O diário de Zé Ricardo: terça-feira

Mais um dia como todos os outros na vida de Zé Ricardo, até que ele resolve dar um jeito de começar a mudar as coisas depois de um encontro no trabalho

Imagem: zefart

por João Teixeira

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Terça-Feira, 24/03

Hoje não me levantei atrasado. Deitei cedo ontem e dormi bastante. Sonhei bastante. Tenho tido sonhos constantes e repetidos. Neles eu sempre sou um ladrão e estou fugindo da polícia. Às vezes ajo em bando, às vezes solitário, às vezes toco o terror, às vezes entro sorrateiro, calçando tênis, passeando sobre os telhados das casas sem fazer barulho, entro escondidinho, reviro o armário da vítima e não encontro nada. Nunca tem um puto. Nem uma joia ou uma câmera fotográfica que faça valer o risco. Quando vamos em bando é a mesma coisa, entramos no local e enfiamos o canhão na cara da pessoa (que sempre chora), mas ela não tem nada. Reviramos o estabelecimento: porcaria nenhuma. No final sempre acabo discutindo com a gangue e sigo na minha fuga sozinho, arrependido.

Tem uma peculiaridade. A polícia sempre vem, e sempre fica na minha cola porém nunca me alcança. Mas sempre na cola, sempre perto. Se der bobeira ela pega. Entro nesse prédio. Naquele outro. Pego esse metrô. Já sei! Vou para a zona norte, conheço um camarada lá que vai me dar esconderijo. Mas por que zona norte? Eu nem conheço ninguém lá. Sei que estou sonhando, só não sei como contar para mim mesmo. Preciso continuar na fuga, estão sempre perto, sempre a um passo de me acharem. Mas estou sempre um passo além. Estou dormindo em carne e osso, mas em espírito estou eufórico e paranoico. Correndo e tramando, pensando como vou despistar os tiras. Dormir assim não presta. Cansa mais do que estar acordado. Mas a vantagem é que eu sempre acordo. A polícia nunca me pega.

Medi a pressão e a insulina da mamãe. Tudo em ordem, 13/09. Glicose e insulina equilibradas. Na rádio ainda debatiam sobre a questão trabalhista. Diziam que na Inglaterra isso, nos Estados Unidos aquilo outro. Colocaram um sindicalista para debater com um deputado federal que apoiava a emenda. Eu me diverti com aquilo. O sindicalista deixava o deputado em cada saia justa, não conseguia responder. O trabalhador zombava com o político, que ficava puto da cara. Toda hora o apresentador da rádio tinha que intervir para manter o decoro, estavam quase saindo no soco. E deviam mesmo, estava torcendo por isso, só lamentava que não era não era na televisão.

A situação ficou tão séria que tiveram que chamar os reclames fora de hora. “Com a Eloy seguros, você descansa EM PAZ”. Puta merda, nem tomei meu café ainda e já vieram trazer a empresa pra dentro da minha casa. Só podiam estar querendo me sacanear. Às vezes eu entro nessas, saio procurando alguma câmera escondida pela casa. Minha mãe fala que eu estou louco. Até acho que esteja mesmo, mas só um pouco. Quem não está? Depois que verifico entre os livros, dentro das lâmpadas, no botão do fogão, geladeira, volto à minha atividade normal e não penso mais nisso. Mas às vezes esse pensamento me vem na cabeça, preciso conferir. O próximo comercial foi das bolachas de chocolate suíço. Eram as preferidas da Lídia. Ops, acho que ainda não comentei dela aqui.

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Bom, por mais que eu pareça um sujeito com quem mulher nenhuma gostaria de se relacionar, não é bem verdade. Eu tive uma esposa. Tenho. Tive. Bom, não sei. Se existe vida após a morte, tenho. Se não existe, tive. Digo isso por que ainda tenho amor por ela. Guardo nossas lembranças em uma caixinha, algumas roupas. A mamãe disse que tenho que jogar fora, que ficar apegado nessas coisas faz mal, é preciso seguir em frente. Besteira. Que mal pode fazer uma caixa de lembranças guardada debaixo da cama. Estão lá por que estão lá, se estivessem no lixo ainda assim seriam lembranças. Enfim, Lídia era a minha esposa. Nos conhecemos por que eu vendi uma apólice de seguros para uma tia rica dela, que na época empregava Lídia como lavadeira e passadeira.

