Por que a terceira via se comporta de forma sectária?

A terceira via no Brasil virou uma espécie de “identitarismo de classe-média branca e urbana”, o que é curioso, já que eles é que usam esse mesmo termo como palavrão

Arte: André Dahmer
por Vinícius Carvalho

É justo e legítimo que um candidato e seus correligionários, no Brasil de hoje, repitam o mantra “Nem Lula, nem Bolsonaro”. É legítimo acreditar que o seu projeto eleitoral é melhor e o querer vitorioso.

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O que não é legítimo, o que é irresponsável, é formar essa falsa polarização quando um dos lados representa um campo político com impulsos fascistas, milicianos e deixa claro o seu desejo de aplicar um golpe de estado no país, como é o caso de Jair Bolsonaro. A polarização em 2022 está dada, por enquanto é Lula x Jair Bolsonaro e todas as pesquisas vêm apontando isso.

Em 2006, o que se vendia como “terceira via” era Cristovam Buarque, do PDT, tentando se colocar como o anti-Lula e o anti-Alckmin. Ele foi atropelado pela Heloísa Helena já no primeiro turno e ficaria em 4° lugar. Em 2010 e 2014, essa terceira via foi a Marina Silva. O momento era outro, estávamos no auge da polarização entre PT e PSDB. O que quero apontar é que a terceira via brasileira sempre tentou surfar no senso comum brasileiro e na hora “H”, pendeu à direita.

Diferente do que querem fazer acreditar hoje em dia, de que “o PT pegou pesado com a Marina Silva”, vale lembrar que em todos os momentos, tanto em 2010 quanto em 2014, a Marina estava à direita da candidatura de Dilma Rousseff. Mais do que isso, em 2014 Marina já colocava no seu plano de governo mudanças na cláusula trabalhista e econômica reformas que deixaram, na ocasião, até Aécio Neves envergonhado de colocar no seu plano de governo.

O PSDB é chutado dessa polarização a partir de 2018, vendo seus votos migrarem quase que integralmente para o candidato extremista, porém quem continua polarizando com o protofascismo no Brasil é o PT.

Neste cenário, surge Ciro Gomes tentando abocanhar este campo político. Um campo político que, repito, sempre teve dificuldades em dialogar com as classes mais pobres do país e que, por isso, caíram no vício de potencializar o discurso conservador para agradar a classe-média.

O cálculo é relativamente simples. Caso a terceira via conseguisse ir ao segundo turno contra o PT, em 2010 ou 2014, ganharia os votos dos tucanos, caso fosse ao segundo turno contra o PSDB, ganharia os votos dos petistas; porque a rivalidade cega ali, era entre PT e PSDB.

A terceira via representada pelo Ciro Gomes é diferente. Ela conseguiu formar uma base – pequena, mas barulhenta e fortemente urbana – que vem de forma paulatina fazendo múltiplos discursos.

Tem os discursos para a classe média progressista do Centro-Sul brasileiro, que tem conquistado muito psolista órfão também, e que se coloca como o verdadeiro campeão no combate ao rentismo e ao neoliberalismo (mentira) e coloca o PT, como um continuador do PSDB (petucanismo, eles chamam), porém radicalizam no discurso moralista à direita e a tentativa desesperada de colocar o DEM na vice de chapa.

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Ora, porque os grandes amigos que apontam os absurdos que era ter a Kátia Abreu como ministra da Dilma, mas deixou de ser imoral quando ela se tornou vice do Ciro?

A “terceira via”, na verdade, é tão virulenta com o PT, e começa a angariar apoiadores ditos de esquerda, a partir do momento em que as redes sociais ganham certo protagonismo na disputa política brasileira e passamos a ver coisas bizarras, como influencers do comunismo no Twitter, que passam a vida fazendo discurso antipetista com a vontade de superar o “petismo” enquanto partido solar da esquerda brasileira, se aliando ao cirismo, que hoje reivindica o trabalhismo getulista, uma vertente que é claramente e historicamente anticomunista, a ponto de Vargas ter lavado as mãos para envio de Olga Benário para Adolf Hitler.

A terceira via no Brasil virou uma espécie de “identitarismo de classe-média branca e urbana”, o que é curioso, já que eles é que usam o tal de “identitarismo” como palavrão.

O PT, para essa turma, é visto como o culpado pela proliferação das pautas de identidade no Brasil. Porém, mais uma vez, existe uma coadunação absurda entre dois extremos dentro dessa tal disputa que ocorre quem vai ocupar os espaços da terceira-via.

Se por um lado há o cirismo e o comunismo de Twitter, que odeiam o petismo e o bolsonarismo igualmente, inclusive o equiparam, por outro, os movimentos sociais relevantes do campo dito “identitário”, acusam de forma leviana e corriqueira o PT de ter lavado a mão para o “racismo estrutural”. Todos eles, também nessa disputa fratricida de tentativa de ocupar os espaços do PT, ou então forçar, de fora para dentro, que o PT atenda prioritariamente as pautas deles. Ora bolas, filiem-se ao PT e disputem o partido internamente.

Este cenário de crescimento da popularidade do Bolsonaro, eu sei que vai ser muito difícil pra muita gente que quer ENTERRAR O PT ler isso, mas pode, por outro lado, colocar o PT novamente em posição primordial em 2022. Quem pode mitigar isto, por enquanto, não é o Ciro Gomes, é o próprio lulismo.

