Vá e veja, ou: o que fazemos com os liberais?

Que fique claro que liberal nenhum foi “obrigado” a votar no Bolsonaro, e nem se arrepende do que fez

Imagem: reprodução
por Luca Uras

“Vá e Veja”, filme soviético dirigido por Elem Klimov, que conta as experiências do próprio diretor vivendo num território ocupado por alemães durante a Segunda Guerra Mundial é um daqueles filmes que todos deveriam assistir. É um filme cru, violento, mas que necessita disso para retratar as atrocidades nazistas, sem nenhum tipo de romantização.

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O que nos interessa, no entanto, é um momento mais ao final do filme, quando um grupo de partisanos russos captura um general alemão e alguns de seus colaboradores, todos nativos da URSS. O alemão não se desfaz de suas crenças imundas, mas os outros choram e pedem perdão, xingam e juram que foram obrigados a cometer o genocídio que puseram em prática, diga-se de passagem, sem aparentar nenhum arrependimento até então, durante o filme. A resposta dos partisanos? Colocar fogo em todos, sem distinção, o comandante deles ainda dizendo para “aproveitarem com seus novos amigos”.

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Cena do filme Vá e Veja

Estamos em um cenário análogo hoje no Brasil. Acabamos de presenciar o genocídio de 600 mil brasileiros, com direito a hospital fazendo experimentos com os pacientes a par do que nazistas e japoneses faziam durante a Segunda Guerra, mas mesmo assim vemos os que são diretamente responsáveis pela eleição do atual governo negarem responsabilidade pelos seus atos, ou mesmo dizer que nunca simpatizaram com Bolsonaro, apenas se sentiram obrigados a votar nele para tirar o PT, que seria um “mal maior”, do poder. Começa, então, a aparecer um padrão.

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Não estou (e nem posso, por questões judiciais) defendendo juntar todos os liberais numa praça e fazer uma grande fogueira de São João, mas devemos tirar uma lição importante sobre o que fazer com os “arrependidos”. Quem elegeu Bolsonaro sabia muito bem no que estava se metendo. Ele não virou fascista da noite para o dia e, se fizeram campanha para ele, é porque julgavam que homofobia e racismo eram crimes menores do que seja lá o que Dilma fez. O fascismo, no entanto, é uma caixa de pandora: quando se rasgou a Constituição em 2016, foram libertados todos os tipos de monstros e atrocidades no nosso país, e todos sabiam disso.

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Que fique claro que liberal nenhum foi “obrigado” a votar no Bolsonaro, e nem se arrepende do que fez. Quando tirarmos Bolsonaro do poder e fizermos o que tiver que ser feito com ele, que todos os Kims Kataguiri, Mamães Falei e Joões Amoedo façam fila para receber a mesma punição. Querem se aliar a um fascista? Que aproveitem tudo o que tem direito com seu mais novo amigo.

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