O fazedor de deuses | por Luis Britto García

Fez-se um santo popular e milagreiro. Mas, imerso na dialética, ele tripudia sobre a “indústria da fé”. Mal sabia que criador, em momento cabal, acabaria por render graças ao deus que forjara

Imagem: Ocaso (1949), de Héctor Poleo (1918-1989), artista venezuelano
por Luis Britto García, com tradução de Rôney Rodrigues

Dando sequência à série Mundos (im)possíveis de Britto García, publicamos o conto El hacedor de dioses, do livro Rajatabla, de Luis Britto García, com tradução, feita pela primeira para o português, de Rôney Rodrigues.

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Fosca madrugada me encontrou saindo de local inconfessável, colocando lamparinas a óleo diante da feroz estátua do cacique aquela chamada pelos historiadores de Musubay aquela chamada pelo escultor que ainda tenta receber da municipalidade de peça escultórica aquela chamada pelos debochados de O Abacate ou O Berro de Cimento ou coisa pior que sinceramente não sei o que poderia ser.

Suave luz da lamparina revelando o rosto que parece por um lado o Homem da Emulsão de Scott e por outro Benito Mussolini fantasiado de bicha, rosto que mostra os sinais profundos da mudança da pracinha devido a vereadores que o acharam muito feio, e da escolinha devido a crianças que atiravam-no pedras, além disso tudo a polêmica de quando provaram que Musubay não existiu e que tudo foi uma invenção de um senhor que há anos redigira um almanaque para as petroleiras, além disso tudo o translado feito para longe onde faz amizade com as pombas com os carros engarrafados do cruzamento da estrada, onde está a placa que diz Trecho em obras.

Frequentar locais inconfessáveis me levou a multiplicar lamparinas a óleo velas velonas círios, sempre perguntando-me o quanto demoraria em acompanhar-me o primeiro ingênuo, o quanto demoraria em aparecer a primeira vítima da pegadinha. Eu que esperava a primeira velinha não colocada por mim, e numa madrugada noto, enroscada em uma das pernas daquele que era chamado de O Rinoceronte Gripado ou O Burro de Hérnia, uma guirlanda de flores de plástico sorrindo à alvorada iminente com suas vibrantes cores verde arara rosa gengiva de cachorro amarelo hepatite, o primeiro hino de glória que, com meus dedos tímidos, acariciei.

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Inventário de objetos que encontrei durante os seis meses seguintes: no pedestal da estátua: lamparinas a óleo, trinta e seis, cabos de vela, cento e oitenta e um; na mão estendida daquele que era chamado de A Luva de Beisebol ou Ai Me Pegou: oferendas de níquel em forma de muleta, dois, figurinhas de cobre em forma de buquê de noiva, quatro, coração de coral, um, mãozinhas de ébano fazendo figa, três; no poderoso pescoço daquele que era chamado de A Piroca ou O Peru Recheado: oferendas em forma de bercinhos, cinco, amuletos em formas de dedo, seis, tudo isso em sinal da potência milagrosa de Musubay, que inutilizou o pacote de velas que eu sempre carregava no porta-malas do carro. Meu triunfo foi completo quando, saindo de local inconfessável, desta vez na companhia de Lilianita a Loiraça, ela me disse, ah, freia, que eu tenho que pagar uma promessa. Desceu do carro, acendeu uma velinha perante Musubay e benzeu-se, eu fiquei olhando seus sapatos dourados mostrando as solas quando ela se ajoelhou.

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Duas crises do culto, sua degradação quando surgiu a notícia de que Musubay propiciava sonhos que faziam as pessoas ganharem na quina, e o excesso de velinhas incendiou os arbustos da estrada; sua transmigração, quando o padre conseguiu que transladassem a estátua para a estrada do outro lado da cidade, sem saber, coitado, que ali Musubay salvaria crianças atacadas por gastroenterites ou mordidas por ratos e geraria uma nota no jornal pela graça alcançada Musubay, bendita alma, salvaste a minha Gabrielita atropelada pelo caminhão de Lixo, dou testemunho das grandes coisas que a fé faz. Presa levaram uma senhora que dizia rezar a oração de Musubay e logo descobriram que era indocumentada; enorme foi o resultado da venda de um retrato de Sabú de tanga que apareceu nas banquinhas dos camelôs ao lado da efígie do Doutor dos Milagres, do Livro de São Cipriano e dos recipientes com magnetita e limalha de ferro. Eu fiz risíveis planos para enriquecer vendendo Musubay em estatuetas de gesso pintado e em adesivos para as pétalas de flores de papel, discutia se o historiador que havia inventado a Musubay tinha ou não direitos autorais e se existia ou não licenciamento para cobrar participação em canções, cinema e medalhinhas, e Lilianita que me ouvira uma vez não quis nunca mais me ver e tive meses desventurados e numa madrugada disse a mim mesmo solenemente: não fiz porcaria alguma da vida.

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Oferenda que faço eminente publicando esta história humilhante em genuflexão eu um homem que ria dessas coisas devido às leis da dialética e da negação da negação, quem se não Musubay quando ao meu lado os miolos de Melecio voaram com a primeira rajada quem se não Musubay quando o tanque de gasolina também foi perfurado e saiu o azul flama no assento traseiro, incendiando os passageiros clandestinos e cobrindo o vidro que tinha os adesivos Dirija com Cuidado Seja um Doador Voluntário de Sangue quem se não Musubay quando devido ao pneu direito furado o teto o motor o capô investiram contra a radiopatrulha que fechava o caminho e saí corrido até a ribanceira quem se não Musubay neste paletó que olhem, entrou por aqui e saiu por aqui e não me acertou e depois se confundiram e atiraram para outro lado, oh alma digna e solitária aquele que é chamado de A Unha de Jacaré, aceite esta oferenda por teus milagres daquele que primeiro iluminou teu altar, senhor das quinas, das flores hepáticas, das crianças mordidas pelos ratos e dos sapatos dourados.

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