Mas sem arrogância. Sem achar que o “PT é uma força vai ganhar sempre e pronto, somos fodas e blábláblá” não é assim, devagar com o andor, e o “lulismo” do aspecto econômico, está aí sendo comprovado que é facilmente sequestrado. Temos que superar isso também, mas sem sectarismo e sem soluções dos anos 80 e sem plenárias de 6 horas, que o partido adora até hoje.

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Certa vez, durante o governo Temer, Ciro causou celeuma em dar uma declaração que “o Brasil não cabe num projeto de esquerda”, e foi uma declaração já estratégica apontando para o eleitorado que ele queria atingir: a sociedade brasileira, que achava o PT “radical demais” e não se via no projeto da esquerda de classe-média e sentia desprezo pelas políticas públicas de superação da miséria e concessão de dignidade, como o Bolsa Família, a PEC das Domésticas.

Ciro propunha ali, para uma classe-média jovem que não lembrava do governo FHC e uma mais idosa que estava farta do lulismo, mas não queria também o retorno do PSDB. O pedetista apresentou para a sociedade um projeto econômico neo-desenvolvimentista, neo-keynesiano, economicamente de centro-direita e socialmente de centro-esquerda, uma social-democracia difusa, algo que, por sinal, foi mais ou menos parecido com o que o petismo já praticou sendo que com 80 anos de atraso, pois ainda repete os mantras do New Deal.

Qual é o jogo da terceira via, então, caso vença? Como governar tendo feito uma campanha de ódio ao petismo e ao lulismo por cerca de 6 anos a fio?

Numa suposta vitória dessa terceira via, eles venceriam sem depender dos votos do lulismo no primeiro turno. O voto petista, orgânico, responsável e ideologizado, obviamente migraria para o Ciro no segundo turno, caso ele fosse contra o Bolsonaro. Eles poderiam alegar que “se não votarem, a culpa da vitória do Bolsonaro é de vocês”.

Caso chegassem ao poder, não encontrariam resistência no apoio do então maior partido de esquerda do país, com quase 80 deputados, de ter uma base de apoio fixa em todos os projetos nacionalistas e de ponto progressista. Se essa terceira via for o Ciro, ele conseguiria aplicar o seu projeto econômico sem a preocupação de ser taxado de pelego e ter a esquerda-pura instrumentalizando a direita. Pois essa ainda estaria fazendo oposição e disputa com a memória do petismo.

Resumindo, essa terceira via acha que conseguiria governar o país sem cobranças. Só falta combinar com os russos. É evidente que não existe uma base social robusta em nenhuma opção de terceira via, eles seriam, de forma muito mais fácil, dinamitados. Bolsonaro conta com as armas e o mercado, o PT conta com 3,3 milhões de filiados, a maior central sindical do país, centenas de sindicatos, MST e uma ala considerável dentro da Igreja Católica. Governaram com dificuldade em determinado momento, sim, mas imagina alguém sem essa estrutura? Agora, o que permeia essas disputas no coração de quem quer superar o petismo é algo de conjuntura cultural global.

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Setores preponderantes do nosso campo progressista amam figuras como Justin Trudeau do Canadá, por exemplo. Amava o Obama. E até os taxam de “nova esquerda”, mas chama o Putin quase de fascista. Esquecem que o jogo geopolítico é muito diferente e muito mais amplo que direita x esquerda.

Foi o ocidente que produziu o Estado Islâmico. O Obama defende mulheres e gays nos EUA. Mas as mulheres e gays da Síria e  da Líbia tiveram um fim trágico por conta das políticas deste mesmo Obama. Quem teve que entrar na Síria para dissolver o Estado Islâmico, ora, ora, ora, foi o malvado Putin.

Não dá para ser maniqueísta.

Venezuela é a mesma coisa: o PT apanha da direita por defender a soberania do regime Maduro; o PT apanha da esquerda de classe-média pelo mesmo motivo; o PT apanha da esquerda supostamente nacionalista e teórica-da-conspiração por não ter aplicado o chavismo aqui dentro. Sendo que se o PT aplica o chavismo aqui dentro essa turma mais abastada acusaria o PT de…autoritário demais.

Agora, analisar de forma adulta que o regime Chávez-Maduro tem erros e acertos, mas que no campo econômico erram muito de fato, ninguém quer fazer para além da torcida. E muitas vezes estão corretos. Publicamente eu não ataco a Venezuela, não. Se quiserem ver ataques à Venezuela, é só ligar a TV. Não é o meu papel.

Aí a tal terceira via ultranacionalista, cirista e comunista de Twitter, culpa o PT por “trazer o identitarismo para nossas universidades”, mas esquecem do básico: as universidades são autônomas. O PT jamais teve o poder de fazer isso que o acusam.

O que o PT fez, isso sim, foi encher as universidades de negros, por exemplo. E me parece lógico que essas pessoas, principalmente no campo das ciências humanas, queiram estudar temas que dialoguem com a sua opressão racial cotidiana.

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Nosso campo precisa se decidir: ou o Lula é o diabo porque conciliava, ou a Dilma era uma diaba porque não conseguiu conciliar e caiu de forma fácil. Estes são os dilemas da nossa terceira via. Terão sucesso? Não sei. Fazem barulho demais? Fazem. Porém, a mim não enganam.

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