A ostensiva falta de charme da burguesia

As imagens de velhos numa mesa resolvendo a política do país não deveriam causar celeuma – isso acontece todo dia no mundo todo. Mas a alegria dessa turma não deixa de preocupar

Imagem: "Dois velhos comendo sopa", Francisco de Goya
por Danilo Matoso

Muitas teorias da conspiração partem do princípio de que os desígnios do mundo são resolvidos por um grupo de velhos reunidos à mesa numa sala de paredes e móveis de mogno. Pode ser que a tal sala não exista, ou pode ser que haja na verdade algumas centenas de salas de mogno espalhadas pelo mundo. Afinal, o capitalismo é um sistema desumano que aliena todas as partes envolvidas – inclusive a burguesia –, e como tal independe da vontade de indivíduos. Porém, na última segunda (13), vazou o vídeo de um jantar na casa do megainvestidor Naji Nahas no que parecia ser exatamente uma dessas reuniões onde a burguesia define os desígnios políticos do país – e em consequência do emprego e desemprego, alimentação e fome, vida e morte de milhões de brasileiros.

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A sala não era exatamente de mogno, mas era um cômodo amplo, forrado de papel de parede verde, com um friso toscano circundando seu perímetro e pilastras toscanas ladeando a porta de entrada – essa sim de mogno, em sua face externa. Ao fundo da cabeceira, um vaso de porcelana asiática. Sobre a mesa, um faqueiro de prata completo, disposto comme il faut em torno a pratos de porcelana com bordas douradas. Um grupo de senhores de cabeça branca ri animadamente da notável habilidade de um jovem cheio de meneios sentado à cabeceira. Às gargalhadas se vê Michel Temer (MDB-SP), o ex-presidente da República que usurpou o cargo de Dilma Rousseff. O jovem, André Marinho, faz uma imitação perfeita do tosco capitão Jair Bolsonaro, que ascendera à Presidência da República graças às manobras daquela mesma equipe. Mas não há qualquer militar ali sentado. Na verdade, não há qualquer trabalhador no grupo. É justamente uma fração da burguesia nacional que está ali congregada – todos sem máscara apesar da elevada média de idade e da iminência de um novo surto de infeção de Covid-19 –, servida por diligentes garçons – esses sim, de máscara, e sem rosto.

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O jantar é uma comemoração. No final da semana anterior, o descontrolado Jair Bolsonaro levara milhares de ativistas fascistas às ruas de Brasília e São Paulo com o objetivo anunciado de fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional, implementando no país uma ditadura militar. Aparentemente, sem apoio do imperialismo, da burguesia nacional e com menos de 20% da população a seu lado, o capitão não reunira forças suficientes para o intento. Há que se convir: a minoria de Bolsonaro está armada. Podem dar um golpe de força. Mas não haveria de prosperar sem apoio popular nem dos donos do mundo. Fracassada a tentativa, coube ao golpista Michel Temer (MDB-SP) ir a Brasília e orientar Bolsonaro sobre o que fazer para botar o rabo entre as pernas e se manter no poder: escrever uma cartinha de desculpas, desmobilizar a matilha fascista que botara nas ruas etc.

Temer sabe o que faz. Mesmo com o governo mais impopular da história do país, logrou fazer uma reforma administrativa pesada com apenas uma canetada em seu primeiro dia de mandato como interino, conseguiu emplacar um novo regime fiscal que congelou os gastos do governo por 20 anos, meteu uma reforma trabalhista que quebrou as pernas de todos os sindicatos e subtraiu os direitos dos trabalhadores – sem reduzir em absolutamente nada o desemprego e sem qualquer incremento nos investimentos do empresariado. Temer fez tudo isso com uma rejeição popular da ordem de 98% e não caiu. Teve áudio de mutreta clandestina vazado, segurou a onda de massivas manifestações populares em todo o país por quase dois anos, e se manteve na Presidência, ocupando o cargo que usurpara de Dilma Rousseff com o apoio de um Congresso dominado por fisiologismo e interesses paroquiais. Temer é um representante político da burguesia nacional, em parte ali reunida.