Sempre que fazia visitas à casa da senhora, Lídia estava lá, com seus cabelos despenteados e as mãos todas carcomidas e ressecadas de lavar e torcer a roupa. Mas mesmo assim eu não conseguia desviar minha atenção de Lídia. E ela não desviava atenção de mim, sempre dando uma espiada pela janela da cozinha. Eu tinha uma boa aparência. Usava mocassins e gravatas de linho, naquela época o mercado de seguros estava fervendo, era um negócio mais ou menos novo por aqui, não tinha tanta concorrência. Quando a velha saía para ligar para o filho mais velho, querendo saber se ele achava que era um bom negócio, eu escapava lá para a lavanderia e ficava trocando um papo com a Lídia. Ela era jovem e falava bem. Não combinava com a profissão de passadeira, estudava geografia e queria ser professora.

Nos casamos em 86 e com a grana que eu estava juntando para comprar uma caranga dei entrada em uma casinha para nós em interlagos. Nos mudamos para lá, estava tudo em ordem. A Lídia era professora de geografia em uma escola pública do bairro. Dizia que eu era mais desorganizado que os alunos dela e que se eu fosse aluno dela, teria de sentar na primeira fileira e ter uma atenção especial. É mesmo, professora, e como seria essa atenção especial? Aí trocávamos beijos calorosos, transávamos que nem loucos por toda a casa. Ela era insaciável.

Para a maioria das pessoas a Lídia não era a mulher mais linda do mundo. Na verdade muitas vezes ela voltava para casa chorando por que os alunos escreviam nas paredes que ela era feia. “LÍDIA HORROROSA”. “LÍDIA MAIS FEIA QUE PLANÍCIE ACIDENTADA”. Uma vez desenharam o boneco da Michelin e colocaram o nome dela embaixo. Como esses jovens são maldosos, não? Pequenos grandes filhos da puta. Não sei por que o governo perde tempo e dinheiro tentando educar certos tipos. Mas para mim não. Porra, como eu achava aquela mulher linda. Não sei como não engravidamos, porque a gente trepava toda hora.

Minha mãe dizia que minha porra é velha, que não presta, que era melhor eu largar dela, ou então deixar alguém tê-la só por um dia para fazer um bacurizinho, depois nunca mais falar no assunto e criar a criança como se fosse minha. Vê se pode? Eu lá sou homem de deixar outro vagabundo fornicar na minha esposa? Fato é que filho não veio. Depois veio a doença. De repente fortes dores de cabeça. Ela conversava e do nada começava a se enrolar para falar. Levei no hospital. Não teve uma porra de um doutor que soube dizer o que ela tinha. Já reparou como é fácil ser médico aqui nesse país? Parece que tem uma cartilha de seis ou sete doenças que todo mundo tem normalmente, cada qual com seu respectivo remédio. Osso quebrado, dor de ouvido. Mas se a coisa for meio complicada, foge do roteiro, aí não tem Doutor que dê jeito. Em uns dois meses ela perdeu a visão. No terceiro mês morreu.

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Aí voltei a morar com a minha mãe. O mercado estava uma porcaria, e sem a Lídia para me ajudar a pagar as contas, não tive como manter a casa. Já se passaram 7 anos. Não tive nenhuma companheira desde então. Quer dizer, já estou com quarenta e sete. Depois dos quarenta, que foi a idade que tinha quando ela morreu, fica difícil a gente se relacionar. Não dava para ela morrer mais cedo? Ou mais tarde? Ou então não morrer? Não tenho boa aparência, não tenho mocassim nem gravata de linho.

Já me interessei por outras mulheres, mas só de pensar em tentar uma aproximação eu já fico estressado. Aquele blá-blá-blá todo, elogios vazios, cinema, jantar, boate… A única mulher por quem eu teria esse trabalho é a Gisele, lá da Eloy. A Gisele é uma gata. Mas é muito mais nova que eu. Deve ter quantos, trinta e cinco? Trinta e seis? Trinta e sete no máximo. Não sei, nunca perguntei. Para falar a verdade nunca tive coragem de falar com ela. A máquina de xerox fica bem do lado da minha mesa. Hoje ela foi lá fazer umas cópias. Como a máquina fica virada para a janela, ela fica de costas para mim, o que me permite ficar observando ela sem que ela perceba. Às vezes ela fica impaciente com a demora para saírem as cópias, fica dando uns pulinhos, a bunda dela fica balançando.

