João Nogueira, sambista de calçada

Cantava como os antigos, bebia como os novos, compunha como ninguém. Em parceria com Paulo Cesar Pinheiro comporia os sambas mais bonitos de todos os tempos

Imagem: Divulgação/Arquivo pessoal
por Eduardo Afonso para os Arquivos do Samba

João Batista Nogueira Júnior nasceu em 1941, no Méier, Rio de Janeiro, e lá ficou quase que a vida toda. Não é sambista que veio dos barracos do morro, não é sambista que veio dos apartamentos de classe média – o samba de João Nogueira nasce no subúrbio, nas calçadas da periferia carioca. Por isso mesmo, João se deu a alcunha de ‘sambista de calçada’.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Mas o que realmente marcara sua carreira fora a sofisticação de suas canções e de seu jeito de cantar. Suas principais influências eram Noel Rosa, Wilson Batista e Geraldo Pereira, que foram os responsáveis máximos por seu som gingado e sua forma sincopada de cantar. Cantava como os antigos, bebia como os novos, compunha como ninguém. Em parceria com Paulo Cesar Pinheiro, grande amigo e ex-marido de Clara Nunes, também grande amiga, comporia os sambas mais bonitos de todos os tempos.

Pela gravadora Odeon, João lançou seis maravilhosos álbuns, com destaque especial para o primeiro, “João Nogueira (Grito do Subúrbio)” de 1972, que trazia à capa frase que definiria bem seu estilo: “Disco de 12 sambas, o grito do subúrbio com o som da Lapa”. João faria mais sucesso ainda nos álbuns seguintes, “E Lá Vou Eu”, de 1974, e “Vem Quem Tem”, de 1975. Em 1977 e 1978 João lança os excelentes “Espelho” e “Vida Boêmia”, atingindo seu auge musical até então.

Clube do Samba

Em 1979, ainda sob as asas da Odeon e cansado da invasão americana nas rádios com as músicas de discoteca, João se junta com seus colegas sambistas e funda uma frente de resistência à música estrangeira, o Clube do Samba. O Clube não era só expoente do gênero como era também um tipo de sindicato, que lançava artistas e seus álbuns quando a mídia estava ocupada demais se focando na disco music. Na época, a novela “Dancin’ Days”, da Rede Globo, tomava a sala de estar dos brasileiros, enfiando goela abaixo os temas estrangeiros.

Leia também:  Assim é a vida nos apartamentos de 4m2 na Coreia do Sul

A discoteca, que empurrava a música brasileira para fora das paradas de sucesso até o surgimento do Clube, não venceu nem perdeu a disputa, já que ambos os estilos continuaram a se propagar de sua própria maneira – mas o samba, de certo, não teria tido tanta força nos anos 80 não fosse o Clube do Samba iniciar suas atividades em 79, trazendo de volta ao sambista o orgulho que lhe estava esvaecendo.

E seria no início dos anos 80, com a gravação do primeiro álbum do Fundo de Quintal, que um novo samba finalmente voltaria às paradas de sucesso, revivendo os bons e velhos tempos. O samba do Fundo de Quintal muito tinha a ver com o estilo do Clube do Samba, a volta do samba às suas origens, às reuniões, às rodas, ao partidão, que era como o Clube do Samba se encontrava.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Depois da Odeon

Todo esse momento de João acabou dando no álbum “Clube do Samba”, de 1979, que contém diversas faixas que ficaram eternizadas, como “Súplica”, faixa que abre o álbum. O Clube do Samba ainda teria um final trágico, deixando uma quantidade exorbitante de dívidas para que João pagasse do próprio bolso – mas nada disso apagaria o brilho do cantor e compositor, que ainda nos anos 80 lançaria álbuns excelentes como “Pelas Terras do Pau-Brasil”, “Boteco do Arlindo”, “Wilson, Geraldo e Noel” e o sucesso “Boca do Povo”, todos esses já sem o selo da Odeon. João nos deixou em 2000, mas sua obra e seu legado o fizeram eterno. Só morre quem é esquecido.

Deixe uma resposta