As Américas sem cúpula

A Cúpula das Américas nos EUA teve seu fracasso anunciado quando da exclusão, pelos anfitriões, de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Pegou mal: Guatemala, Bolívia e México não compareceram

por William Dunne

Entre os dias 6 e 10 de junho ocorreu a Nona Cúpula das Américas, em Los Angeles. Oficialmente, de acordo com o Departamento de Estado dos EUA, a Cúpula das Américas seria promover “a cooperação visando o crescimento econômico inclusivo e a prosperidade em toda a região”. No entanto, nada poderia estar mais longe da realidade do que essa definição. O evento tradicionalmente é promovido e utilizado pelos EUA para a defesa de seus interesses em detrimento da América Latina, com objetivo de controlar os países ao sul do Rio Grande (ou Rio Bravo del Norte).

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Uma coleção de fiascos

Felizmente para os latino-americanos, a história da Cúpula é uma coleção de fiascos. Criada em 1994 durante o governo de Bill Clinton, a Cúpula das Américas surgiu promovendo a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). A ALCA acabou sendo enterrada em 2005, justamente durante a realização de uma Cúpula das Américas em Mar del Plata, na Argentina. Sob a liderança de Lula, Hugo Chávez, Néstor Kirchner e outros, a América Latina rejeitou o bloco econômico. Foi nessa ocasião que Hugo Chávez agitou a multidão com a célebre palavra de ordem: “ALCA, ALCA al carajo!”

Na edição de 2022, o encontro foi particularmente fracassado. Nicarágua, Cuba e Venezuela foram boicotados, por iniciativa dos próprios EUA. Por conta disso, Guatemala, Bolívia e México não compareceram. Ficou de fora a segunda maior economia da América Latina, o México. Seu presidente, López Obrador, afirmou que não iria “porque nem todos os países da América foram convidados”. O que houve foi uma reunião esvaziada, e seu vazio refletiu a impotência dos EUA frente à sua gradual perda de controle em seu tradiconal “quintal”.

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O vazio

A crise do domínio dos EUA na América Latina é uma expressão eloquente da decadência do império. Os governos que enterraram a ALCA em 2005 foram, quase todos, derrubados de uma forma ou de outra, com participação dos EUA. Honduras, Paraguai, Brasil, Argentina, um a um passou para as mãos da direita e dos capachos dos norte-americanos na região. Esse processo culminou no golpe da Bolívia, que derrubou Evo Morales de forma violenta em 2019.

No entanto, houve reação. Na Bolívia, o povo resistiu ao golpe protestando dia e noite por meses. A crise econômica, a pandemia e os desentendimentos dentro da própria oposição deram um empurrão, e a resistência popular foi capaz de derrubar os golpistas. O governo usurpador de Jeanine Áñez foi obrigado a convocar eleições, ainda em 2020, que foram vencidas pelo Movimineto Al Socialismo (MAS) de Evo Morales — de novo. Luis Arce, presidente eleito na ocasião, foi uma das ausências na Cúpula das Américas em Los Angeles.

O levante andino

A vitória contra o golpe na Bolívia foi tão completa que a justiça teve respaldo popular para julgar os responsáveis pelo golpe. Jeanine Áñez, a presidente interina que usurpou o cargo após a derrubada de Evo, foi condenada a 10 anos de cadeia.

A data da sentença proferida pelo Tribunal de Primeira Instância de La Paz coincidiu com o último dia da Cúpula das Américas: 10 de junho.

O comandante do Exército na época do golpe, Williams Kaliman, também foi condenado a 10 anos, mas está foragido, acredita-se que esteja nos EUA. De qualquer modo, a condenação da cúpula militar mostra a força do movimento que resgatou a democracia boliviana, enfrentando os interesses dos EUA no país. O chefe da polícia na época do golpe, Yuri Calderón, também foi condenado, seu paradeiro é desconhecido.

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A pedra no sapato

Se na Bolívia houve uma contundente virada de jogo contra o golpe e os gringos, no caso da Venezuela os EUA sequer chegaram a conseguir derrubar o governo. Mesmo com uma política criminosa de embrago que penaliza toda a população e com o roubo de reservas internacionais do país, a administração chavista de Nicolás Maduro conseguiu manter apoio suficiente para continuar no poder e defender a soberania venezuelana.

O fantoche ridiculamente reconhecido como presidente da Venezuela pelos EUA, Juan Guaidó, andava sumido do noticiário internacional. Mas no último dia 11 foi filmado recebendo o carinho da população da Venezuela em um restaurante. Empurrado e agredido, o “líder opositor” patrocinado pelo imperialismo foi expulso do local. A fúria popular contra os “vendepatrias” dificulta as pretensões estadunidenses no país.

Episódios assim ilustram a gradual perda de controle dos EUA sobre a América Latina, que luta por sua independência. Os governos golpeados que enterraram a ALCA continuam, em parte, de pé. Onde foram substituídos por golpistas, os governos atravessam crises desastrosas, como no Brasil.

E o Brasil?

O Brasil, aviltado por seu atual governo, foi uma nota melancólica na Cúpula. Bolsonaro, entre mentiras sobre o meio ambiente e palavras desconexas sobre “liberdade” dirigidas ao seu gado (os chamados “apoiadores”), teria pedido ao presidente dos EUA, Joe Biden, uma forcinha para dar um golpe nas eleições do Brasil, segundo informações da Bloomberg News. É mais uma demonstração vergonhosa de capachismo e falta de patriotismo do “mito”.

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Vale ressaltar aqui o contraste com os tempos de diplomacia ativa e altiva dos governos Lula e Dilma. Em 2005, durante a Cúpula das Américas que enterrou a ALCA, Lula discursou na presença de George W. Bush, então presidente dos EUA. Naquela oportunidade, Lula, sempre cauteloso, diplomático, conciliador, disse na cara do presidente dos EUA que a América Latina não poderia discutir a implementação de uma ALCA enquanto houvesse subsídios à agricultura nos EUA (pois isso seria obviamente concorrência desleal). A discussão, portanto, teria que ser na Organização Mundial do Comércio (OMC), ou seja, contra os subsídios (e a ALCA nem deveria entrar em pauta).

Tal é o contraste entre Lula e Bolsonaro: enquanto um enfrentava interesses dos EUA em busca de uma posição mais vantajosa para o Brasil, e para toda a região, o outro foi servilmente mendigar ajuda para dar um golpe porque sabe que vai perder as eleições. E perderá as eleições para o mesmo Lula, no que será mais um capítulo da crise do domínio do império do norte na América Latina.

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Histórico discurso de Lula na Cúpula das Américas em 2005 – YouTube

 

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