Pague! Trabalhadores lutam contra a Amazon em todo o mundo

Novas formas de organizar a exploração mundialmente estão criando também novas formas de luta organizada internacionalmente contra os capitalistas

Imagem: Alex Castro/The Verge
por Danilo Matoso

Isto matará aquilo. O livro matará o edifício. (…) o pensamento humano, mudando de forma, mudaria de modo de expressão; a ideia capital de cada geração não se escreveria mais no mesmo suporte nem da mesma maneira, e o livro de pedra, tão sólido e tão durável, cederia vez ao livro de papel, ainda mais sólido e mais durável. (…) Uma arte destronaria a outra. O que a frase queria dizer era: a imprensa matará a arquitetura.

Victor Hugo, O corcunda de Notre Dame, 1831.

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Uma livraria virtual transformou-se na segunda maior rede varejista do mundo, com centrais de processamento e distribuição espalhadas em diversos países. Fazendo uso de tecnologias de ponta de rastreamento e reconhecimento, a Amazon se notabilizou pela utilização de métodos flexíveis de contratação de seus empregados – os “colaboradores”. Sua tecnologia aperfeiçoou e intensificou a pulverização não apenas das vendas e transporte, mas também dos modos de produção vigentes. Nos últimos anos, porém, esses métodos se revelaram tão nocivos para os trabalhadores quanto aqueles usados pela indústria europeia há 200 anos. Para reivindicar seus direitos além das fronteiras de seus países, eles vêm organizando grandes mobilizações internacionais, capazes de fazer frente ao gigante digital.

Novas tecnologias, a velha exploração

A Amazon foi criada com o nome de Cadabra em 1994 nos Estados Unidos em Seatle, Washington, pelo investidor de Wall Street, Jeff Bezos. Natural de Albuquerque, Novo México, graduado em Engenharia Elétrica em Princeton, Bezos sonhava em ter uma livraria e em ter um negócio online na então incipiente internet. Ironicamente, foi com a venda de livros impressos enviados por correio que teve início a maior empresa varejista da internet – a mesma rede mundial que decretaria a “morte” do impresso como meio de comunicação. Quatro anos depois, a Amazon já vendia música, vídeos e diversos outros artigos. Após 26 anos, segundo a revista Forbes, a Amazon só fica atrás da rede Walmart em volume global de negócios, com rendimento de 280 bilhões de dólares em 2019. Jeff Bezos, essa espécie de Véio da Havan ianque, se tornou a pessoa mais rica da Terra, com uma fortuna de 200 bilhões de dólares – mais de um trilhão de reais.

Como todo monopólio global, tal crescimento se deu às custas da exploração de trabalhadores. Em todo o mundo, a empresa é pioneira na contratação de funcionários precarizados: autônomos, mal-remunerados, sem assistência médica ou condições de segurança. São mais de um milhão de pessoas espalhadas em depósitos e centrais de distribuição em todo o mundo, controladas por aplicativos instalados em aparelhos de GPS, com 15 minutos de intervalo por turno em galpões tão grandes que somente o percurso do posto de trabalho até o local de descanso consome todo o tempo de repouso. Diz-se que tal condição obriga os funcionários a urinar em garrafas, para não perderem valioso tempo necessário ao cumprimento de suas metas. A demanda mecânica por eficiência é associada à alta rotatividade dos empregos e ao alto número de acidentes de trabalho. Em matéria no jornal inglês The Guardian, a trabalhadora novaiorquina Rina Cummings relata que “as pessoas são sempre demitidas. Basta duas ou três advertências, dependendo da gravidade. Somos demitidos por qualquer motivo”.

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Faça a Amazon pagar

Há alguns anos, os trabalhadores da Amazon vêm tentando se organizar para lutar por melhores salários e condições de trabalho. Em julho do ano passado, realizaram protestos coordenados na Europa e Estados Unidos nos dias de superpromoção da empresa chamados Amazon Prime Day. Em 27 de novembro, em torno das promoções da Black Friday, realizaram protestos em todo o mundo em torno da palavra de ordem Make Amazon Pay Faça a Amazon Pagar. Organizados em países como Bangladesh, Índia, Austrália, Alemanha, Polônia, Espanha, França, Reino Unido e Estados Unidos, os trabalhadores querem que a Amazon compartilhe seus lucros não apenas com seus funcionários – na forma de benefícios e melhores condições de trabalho – como também com os seus países. Devido a seus métodos “flexíveis” de contratação, a empresa é pródiga em isenção de impostos. Nos Estados Unidos, por exemplo, os tributos federais corresponderam a apenas 1,2% de seu lucro em 2019 – e 0% nos anos anteriores.

Make Amazon Pay demanda melhorias nos locais de trabalho, garantias trabalhistas para todos, fim da perseguição aos sindicatos e associações de seus funcionários e negociação coletiva, sustentabilidade ambiental no funcionamento (suas entregas são feitas em veículos automotores), retribuição à sociedade. Este último aspecto, da retribuição social, traz também uma denúncia política. Os trabalhadores, que conhecem bem a empresa, lutam não apenas pelo fim das práticas tipicamente monopolistas, como o dumping – preço muito baixo para quebrar a concorrência local, e o pagamento de impostos ao Estado em seus países. Eles reivindicam que a Amazon “acabe com as parcerias com forças policiais e autoridades de imigração que são institucionalmente racistas”; que garantam “privacidade e confidencialidade de todos os aplicativos e softwares da Internet das Coisas produzidos ou vendidos pela Amazon, incluindo dispositivos Alexa / Echo, streaming e serviços em nuvem; a interrupção do “desenvolvimento, implantação e venda de dispositivos e softwares que expandem as práticas de vigilância em massa, como o Amazon Ring e o software de reconhecimento facial / biometria, como o Rekognition”.

