Pílulas em quarentena

Textos sobre pensamentos aleatórios

3.06.2020

Resolveu ir às ruas. Estavam cheias. Aquele vaivém frenético típico das calçadas do centro. Interpelou um grupo. “Precisamos falar sobre política”. À medida em que movia os lábios, saltavam letras, sílabas, palavras, frases inteiras voando no ar, girando, orbitando. Elas compreendiam seu corpo como moscas, numa névoa transparentes que a mais ninguém compreendia e que o envolvia aos poucos, tornando-o cada vez mais transparente. Quando mais falava, mais se via através dele, até um ponto em que tanto havia dito o tornara completamente invisível. Mas ele continuava falando, falando, falando. E sua voz foi sumindo, sumindo, sumindo. E deixou de existir. O silêncio é pouco, a palavra era muito.

7.5.2020

No silêncio da manhã eu ouvia aquele ruído contínuo, aquele ir e vir em estalos rítmicos. Não me lembro quando aquele oceano de pedra começara a dar com suas ondas no costado de meu prédio. Com as juntas rangendo, as paredes de concreto do apartamento ainda resistiam ante aquela força mineral, inabalável, maior que tudo, maior que a vida, era a própria matéria do tempo, esteve sempre lá, macerando-nos as costelas. Eu não via. Agora só ouço. Ele corre lá fora, esmagando automóveis, derrubando aviões, afundando navios, destruindo cidades, arrasando países, cobrando vidas. O mundo parece que vai acabar, o mundo sempre esteve para acabar. Era questão de tempo. Agora estou isolado do tempo. Ele não me atinge, não me vê, e nem eu o alcanço. Sobrevivo no isolamento sem tempo para nada. Instado a cada instante a viver uma eternidade em cada segundo. Mais uma vaga de pedra atinge a fachada do meu prédio. Acho que ele não resiste mais.

4.4.2020

Todos os dias pareciam os mesmos. O mesmo despertar, a mesma solidão. A mesma luz branca no quarto, a mesma modorra, o mesmo banho, o mesmo café. O mesmo alfabeto, as mesmas notícias, o mesmo trabalho. A mesma comida descongelada, o mesmo cochilo, o mesmo trabalho, o mesmo anoitecer, a mesma aflição pela tarefa não terminada. A mesma comida em conserva, o mesmo filme, o mesmo programa na TV, o mesmo livro interminável. Os mesmos sonhos. Os mesmos sonhos que todos. Todos sozinhos juntos. Mas não existe “sonhar junto”. Sonhar é sozinho. O mesmo falso despertar. O mesmo despertar interminável, a mesma aflição pela tarefa não terminada, a mesma manhã, o mesmo trabalho, o mesmo cochilo, a mesma comida descongelada. O mesmo trabalho, as mesmas notícias, o mesmo alfabeto. O mesmo café, o mesmo banho, a mesma modorra. A mesma luz branca no quarto. A mesma solidão. O mesmo adormecer. Parecia o mesmo todos os dias. Há quanto tempo o tempo estava assim? Há anos. Muito antes dessa quarentena. Ela só o tornou mais banal.

30.3.2020

Cedo ou tarde tinha que não acontecer. O encontro que não houve. O olhar que não foi trocado. O abraço que não foi dado. A carícia que não existiu. O desencontro inevitável. Era questão de tempo. O tempo devorou o que devia ser e não foi. O tempo passou e não deixou lembrança. Não houve fato a ser lembrado. A ausência matou o fato e a lembrança morreu junto. A morte, a própria morte, encontrou seu fim. Mataram a morte. A morte virou a lembrança que não vai ser. Antes virava um número. Agora nem isso. A morte é apagada também, dígito a dígito. Morre a morte, morre a vida com ela. O que não tem fim não tem começo. O caráter se dilui a cada caractere que vai ao ar, que é tirado do ar, a cada falta de ar. A realidade perde seu caráter no isolamento do lar. Deixamos de morrer a cada segundo. Deixamos, por isso mesmo, de viver a cada segundo. A estatística, essa é para poucos.

28.3.2020

Pulei no esgoto. Não aconteceu nada. Entrei num torpor marrom e me vi na rua. Tudo funcionava normalmente. Passei no cartório, no banco, no supermercado, nas Casas da Banha. Comprei vaselina mentolada. Dizem que é bom para a gripe suína. Passei embaixo do braço para pegar mais um trem lotado. Cheguei em casa. Tudo funcionava normalmente. Minha mulher, meus filhos, a televisão. Malditos chineses comunistas. Preciso comprar mais vaselina mentolada. O tempo havia parado. Eu estava imerso em banha. Me senti um porco. Fiquei paralisado. Quanto tempo? Uma semana? Dois anos? Vinte? Lá fora o mundo fluía em movimentos peristálticos. O presidente falava. Todos digeriam. Tudo fluía normalmente. A bolsa quebrou. Era uma bolsa de colostomia enorme. Loiros de pele bronzeada de plástico e camisa havaiana me saudaram na porta do Alphaville.

19.3.2020

Acordei sobressaltado. Havia dormido até tarde. “Perdi a hora pro trabalho!” Lavei o rosto, fiz o café com um olho aberto. Me arrastei até o computador. Comecei a trabalhar. Pausa. Checar redes sociais. Nada. Estou sem internet. Mexo no modem. Nenhuma luz acesa. Ligo pra operadora. Sem sinal. Não tem jeito. Talvez tenha que ir lá. Mas que dia é hoje? Domingo? Pensando bem, que ano é? Há quanto tempo estou comendo macarrão com caldo Maggi? Acho que há duas semanas. Ou dois anos? Dez? Pelo menos comprei muito papel higiênico. Usei pra cozinhar por um tempo. Talvez seja hora de sair. Saí. Ninguém na portaria. Um silêncio estranho na rua. Um cheio estranho. Uma matilha de cães passa trotando. Parecem decididos. Não me dão bola. Há uma avenida enorme perto de minha casa. Paro no meio dela. Um burro vem correndo em minha direção. Ele monta em meu lombo e me leva para abastecer num posto de álcool gel. Terminamos do dia saltando de um viaduto cantando juntos “Rain drops keep falling on my head”.