Nova investida contra o memorial Luiz Carlos Prestes em Porto Alegre

Os comunistas continuam incomodando a extrema-direita, que agora tenta mudar a destinação do memorial em Porto Alegre, projetado por Niemeyer em homenagem a Prestes

Memorial Luiz Carlos Prestes, Porto Alegre. Imagem: O Partisano
por Danilo Matoso

A arquitetura conforma o espaço público e, portanto, é inescapavelmente política. Como tudo em política, é objeto de contínua disputa. Que dizer de edificações voltadas especificamente a homenagear figuras políticas? Esse é o caso do Memorial em Porto Alegre construído como tributo a Luiz Carlos Prestes (1898-1990), um gaúcho que organizou a célebre coluna tenentista na década de 1920 e se tornaria um dos principais quadros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no século 20. Para completar, trata-se de uma das últimas obras assinadas por Oscar Niemeyer (1907-2012), maior arquiteto brasileiro e também quadro do PCB. O edifício na Praia de Belas é alvo de constantes investidas da direita. Na última delas, uma vereadora do DEM busca mudar a destinação do edifício para “Memorial Cidade de Porto Alegre”. A população tem se mobilizado contra este arbítrio, e todos podem contribuir online com o abaixo-assinado “O Memorial Luiz Carlos Prestes é Nosso”, que já conta com quase seis mil adesões.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

A relação de Niemeyer com o Partidão e o “Cavaleiro da Esperança” era antiga. Em 1935, a partir de contato com Honório de Freitas Guimarães, o recebia em sua casa. O arquiteto contaria em suas memórias (As curvas do tempo, Revan, 1998) que ali, “em contato com Prestes e seus camaradas, a ouvir suas histórias de luta e sacrifício, decidi, um dia: ‘Prestes, fica com a casa. Sua tarefa é muito mais importante que a minha’. E a casa da rua Conde Lages, antes residência familiar, depois delegacia, pensão de putas e escritório de arquitetura, se transformou no Comitê Metropolitano do PCB e eu nele integrado para sempre”.

Oscar Niemeyer com Luiz Carlos Prestes em seu escritório em Paris, 1977. No exílio, o arquiteto projetaria também a sede do Partido Comunista Francês

Com a morte de Prestes em 1990, por iniciativa do então vereador Vieira da Cunha (PDT-RS), a Câmara de Vereadores de Porto Alegre aprovou a edificação de um “equipamento público de caráter cultural, denominando-o Memorial Luiz Carlos Prestes”, contando de imediato com risco de Oscar Niemeyer.

Oscar Niemeyer, Primeiro projeto para o Memorial Luiz Carlos Prestes, 1990. Fonte: Fundação Oscar Niemeyer

Seria apenas uma entre as diversas homenagens do arquiteto carioca ao amigo e camarada portalegrense e suas façanhas notáveis. Em 1992, a um ano das comemorações dos 95 anos de Prestes, projetaria para a Praça São Perpétuo, na Barra da Tijuca, um memorial composto por uma abóbada ligada por uma rampa curva a uma coluna encimada por uma estátua do líder político. A ideia só vingaria em 1996, quando seria executado com alterações em Palmas, capital do Tocantins, como Memorial da Coluna Prestes. Em 1995, realizaria na cidade missioneira de Santo Ângelo um Marco à Coluna Prestes, composto por uma coluna de formas livres e um marco em tronco de pirâmide. Em 1998, elaboraria para a cidade de Santa Helena, Paraná, um centro cultural da cidade com um Memorial Paranaense da Coluna Prestes, que não seria construído.

Leia também:  A desumanização da arte no capitalismo decadente

Niemeyer vinha elaborando projetos para Porto Alegre desde a década de 1940, quando idealizou o edifício sede do Instituto de Previdência do Estado. Em 1974, projetou um Centro de Estudos e Convenções da Associação Médica do Rio Grande do Sul. Em 2006, elaboraria para as margens do Guaíba um Caminho da Soberania Nacional, destinado a homenagear as lideranças nacionais gaúchas Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. Morto em 2012 aos 105 anos, Niemeyer não veria pronta a sua única obra executada na capital do Rio Grande do Sul: o Memorial Luiz Carlos Prestes.

Oscar Niemeyer, Projeto do Memorial Luiz Carlos Prestes no Rio de Janeiro, executado com alterações em Palmas, Tocantins. Fonte: Fundação Oscar Niemeyer

