Esquerda testa a volta às ruas semana que vem

Dia 29, partidos de esquerda e movimentos sociais iniciam uma tentativa de colocar massas nas ruas contra o governo Bolsonaro

Arquivo CUT
por William Dunne

Dia 29 a esquerda testará a volta às ruas para tentar derrubar o governo Bolsonaro. Partidos de esquerda e movimentos sociais, articulados em torno da palavra de ordem “Fora Bolsonaro”, estão convocando os brasileiros a saírem às ruas. Em São Paulo, a concentração será no MASP às 16h. Movimentos como o MTST, de Guilherme Boulos, nunca saíram das ruas durante a pandemia. Manifestações locais também tomaram as ruas pelo país durante o último ano, destaque-se, por exemplo, o protesto dos moradores da comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que recentemente se manifestaram contra a operação da polícia civil que deixou 28 mortos entre seus moradores. No entanto, a esquerda testará sua capacidade de romper o caráter episódico e local desses protestos buscando mobilizar massas contra o governo.

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Outra iniciativa que acontece, paralelamente a essa, é o ato das centrais sindicais, dia 26, em Brasília, às 10h da manhã. A pauta é a exigência de um auxílio emergencial de R$600, e o ato visa pressionar o Congresso a votar um novo auxílio. De acordo com Sérgio Nobre, presidente nacional da CUT, os dirigentes das centrais pretendem ser recebidos pelos parlamentares para discutir a proposta. Também participam movimentos sociais, como o MST e a Contag. Para essa manifestação, porém, a convocação se restringe aos dirigentes dos sindicatos e entidades, a preocupação é não incentivar aglomerações.

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Terceira onda

O pano de fundo desses protestos, que adotaram um escopo diferente em seus chamados, é, evidentemente, a epidemia de Covid-19 no Brasil, que no dia 26 já terá matado mais de 450 mil pessoas. A proporção de mortes no país é amplamente atribuída à omissão do governo e à sua sabotagem de medidas preventivas como o uso de máscara e o distanciamento social. A situação pode se agravar de novo nas próximas semanas, com a vinda de uma terceira onda de transmissão do vírus, cenário que se torna ainda mais preocupante com a chegada da variante indiana ao Maranhão durante essa semana.

Isso coloca a esquerda diante de um paradoxo. Chamar o povo às ruas pelo direito de poder ficar em casa, em um momento em que ficar em casa é necessário para proteger a própria vida e a vida de familiares próximos. Embora tenha lógica, simbolicamente é difícil de equacionar as duas coisas e ter isso como um eixo de mobilização de massas. O fato de que a população usa transporte coletivo para ir trabalhar (argumento frequentemente evocado pela extrema direita) muda muito pouco essa constatação, pois o que se vê no transporte público é justamente apreensão e muito cuidado no dia a dia. CUT e demais centrais, com MST e Contag, escolheram fazer um chamado restrito a seus dirigentes por enquanto. Partidos políticos de esquerda (PT, PSOL, PCdoB e UP), além do MTST e outros movimentos, escolheram tentar iniciar uma mobilização de massas contra o governo a partir do dia 29.

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Prova dos nove

Um risco para o segundo tipo de protesto, e sua tese subjacente de que a disposição para sair às ruas é latente (oposta à tese implícita na política das centrais, de que não haveria clima para um chamado às ruas), é que o ato dos partidos não seja essencialmente muito diferente do ato das centrais, e só compareçam dirigentes e militantes organizados, evidenciando-se mais uma vez a dificuldade de levar massas às ruas no meio de uma pandemia no Brasil. Cantar vitória depois disso, como costuma acontecer, não tapará o sol, nem derrubará Bolsonaro.

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Em qualquer caso, ir às ruas é uma necessidade, e Guilherme Boulos, em seu chamado, procurou lidar com eventuais apreensões da população diante do avanço da doença, incentivando cuidados entre os que atenderem ao chamado para sair às ruas, como o uso de máscaras PFF2 e a manutenção de uma certa distância entre as pessoas. Se o recado chegar, pode ser que as ruas se encham e a política dos sindicatos se demonstre falsa na prática. Ou o contrário, e a desmoralização cairá na conta das tentativas de mobilizar, sob pena de possivelmente dificultar-se mobilizações futuras, em condições mais favoráveis.

 

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