Bolívia vota hoje sitiada pelo Exército

Com perseguição a observadores internacionais e militarização do país inteiro, eleições bolivianas acontecem marcadas pelo exílio de seu último presidente eleito

Imagem: Lo Cole

por William Dunne

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Um ano depois da eleição de Evo Morales para mais um mandato presidencial, a Bolívia volta hoje (18) às urnas para escolher novamente seu presidente. Eleito em primeiro turno em 20 de outubro de 2019, Evo Morales sofreu um golpe sob o argumento de fraude eleitoral, sem nenhuma evidência que corroborasse essa acusação. Hoje, Evo Morales encontra-se asilado na Argentina. Luis Arce, do partido de Evo Morales, o Movimiento Al Socialismo (MAS), lidera as pesquisas e seria o favorito das eleições, caso o processo eleitoral transcorresse naturalmente.

Golpe de Estado

Um problema dessas eleições de hoje é justamente o contexto de ditadura de uma direita golpista que a cerca. Evo Morales teve que fugir para o México com medo de perder a vida, e dezenas de pessoas foram assassinadas pelo Exército e pela polícia quando foram protestar contra o golpe. Desde ontem o governador do departamento de Tarija, Adrián Oliva, fechou a fronteira da região com a Argentina, em meio a boatos de que o ex-presidente Evo Morales estaria na região para voltar ao país.

As eleições controladas pela direita, sob o governo ilegítimo “de transição” de Jeanine Añez, estão se dando sob diversas circunstâncias dignas de nota. As ruas da Bolívia foram tomadas pelo Exército e pela polícia desde ontem. Um toque de recolher foi imposto a partir das 21h na capital La Paz, e das 0h no resto do país. Foi justamente o Exército que precipitou o fim prematuro do último governo Morales, na pessoa do comandante-em-chefe das Forças Armadas William Kaliman, que fez um pronunciamento à nação pedindo para que Evo Morales renunciasse, levando-o a fugir do país.

Observadores internacionais perseguidos

Além do toque de recolher e da militarização do país para a realização das eleições, houve também ameaça a observadores internacionais que foram à Bolívia acompanhar o processo eleitoral. Sábado, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, denunciou que uma delegação de legisladores argentinos foi maltratada ao chegar à Bolívia. Ele compartilhou um tweet do deputado Leonardo Grosso, que afirmou que a delegação foi detida quando chegou a La Paz. No tweet, Grosso apresentou uma carta da presidente do Senado, Eva Copa, solicitando a participação da delegação argentina como observadora das eleições.

Além da delegação argentina, jornalistas de diversos veículos foram ameaçados e intimidados por organizações de extrema-direita e perseguidos por funcionários do governo interino. O site estadunidense The Grayzone denunciou a perseguição a seus jornalistas, que são também observadores internacionais das eleições bolivianas:

“Diversos colaboradores do Grayzone, incluindo Max Blumenthal, Anya Parampil e Ben Norton são observadores eleitorais na Bolívia da delegação organizada pela organização de direitos humanos estadunidense CODEPINK. Mesmo antes de entrarmos no país, fomos perseguidos e ameaçados por funcionários golpistas, e recemos desde então uma torrente de ameaças violentas.”

Governo golpista, ameaçador e truculento

Para não deixar dúvidas, o próprio ministro de Governo da direita não eleita foi ao Twitter reiterar essas ameaças quase sem disfarce. Estimulando a extrema-direita de sua forma já tradicionalmente truculenta à frente de seu cargo.

“Nossas eleições serão uma festa democrática, quanto mais observadores houver, melhor para todos. Advertimos aos agitadores e gente que busca gerar violência, não são bem-vindos. Os colocaremos em um avião ou atrás das grades. Comportem-se, sabemos quem são e onde estão.”

Sem contagem rápida

Outra circunstância incomum das eleições de hoje foi o anúncio feito de última hora pela Tribunal Superior Eleitoral de que não haverá a contagem rápida e o resultado não será conhecido esta noite. O anúncio da decisão no último momento provoca desconfiança e pode servir tanto para fraudar as eleições quanto para não reconhecer seu resultado caso o MAs vença mais uma vez, apesar do cerco promovido pela direita.

Evo Morales manifestou-se a respeito por sua conta no Twitter, expressando desconfiança e assinalando uma possível má intenção do órgão eleitoral hoje controlado pela direita:

“É muito preocupante que TSE da Bolívia devida suspender o sistema Difusão de Resultados Preliminares (Direpre) horas antes das eleições. Fizemos observações públicas que não foram atendidas. Essa decisão de última hora desperta dúvidas sobre suas intenções.”

O exemplo da Bolívia

O golpe na Bolívia levou muito menos tempo do que no Brasil. De uma hora para a outra a direita colocou o resultado eleitoral em questão, fez campanha nas ruas e organizou institucionalmente o golpe. Menos de um mês depois das eleições do ano passado Evo Morales já estava fora do país. Agora, depois do golpe, as eleições de hoje também podem ser comparadas com as eleições do Brasil. Em 2018 Lula estava preso sendo favorito. Hoje Evo Morales está na Argentina porque seria preso pelos golpistas se voltasse à Bolívia.

A comparação mais interessante, porém, pode ser com 2022. O golpe na Bolívia andou mais rápido e pode estar em uma etapa mais adiantada. A liderança de Arce seria de 44 por cento, segundo as pesquisas, contra 34% do ex-presidente Mesa (de Cochabamba) e 15% do fascista Camacho (de Santa Cruz). A divisão regional da direita poderia dar a vitória ao MAS ainda no primeiro turno, já que pela regra das eleições bolivianas basta ter mais de 40% dos votos e uma diferença de mais de 10% em relação ao segundo colocado para vencer no primeiro turno.

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Esses números despertam esperanças de derrotar o golpe nas urnas, por meio do voto. No entanto, todas as circunstâncias antidemocráticas que caracterizam a realização do pleito apontam que a direita pode fraudar as eleições ou não aceitar seu resultado, entre outras alternativas golpistas. Os acontecimentos da Bolívia jogarão luz sobre o que esperar das eleições no Brasil. É possível reverter um golpe de Estado por meio das eleições? Como a direita reagirá se sua derrota nas urnas vier à tona? Como a esquerda e o povo nas ruas reagirá ao que vier da parte da direita?

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