Entre o trambique e o Romanée-Conti

O Bolsonaro é um cafona raiz, legítimo, já FHC é aquele que bota Sidra Cereser dentro da garrafa de Romanée-Conti para fingir que fala francês

por Vinícius Carvalho
O lado bom do Bolsonaro é que ele escancara o ridículo da sociedade e dos seus apoiadores. Ele faz toda a nossa democracia burguesa, nossas forças armadas, nossa imprensa marrom passarem 24 horas por dia de vergonha, 7 dias por semana. E isso é sim algo bom. Isso pode vir a ser o germe de uma virada cultural e estética para que as ideias de esquerda voltem a ser atraentes. Não por nossas condições de diálogo, mas pela capacidade de repulsa que o Bolsonaro produz.

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Diferentemente do Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, que era mais ladrão que o Bolsonaro, mais adúltero e imoral (dona Ruth Cardoso morreu numa terça-feira, no sábado da mesma semana FHC já foi visto de mãos dadas com uma amante, uma magistrada, no shopping Pátio Higienópolis); mais porco, mais fedorento, tão cafona, vira-latas e entreguista quanto; mais neoliberal e provavelmente mais canalha, justamente por ter completo domínio do que fazia.

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Porém, quem o defendia era taxado de “democrata”, inclusive por setores progressistas de classe-média, do alto de seus privilégios, apenas por defender liberdades individuais. Foda-se que ele tenha entregado um país com 100 milhões de pessoas vivendo com menos de 1 salário mínimo de 200 reais por mês, com 50 milhões de miseráveis e 1 criança morrendo de fome a cada 6 minutos…O importante é que ele era uma espécie de “liberal quebrando o tabu”. (Inclusive, quando o Bolsonaro falou na TV que mandaria o FHC para a vala é, também, a prova indubitável que até relógio parado acerta a hora duas vezes por dia)

Bolsonaro, assim como FHC, não demonstra as fraquezas das nossas instituições, não. Demonstra a força delas. Demonstra que o único “totalitarismo” que existe é o do liberalismo econômico. Não importa o que você faça, as instituições estarão ali para te proteger. E é por isso que o Bolsonaro não cai, mesmo fazendo o que faz, e o FHC não caiu ou foi preso (e merecia uma prisão perpétua) mesmo tendo feito o que fez. As instituições que seguraram FHC e seguram Bolsonaro de seus rastros de banditismo o fizeram e fazem por conta das escolhas econômicas destes dois. E essas são também as mesmas instituições que derrubaram a Dilma sem crime de responsabilidade e prenderam Lula sem provas.

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Portanto, pensando bem: fica, Bolsonaro! Fique até o final, aguente firme! Passe a piroca na cara dessa sociedade sujismunda mesmo. E antes que vocês me questionem, eu já adianto a resposta para poupar-lhes trabalho: sim, apesar e tudo, eu ainda detesto o FHC tanto quanto o Bolsonaro.

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Porque o Bolsonaro tem uma coisa, sua tosquice é sincera. O Bolsonaro é um cafona raiz, legítimo, é aquele trambiqueiro viciado em caça níquel que quando faz um churrasco ouvindo Xitãozinho e Xororó, manda um pratinho para os vizinhos e tira uma selfie escrevendo na legenda “TOMANDO UM GELOBOL”. O FHC não, é aquele que bota Sidra Cereser dentro da garrafa de Romanée-Conti para fingir que fala francês.

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(Não, eu não quero que o Bolsonaro fique, foi apenas figura de linguagem).

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