Assembleia de Deus tenta levantar igreja em terras indígenas

Segundo o cacique, não houve permissão para a construção da igreja, pelo contrário, os pentecostais foram avisados para não construírem na região

Religiosidade Truká. Imagem: reprodução
por Alexandre Lessa da Silva

Esta semana, uma notícia começou a circular fora da grande mídia, dando conta de um entrevero entre membros do povo indígena Truká e um pastor da Assembleia de Deus, conhecido apenas como Jabson. Este último havia insultado a crença desse povo através do vídeo de um culto em que o referido pastor afirma que “o espírito de luz não está descendo, não, acho que cortaram a energia dele, lá”. Essa ofensa, entretanto, não ficou barata. O Povo Truká respondeu reunindo um grupo de pessoas que acabaram por derrubar as partes construídas de uma futura igreja da denominação em questão.

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O mesmo texto, publicado em dois sites, aponta para uma questão de intolerância religiosa, tentando ser isento e defender o diálogo. Entretanto, qualquer pessoa de bom senso percebe, diante de um texto ruim, formal e materialmente, que o fato foi noticiado de um modo que prejudica mais o lado indígena. Em compensação, ambos os sites publicaram uma nota de esclarecimento do Povo Truká, em que o cacique Betinho faz uma defesa da posição de seu povo diante do acontecido.

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A nota do cacique cita os artigos 231 e 232 da Constituição, que reconhecem, entre outras coisas, o direito que os indígenas têm sobre a organização social, crenças e tradições, além dos direitos originários sobre a terra que ocupam, reconhecendo o povo originário como parte legítima para ingressar em juízo. Não há dúvidas que a terra da Ilha da Assunção pertence historicamente ao Povo Truká, apesar de ainda existir alguma demanda legal sobre o assunto. Entretanto, o direito favorece esse povo, uma vez que a FUNAI interditou formalmente a área para os indígenas.

A terra da Ilha da Assunção não representa apenas o direito à propriedade para o Povo Truká, mas tem um forte valor simbólico, cultural e religioso. A ilha é o centro de seu território tradicional, considerada um reino, sem soberanos ou súditos e dominada pelos “encantados”, dentro de uma visão escatológica. Portanto, tentar impor uma igreja a esse povo não é só um ataque ao direito à propriedade, mas, também, um ataque a todo um imaginário Truká.

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Segundo o cacique Betinho, não houve permissão para a construção de uma igreja, pelo contrário, os pentecostais foram avisados pelos indígenas para não construírem na região. Mesmo assim, os membros da Assembleia de Deus não respeitaram a vontade de um povo, segundo o cacique, e começaram a erguer seu templo, passando por cima da decisão de toda uma comunidade e, assim, desrespeitando a propriedade indígena e também seu sagrado. O deboche do pastor Jabson, então, foi apenas a última gota que transbordou o copo.

O desrespeito à liberdade religiosa, a intolerância e desrespeito ao direito à terra aconteceu, mas da parte dos evangélicos. Afinal, se alguém pensar o contrário, dará o direito a qualquer um de entrar em seu quintal, abrir um templo religioso, em especial um do qual você não é adepto, e começar a receber fiéis, pois, afinal, você estaria sendo intolerante e atacando a liberdade religiosa se fizesse qualquer ação contrária a isso.

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A Assembleia de Deus, assim como outras denominações, tem um histórico negativo, segundo a imprensa, em relação aos indígenas. Há denúncias de missões em aldeias indígenas sem autorização da FUNAI, desrespeito à religiosidade indígena, condenações de práticas culturais e, até mesmo, de afastamento de indígenas, por pastores, da vacinação contra a Covid-19. No que diz respeito à vacina contra o coronavírus, há relatos de pastores dizendo para os indígenas que a vacina “vem junto com um chip, que tem o número da besta, que vira jacaré…”. Acrescente-se a tudo isso, agora, o caso dos Truká. Como foi demonstrado, faltou respeito por parte do pastor: respeito a um povo originário e seu sagrado; respeito à lei.

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