Sobre pais e filhos

Terceira parte da série Bolsonaro n’Os demônios de Dostoiévski chama atenção para a necessidade de não subestimar, mesmo o mais excepcional grotesco

Sem título, anos 1940, do livro Os Demônios. Xilogravura de Axl Leskoschek
por Mariana Lins

As duas características psicológicas mais marcantes do personagem Piotr Stiepánovitch Vierkhoviénski é uma ânsia demasiada por domínio e, ao mesmo tempo, um profundo ressentimento pela própria mediocridade, que, no seu caso, bem semelhante ao de Bolsonaro (ou vice-versa), era absolutamente indisfarçável. “Pietrucha c’est une si pauvre tête![1] […] Deus! Pietrucha, um agitador! Em que época vivemos!”. “Nenhum sentimento do elegante, um pequeno idiota, eu o considerava um nada” – diz o seu próprio pai, o honorabilíssimo Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski, quando chegam até ele os “estranhos boatos” de que Pietrucha era agora um agitador político com relações secretas e aparentemente internacionais.

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Uma avaliação que padece surpreendentemente do mesmíssimo erro que FHC, em entrevista recente, admitiu ter cometido para com Bolsonaro, uma vez que também o considerava uma espécie de “ nada”, alguém simplesmente não existente: “Eu não ligava para isso, porque ele não existia. Erro meu, porque ele existe. Foi presidente, foi eleito, e corre o risco de ser reeleito.” E convenhamos: não foi só FHC (e Stiepan Trofímovitch) quem “padeceu” desse erro de, por excesso de “realismo”, desconsiderar o “fantástico” e “excepcional” como algo irreal, não existente de tão irrazoável, ainda que documentado nas páginas de jornais, ainda que sentado na Câmara dos Deputados, ainda que, em entrevistas, ameace te fuzilar. Basta lembrar que Mano Brown no último comício de Haddad no Rio de Janeiro, em 24 de outubro de 2018, se viu na obrigação de avisar à “torcida do PT” (que FHC parece inclusive que se juntou, até porque, segundo ele, o que no momento não existe é o risco à democracia; “eu não vejo”, declarou), que Bolsonaro não só não era um nada, como iria ganhar a eleição dali a três ou quatro dias, de modo que não havia sentido nenhum em toda aquela festa, animação, comemoração cheia de celebridades e personalidades ilustres – entre as  quais Chico Buarque e Caetano Veloso, para dizer o mínimo. Deus! Bolsonaro, presidente! Em que época vivemos! Ele é tão medíocre! Nenhum sentimento do elegante, um pequeno idiota, nós o considerávamos um nada! Ora, ora: se, como disse Mano Brown: “o que mata a gente é cegueira”, sigamos tateando enquanto é tempo.

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No que diz respeito ao romance, é preciso considerar que a representação da relação de filiação e rejeição entre o pai Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski e o filho Piotr Stiepánovitch Vierkhoviénski – rejeição nota bene que é recíproca –, para além da questão familiar, sanguínea, emocional, é também e sobretudo a representação artística de uma filiação política e ideológica; muito embora, à primeira vista, as vertentes ideológicas e políticas do pai e do filho e, de um modo geral, os seus comportamentos, anseios, trato e formação se mostrem antagônicos e polarizados. Isto é: se mostrem tão opostos quanto o ser e o não-ser, quanto óleo e água, que não só não são derivados um do outro, como sequer se misturam. Só que não é bem esse o caso. Em Os demônios encontramos, conforme as palavras do estudioso Bruce Ward, “um dos insights centrais de Dostoiévski acerca da modernidade: o de que há uma conexão intrínseca ou melhor uma filiação entre liberalismo e niilismo”.[7] Insight que ao ser representado sob a forma artística ao invés da filosófico-especulativa, concretiza-se em personagens e situações particulares, especificamente na relação entre o pai Stiepan, um liberal russo, e o filho Pior, um niilista político. Ou, para sermos mais precisos, a coisa vai inclusive além: pois Stiepan, na condição de intelectual da província em que se passam os acontecimentos narrados no romance, é uma espécie de pai espiritual de muitos dos que com o retorno de Piotr mudam, ainda que não saibam, por assim dizer, de preceptor.

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Transposto à nossa realidade, numa linguagem a nós mais cotidiana, é como se, a partir de Os demônios, fosse possível suspeitar que, para além do antagonismo, há certa  filiação entre o que hoje no Brasil entendemos como centro-esquerda-centro-direita – isto é, essa coisa meio cambaleante e nebulosa mesmo, que constitui certa vertente política de espectro bem amplo, com seus expoentes mais inclinados ora dois passos para cá, ora para lá a depender da música – e o extremismo político que tem na destruição das instituições e costumes sociais vigentes o seu ponto central e que no Brasil atual, como todos sabemos, se concretiza no fenômeno do “bolsonarismo”  e no do seu “chefe supremo” Jair Messias Bolsonaro. Adiante, trabalharemos esses aspectos. Por ora, fiquemos com a seguinte tradução livre; pois se nos circunscrevermos aos acontecimentos da vez e a uma das figuras políticas neste exato momento com maior destaque, seria como se Renan Calheiros fosse o próprio pai de Bolsonaro. Sim, Renan Calheiros, conhecido como figura de fino trato e de grande senso pragmático (o que Stiepan, é verdade, não tinha); agora, possivelmente na apoteose estética da sua trajetória política (sob este aspecto, sim, bem a la Stiepan), projetado nacionalmente com comoventes discursos, como o sobre o julgamento de Nuremberg, em que demonstrou grande erudição, uma tonalidade trágica para a sua “bela postura cívica”, a de “censura personificada” da CPI da covid, de “liberal idealista” do Twitter; mas que, de outro lado, desde tempos a muitos de nós imemoriais, é uma máquina de fazer santinhos da sua própria pessoa e de muitos dos seus familiares e apadrinhados para serem distribuídos nas comunidades pobres das Alagoas como se o único ticket para uma miséria mais amena, para um inferno com alguma esperança;  pois, segundo os jornais também contam, a família Calheiros constitui-se numa espécie de realeza do Estado de Alagoas, cuja cidade imperial é o município de Murici. Renan, um dos reis das terras distantes dos holofotes do chamado Brasil real – real no sentido exclusivo de miserável e violento –, pode até ocupar na CPI da covid legitimamente o posto de personificação da censura cívico-moral, mas é preciso admitir que volta meia fica cansado de permanecer de pé, em tal magnânima postura, e como Stiepan se deita “um pouquinho de lado”. Seja como for, no romance, para a imensa sorte dos personagens, Piort, diferentemente de Bolsonaro, não teve filhos.

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[1] Em português: “ele é tão medíocre!”. Note-se que aqui, o uso do francês para qualificar Pietrucha, um diminutivo para Piotr Stiepánovitch, não é gratuito. Mas, sim, indicativo do modo como a intelectualidade russa se expressava na época, o que, para Dostoiévski, era um dos símbolos da subserviência e imitação dos russos educados para com a avançada cultura europeia ou, em outras palavras, um sintoma de desenraizamento da própria cultura tão profundo que se expressava no próprio trato com a língua mãe.

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