Não olhe para o capitalismo

Uma breve análise de “Não olhe para cima” enquanto produto ideológico para o consumo global em massa

Imagem: Reprodução
por William Dunne

O roteiro de “Não olhe para cima” [alerta de spoiler] é anterior à pandemia. Porém, um filme demora para ser feito, de modo que a descrição tão oportuna do negacionismo é uma profecia que chega tarde, pode passar despercebido que houve ali uma “previsão”. Seja como for, inspirado no negacionismo climático, Adam McKay acabou acertando em cheio no comportamento irracional que cerca a pandemia.

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No Brasil, os paralelos com a situação do país e o governo Bolsonaro são inevitáveis. Não por causa de uma colonização cultural, tema que talvez já nem valha a pena discutir, mas porque antes de nos terem mandado um filme enlatado, nosso próprio governo foi instalado aqui como um produto de fora, graças a pessoas como Seteve Bannon e outras das quais sequer sabemos os nomes. A crítica à extrema direita na metrópole se encaixa tão bem aqui na colônia porque nossa extrema direita foi criada à imagem e semelhança do trumpismo.

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Outro filme de Adam McKay a lidar com previsões ignoradas é “A grande aposta”. Há vários mecanismos narrativos daquela obra que se repetem agora no recente lançamento da Netflix. Flashes rápidos passeiam pela tela condensando a superficialidade da cultura atual, em que não existe uma hierarquia possível entre discursos no palco da Internet. Ao final de “Não olhe para cima”, vemos o próprio touro de Wall Street flutuando pelo espaço entre uma coleção de objetos-signos da civilização depois da explosão do planeta (como os objetos de consumo indo pelos ares em “Zabrieskie Point”, de Michelangelo Antonioni).

Nos dois filmes o apocalipse anunciado é negado até que se consume. Em “A grande aposta” é o colapso econômico da crise de 2008. Em “Não olhe para cima” é um cometa matador de planetas. Nos dois casos, prevalecem a vontade de acreditar que o pior não vai acontecer e a fraude deliberada perpetrada pelo sistema. Em “Não olhe para cima”, no entanto, a verdade não envolve a compreensão do mercado financeiro ou de cálculos complicados. Basta olhar para o céu e ver a verdade. Negá-la requer muito esforço, e produz situações absurdas, em que o riso desbragado vai se misturando à aflição de ver a humanidade cometer suicídio guiada por uma elite incapaz de fazer qualquer coisa por um interesse coletivo.

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A redenção, como sempre no cinema americano (aliás, os EUA mais uma vez são os salvadores do mundo em “Não olhe para cima”, apesar de, nesse caso, acabarem se omitindo por interferência do setor privado), vem da moral superior de heróis bem intencionados. Em “A grande aposta” isso acaba sendo ridículo e inverossímil, porque os heróis são investidores do mercado financeiro. Em “Não olhe para cima”, pelo menos, há um toque de autoironia (mesmo que seja involuntária), no fato de que essa sátira seja veiculada em um serviço de streaming global e produzida nos EUA.

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P.S. Vale relembrar aqui Mark Fisher, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que a superação do capitalismo.

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