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Por ser uma das maiores corporações digitais do mundo, a Amazon – juntamente ao Google e ao Facebook – parece assumir o papel de grande leviatã do século 21: está na ponta de lança do chamado “Capitalismo de Vigilância”, sem dúvida manipula as leis e o judiciário onde quer que se instale, para livrar-se da cobrança de impostos e das leis trabalhistas; extrai, processa e comercializa a informação sobre seus clientes. Os meios de exploração tornam-se cada vez mais sutis nessa era de refluxo. Passam pela demonização dos sindicatos, por inculcar nos trabalhadores a falsa ideia de liberdade individual em ser “empreendedor”, “parceiro” ou “colaborador” e não empregado assalariado. Os métodos são virtuais, mas pessoas e territórios que exploram são bastante reais. O proletariado mudou de forma, mudou de endereço no mundo, mas continua existindo.

Como se sabe, a Índia é um celeiro de empresas subsidiárias dos gigantes globais da indústria digital. Com grande parte da população educada em inglês, os indianos fornecem serviços de baixo custo que vão do atendimento em telemarketing ao desenvolvimento de sistemas. Somente a Amazon India tinha mais de 65 mil empregos direitos e indiretos no país. Naquele país, o protesto contra a Amazon somou-se a uma greve geral em 26 e 27 de novembro que parou nada menos que 250 milhões de trabalhadores na maior paralisação da história no país.

Com apoio de amplos campos políticos, a mobilização é sobretudo contra as medidas neoliberais do governo do primeiro-ministro Narendra Modi, de extrema-direita. No último ano, Modi derrubou a proibição de especulação com estoques de cereais, óleos vegetais, sementes, batata e cebola, o que vem representando a falência da agricultura familiar. Além disso, o governo retirou os investimentos em empresas estatais e vem promovendo sucessivas reformas trabalhistas e planos de aposentadoria prematura no serviço público. Algumas das federações e centrais que organizaram a greve geral filiam-se à central sindical global Industriall que também apoiou o movimento Make Amazon Pay.

Novas formas de produção, novas formas de organização

A conexão entre esses fatos políticos é um sinal da capacidade de reorganização do proletariado a partir da reorganização das formas de produção e do trabalho que vêm sendo operadas no mundo desde a crise da década de 1970. Desde então, a indústria iniciou a concentração do proletariado fabril na Ásia. A indústria de transformação brasileira, por exemplo, passou de 27,3% do PIB em 1986 para 11,3% no último ano. A produção global também passou a ser pulverizada em plantas de pequeno e médio porte capazes de fornecer os insumos necessários para a montagem – também pulverizada – de bens como automóveis, computadores ou celulares. A indústria têxtil em muitos países retornou às condições do século 19, quando pequenos proprietários rurais se incorporavam ao processo fabril com pequenas manufaturas precarizadas em suas propriedades – situação de Toritama, Pernambuco, brilhantemente retratada no documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar (Marcelo Gomes, 2019).

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A indústria digital intensificou este processo de pulverização da produção e de flexibilização das relações de trabalho, sobretudo por meio da automatização dos instrumentos de supervisão do trabalhador, contratado como autônomo. Individualmente, ele trava com o algoritmo uma luta que imagina ser consigo mesmo e com suas limitações. A máquina cobra cada vez mais performance, e o trabalhador, sozinho num carro, numa moto ou num galpão gigantesco, só tem a si mesmo a quem recorrer para ajuda ou orientação. A indústria digital cada vez mais colabora para tornar os demais ramos da indústria em redes difusas de pequenas e médias unidades – e o investimento amplo em sistemas de vigilância é parte disso. Victor Hugo testemunhou a destruição da arquitetura pelo livro. A Amazon, por sua vez, começou vendendo livros impressos e acabou por destruí-los – em grande medida substituídos por e-books vendidos pela própria empresa. Mais que livros, a empresa e seus sistemas alterou brutalmente o sistema de distribuição das mercadorias. Uma tecnologia cada vez mais usada também na produção, acelerando a destruição das grandes plantas fabris. Se o livro de Victor Hugo parecia mais sólido e durável, no capitalismo tudo o que é sólido cada vez mais se desmancha no ar.

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Desnecessário dizer que tal processo anda de mãos dadas com o enfraquecimento dos sindicatos e dos instrumentos tradicionais de luta popular. No caso da greve geral da Índia e dos funcionários da Amazon em todo o mundo, a articulação em diversos países e a presença de entidades capazes de conectá-los representam um alento. São uma esperança da volta à cena política de organizações internacionais capazes de fazer um real e efetivo contraponto dos trabalhadores ao grande capital, que nunca deixou de ser global.

Imagem: reprodução

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