A bunda da Gisele é um capítulo à parte, se eu começar a escrever aqui, acabo com as páginas do diário. Aliás, quem sabe eu não compro um novo diário e escrevo só sobre a bunda da Gisele? Porra. O que uma mulher dessas iria querer comigo? Nunca aceitaria um convite para um cinema, jantar, boate… Mas hoje tive uma esperança. Oi Zé, como vai, tudo bem? Trouxe um café para nós, vai demorar essa impressão aqui. Batemos um papo. Falamos sobre o clima, sobre a questão trabalhista. Tive que fingir que me interessava no assunto. Depois a impressão acabou e ela voltou para a mesa dela. Gisele. Eu já pensava em como seria a mudança da casa da mamãe para a nossa nova casa, será que ela queria ter filhos? Talvez não, por que eu já estou muito velho, a criança nem ia aproveitar muito o pai. Eu fumo demais, não passo dos sessenta, pode apostar. Bom, para mim, com filho ou sem filho, eu seria feliz com Gisele.

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Voltei feliz da vida hoje. Relatórios em dia e papo com a Gisele. Parei para tomar uma com a turma do bar da rua debaixo. Tava lá o Paulinho, o Branca, Beto Gordo, Betinho, Waguininho, quase todos os cachaceiros que sempre marcam presença. Hoje teve dominó. VAI TOMAR NO CU BETINHO, PARA DE ESPIAR MINHAS PEÇAS! Ô Branca, eu sou estrábico porra, não tô olhando não, esse olho tá virado praí, mas o que manda mesmo é esse aqui. Pô cara, vai por mim, tantos anos de bar e você acha que eu vou dar uma dessas? Me divirto com aqueles caras, tudo com família em casa, esperando, mas preferem ficar lá na jogatina e cachaça.

Entramos no maior debate sobre o lance de o Paulinho estar desconfiando que a mulher está traindo. Mas é claro, ô Paulinhô, você tá aqui nessa porra todo dia tomando cerveja, disse o Beto Gordo. Queria o quê? Quem não dá assistência abre concorrência meu irmão, vê direito isso aí. Todo mundo riu. Mais uma rodada. Mais uma garrafa. Mais uma piada. Garrafa atrás de garrafa. Mas aí aconteceu o que sempre acontece. De repente me vem aquela agonia. Um nó no estômago. Lembro da Lídia. Penso em como seria se ela ainda estivesse aqui. Penso na mamãe. Quanto tempo mais ela aguentaria viver com aquela diabetes? O pior ainda nem chegou, quando vier a catarata é que a situação vai ficar feia. Eu vivo convencendo pessoas como ela a investir seu dinheiro na Eloy. Nunca tive dó de nenhuma senhora, nenhum velho moribundo. Sempre vi nessas pessoas com doenças crônicas uma forma de ganhar dinheiro.

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Penso naquele viado do Márcio. Deve estar com a esposa e o filho burro em algum shopping por aí. Esse povo só pensa em shopping. E eu sou subordinado de um imbecil desses. Penso em como fui parar sendo subordinado de um cara que podia ser meu filho? Meu filho não, por que eu não faria um filho tão idiota, mas tem idade para ser. Penso na Gisele. Será que amanhã ela iria lá tirar xerox?  Preciso fazer alguma coisa, preciso mudar de vida. Nó no estômago. Virei o último copo e levantei. Porra, vai embora Ricardinho? Pô, tamo ganhando cara. Fica aí porra. Não, não. Para mim já era. Comprei um maço, que o meu já tinha acabado, e voltei. Espero que a Gisele fale comigo amanhã. Mas por que ela que tem que falar comigo?  Se ela for lá eu mesmo vou puxar assunto, dane-se. Preciso fazer alguma coisa. Preciso mudar de vida. Boa noite.

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