brasil, esse problema se soma a suposta superioridade que o rock – principalmente o rock mais antigo – teria sobre a nossa cultura, sensação estimulada por diversos críticos musicais de grande alcance.

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