Um mundo sem bar (só que bom)

Saudoso de um litrão na solidão desta pandemia, fucking leo daria os polegares das duas mãos para voltar ao bar da esquina da Consolação com a Alameda Santos, onde o litrão é barato e as regras são claras

Imagem: Reprodução
por fucking leo

Daria um dedo. Qualquer dedo de qualquer mão. Daria meus dois polegares. Nesse exato momento, trocaria meus dois polegares pra sentar numa porra de uma mesa amarela de plástico. De qual bar? Foda-se. Qualquer um que fosse. Poderia ser o da consolação com a santos. Daria os dois polegares.

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A última vez que sentei pra tomar um litrão ali foi incrível. Domingo, fim de noite. Saí do trabalho com um amigo. Era domingo? Era domingo. Paramos lá pra tomar um litrão sabe-se deus lá a razão. Paramos lá. Porra. Era um domingo fim de noite e a gente só queria tomar umas duas brejas antes de ir pra casa.

Do nada. Quando digo do nada, é do nada mesmo. Domingo, pasmaceira. Do nada começa uma briga que até hoje não sei de onde veio. Generalizou. Levantamos, demos nossos dois passos pra trás e ficamos olhando de longe barra perto. Uma das pessoas na briga pega uma cadeira e arma pra dar em outra pessoa.

Foi aqui e só aqui que o garçom fez a intervenção dele. Cadeira não. A pessoa que tava pronta pra dar uma cadeirada na outra aceitou isso tão bem que parecia telecatch. Ó, cadeira não. A pessoa que ia dar a cadeirada devolveu a cadeira e a briga seguiu ali dentro dos conformes e da regra da esquina.

Aquela esquina é onde tem o litrão mais barato da cidade. Da cidade e mais barato entendam por litrão mais barato dentro da cidade. Sete pila. Cara, vamos beber hoje? Isso num domingo fim de noite. Ah, bora tomar uma. Onde? Vamos num lugar que sei que vai tá aberto, que é barato e que é meio do caminho.

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Gosto daquela esquina porque a cerveja é barata, porque a logística é boa e, principalmente, porque fica logo embaixo da torre da bandeirantes que é a minha torre preferida da cidade. O que sempre me incomodou ali foi o fato de ficar bem na beira de onde a Rebouças encontra a Consolação.

O tempo inteiro é ônibus, carro, ônibus, ônibus, carro, ônibus passando tirando fino. Mas tudo bem. Litrão a sete pila. Logística boa. Já comecei e já terminei um namoro por ali. Nunca foi minha primeira opção de bar. Mas daria meus dois polegares pra sentar naquele bar ali.

Perdi as contas de quantas vezes sentei naquele bar ali. Pega sua mochila aí, mano. Falei pro meu amigo quando vi a briga prestes a estourar. Era só um domingo de noite e aquela briga. Fiquei impressionado até com a minha displicência. Eu mesmo só levantei e dei dois passinhos pra trás.

Era como se fosse a coisa mais natural do mundo ter uma porrada generalizada num bar num fim de noite de domingo. Mano, sua mochila ali. Ó, a cadeira não. O que mais impressionou não foi o garçom só se preocupar com a cadeira. Foi o brigante levar a sério o garçom e devolver a cadeira numa boa.

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Garrafas voando, copos voando, pessoas brigando. Ônibus passando. Domingo de noite. A briga acabou e a gente sentou como se nada tivesse acontecido. Como se acontecer aquilo ali fosse um ônibus passando na esquina. Ó, fica com sua mochila aí mais perto. Garçom, mais uma salinas.

Mano, cê viu que chegaram com um cabo de vassoura? Não, e a hora da cadeira? A cadeira não. O pau tava comendo solto, mas alguém pegar a cadeira foi um quebrar de regras subentendidas ali. A cadeira não. Devolveram a cadeira e o pau continuou comendo solto. A cadeira não. Ela ficou preservada. O oponente; idem.

Esse bar da santos com a consolação é um bar que sempre parei sem saber a razão. Tá. Logística, preço, torre. Só que ele nunca teve nada de bar do meu coração. Se o Luciano Huck me aparecesse perguntando qual bar gostaria de ir depois de ser humilhado no programa dele, jamais diria aquele.

Por que lembrei dele agora? Pra salientar que trocaria meus dois polegares pra sentar num bar qualquer. Trocaria pra sentar no bar que tá bem longe de ser o meu bar. Tudo que queria agora era dar dois passos pra trás porque vi uma briga começando a estourar. A cadeira não.

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Isso é bar. Não é o que o Prata chama de bar ruim. Não é o lugar que você frequenta e que conhece o garçom pelo nome. Sentem num bar antes de escrever sobre bar. Mercearia não vale. O cara que fala que não viveria sem dry martini falando de bar nunca viu o garçom dizer a cadeira não.

Façam o que vocês quiserem. Só não mexam com o que é caro pra mim porque eu vou arrumar confusão com vocês. Bar é caro pra mim. Literatura é cara pra mim. Bagunçou com os dois de uma vez? Tem certeza que a cadeira não? A cadeira não. Tá bom. A cadeira não. Puta cadeira de madeira. Que cena.

Nenhum garçom ali jamais soube meu nome. Nem eu soube o nome de nenhum garçom ali. Mas vou contar pra sempre a história do garçom que disse: a cadeira não. Vamo beber ou não vamo? Será? Domingo de noite. Só tava eu e meu brother na agência naquele domingo de noite. Tudo dizia não. Ah, bora.

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Acho que os bares não viveriam em um mundo sem a gente.

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