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Bolsonaro não sabe o que faz. A ideia da burguesia parecia ser manter os modos primitivos do presidente sob controle, e dar vazão àqueles instintos animalescos representados por sua opinião só quando é necessário tensionar a relação com a classe trabalhadora – notadamente quando é necessário passar alguma reforma contra o povo. Mas não havia como controlar o capitão. Apesar de gozar de certa popularidade, abriu guerra contra a população brasileira. Nem sequer fingiu que sabia o que estava fazendo quando estourou a pandemia de Covid-19. Fala uma barbaridade por dia, toda semana abre um escândalo diversionista, ameaça o país constantemente de golpe. O que deveria ser um instrumento diversionista – a loucura do mandatário – se tornou um problema, pois em nome de seus interesses pessoais ele parece estar disposto a ir às últimas consequências.

Por isso, parecia uma boa ideia enviar Temer a Brasília para colocar uma rédea no Cavalão – apelido íntimo do Presidente entre amigos – e meter-lhe a espora. Parece ter funcionado, por enquanto. Todos sabem, porém, que Bolsonaro não vai ficar quieto por muito tempo. Em alguns dias, a válvula da torrente fecal que sai de sua boca deve voltar a ser reaberta. Até lá, por que não comemorar entre amigos aquela vitória parcial, com a presença do próprio domador?

O que parece ter sido revelador foi justamente a composição do grupo de amigos de recorte nitidamente sírio-libanês. Sentados à mesa: Michel Temer, dublê de vampiro de filme de terror e usurpador da Presidência da República no golpe de 2016; Paulo Marinho, empresário e 1º suplente de senador de Flávio Bolsonaro, atual inimigo político da família do capitão e apoiador do governador João Dória (PSDB-SP); seu filho, André Marinho, humorista e colunista da rádio Jóvem Klan – a estrela das imitações; Gilberto Kassab, cacique do Centrão, presidente nacional do PSD; Antônio Carlos “Tonico” Pereira, um dos editores do Estadão por quase seis décadas; Roberto D’Ávila: jornalista, apresentador e diretor da GloboNews, foi deputado constituinte pelo PDT; João Carlos “Johnny” Saad, presidente da Rede Bandeirantes de comunicação; José Yunes (MDB), advogado, empresário, amigo e ex-assessor de Temer, preso em 2018 acusado de propinas a empresas do setor portuário; Raul Cutait, médico, cirurgião do Hospital Sírio-Libanês; Elsinho Mouco, marqueteiro político de Temer; e, claro, o anfitrião Naji Nahas, o megainvestidor que quebrou e derrubou permanentemente a bolsa de valores do Rio de Janeiro em 1989 e nunca cumpriu pena por isso.

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Não tem nada de mais, ver a burguesia reunida conspirando contra alguém, ou contra o povo. É o que eles fazem sempre. Normalmente, porém, são discretos e não gostam de mostrar suas faces. Afinal, o ódio de classe está aí, e não é só da parte deles. Então o que é sim estranho é que eles se mostrem comemorando, na verdade, a viabilização do governo Bolsonaro, com rédeas, até o fim do mandato. Um mandato que sempre apoiaram e agora fingem antagonizar. Na real, por melhores que sejam as imitações do tal André Marinho, elas não fazem rir como as de um Marcelo Adnet. Como disse o bolsonarista Abraham Weintraub num comentário capturado pelo perfil Direitistas sendo esquerdistas acidentalmente: “Sabe a razão de não acharmos graça ao assistirmos esse vídeo? Eles estão rindo de nós! Veja a cara dos donos do poder econômico e político no Brasil. Eles estão rindo pois têm certeza [de] que seus filhos e netos continuarão mandando no Brasil”.

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