O edifício seria executado também próximo às margens do Guaíba, no bairro da Praia de Belas. É uma região onde se situam edifícios institucionais – tribunais, Centro Administrativo do Estado etc. e, como a cidade, infelizmente não se volta para o curso d’água. O por-do-sol no Guaíba, porém, é uma das belezas de Porto Alegre. Niemeyer, que já estivera lá várias vezes, soube aproveitar isso, abrindo à paisagem num cilindro envidraçado cortado por uma parede vermelha diagonal. É uma aparente alusão à célebre “Vence os Brancos com a Cunha Vermelha” do russo El Lissitzky. A “cunha” de Niemeyer se desdobra, como não poderia deixar de ser, em curvas internas que compõem o espaço, com um auditório e uma sala de exposições, apresentando um acervo de 135 fotografias sobre a vida do dirigente comunista. Com a nova ascensão do fascismo no Brasil, desde 2014 o edifício é alvo de investidas da extrema direita – inclusive quando de sua inauguração, em 2017, quando se tentou pela primeira vez mudar a sua destinação para “Museu do Povo Negro”. Nenhuma delas prosperou e nem há de prosperar, porque Prestes é uma referência mundial no combate ao fascismo.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano
Memorial Luiz Carlos Prestes. Imagem: Eugenio Hansen OFS / Wikimedia Commons

Fora ao completar cem anos, em dezembro de 2007, que o arquiteto começara a elaborar o projeto, que só seria definitivamente inaugurado dez anos depois. Um mês depois, em 11 janeiro de 2008, Niemeyer fez questão de publicar uma irretocável explicação do edifício e homenagem a Prestes e à trajetória do Partido em que ambos haviam militado. Ele explica que o trabalho

não se baseou, como de costume, num programa construtivo, mas na idéia de criar um elemento principal e único: uma parede que, cheia de curvas e retas inesperadas, atravessando em diagonal um retângulo de vidro do edifício (de lado a lado), possa lembrar aos visitantes as etapas fundamentais da vida desse grande brasileiro. A fachada simples e retilínea de vidro do edifício marcaria, com a parede interna tão movimentada, o contraste que a boa arquitetura procura muitas vezes exibir.

Junto da entrada, a parede com textos e imagens começa a mostrar aos visitantes os inícios da vida de Prestes, quando, oficial do Exército, era incumbido de acompanhar obras em construção no Rio Grande do Sul -aí surge, já com 26 anos, severo como sempre foi, Prestes a reclamar da maneira pouco correta com que os trabalhos estavam sendo desenvolvidos.

Não recebendo resposta às denúncias que fazia, foi pouco a pouco sentindo que uma solução burocrática a nada conduzia, mas que os problemas do país tinham de ser resolvidos por meio de uma revolução. E a Coluna Prestes apareceu naturalmente como a única maneira de enfrentar as questões políticas e sociais existentes.

Passo a passo, os visitantes vão tomando conhecimento dessa marcha extraordinária, da coragem desse grupo de patriotas a resistir por tanto tempo às forças repressivas. Logo em seguida, Prestes é obrigado a se exilar -na Bolívia e, depois, na Argentina, seguindo mais tarde para a União Soviética, quando, já sintonizado com o pensamento de Marx, dá à revolução um sentido mais amplo e universal.

A parede vai se escurecendo e, num ambiente mais fechado e sombrio, aparece o período da prisão, em que ele permanece nove anos incomunicável. E, como para agravar tanta tristeza, em 1936, sua mulher, Olga Benário, presa e grávida, é enviada criminosamente a um campo de concentração na Alemanha, onde seria morta numa câmara de gás em 1942; sua filha, Anita, após grande campanha internacional desencadeada pela mãe de Prestes, é afinal entregue à avó.

Quanta maldade! Impressionados com tanta violência, os visitantes param consternados; é a luta política com seus momentos de glória e horror. A guerra acabara. Vitoriosos, os soviéticos entram em Berlim. Um clima de otimismo se espalha. No Brasil, Prestes é anistiado, e o Partido Comunista Brasileiro conquista a legalidade. É a época dos grandes comícios, da campanha pela Constituinte.

Oscar Niemeyer, Memorial Luís Carlos Prestes, Planta. Desenho: O Partisano, a partir de documento da Associação Memorial Luís Carlos Prestes

A parede vermelha, que, de acordo com os acontecimentos, vai mudando de cor, escurece outra vez. Diante dela, comovidos, os visitantes constatam que o momento de euforia passara. Em 1947, o TSE cancela o registro do PCB e, a seguir, cassa os mandatos dos parlamentares comunistas -entre eles, Prestes. Era a reação anticomunista que recomeçava, implacável.

Prestes passa a atuar na clandestinidade. Com o golpe militar de 1964, seus direitos políticos são cassados. A história caminha para o fim.

Atentos, os visitantes seguem o relato emocionante. Começa um novo exílio, que se estende até 1979; de volta, apóia as Diretas-Já, solidarizando-se com a candidatura de Tancredo Neves. O tempo passa e, altivo e corajoso como sempre, vem a morrer em 1990; postumamente, Prestes é anistiado pelo Exército e promovido a coronel.

Como arquiteto, vejo, satisfeito, que meu projeto vai contribuir para manter viva a memória de Luís Carlos Prestes, um brasileiro que lutou em favor de seu povo, contra a miséria e a desigualdade social que, infelizmente, ainda persistem em nosso país.

Reli este texto e sinto que não basta louvar o passado. O importante é continuar essa luta por um mundo melhor que o império de Bush procura em vão obstruir.

Salão de exposições do Memorial Luiz Carlos Prestes. Fonte: Wikimedia Commons

Deixe uma resposta