A jornada revolucionária de Emory Douglas

Ministro da Cultura dos Panteras Negras, Douglas deu expressão visual à política do partido e espalhou sua mensagem pelos EUA e o mundo

Imagem: Emory Douglas
por Bibi Tavares

“Eu tenho aguentado tempo demais enquanto os porcos racistas brutalizam e assassinam meu povo. O sangue do porco deve escorrer na rua.”

Projetado graficamente por Emory Douglas, jornal The Black Panther cruzava linguagem popular com teoria marxista

Cores fortes, palavras de ordem, porcos representando policiais e políticos fascistas, mulheres negras empunhando fuzis, autodefesa, denúncias contra as políticas genocidas do imperialismo e contra o racismo. Assim era o jornal The Black Panther (1967-1979). A comunicação e identidade visual do jornal foram projetadas por Emory Douglas, que também era cartunista, diagramador e ilustrador do periódico.

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Jovem Douglas 

Nascido em 24 de maio de 1943, em Michigan, o futuro designer gráfico mudou-se com a mãe para São Francisco ainda criança, em 1951, para dar continuidade a um melhor tratamento para sua asma, pois, segundo seu médico, o clima de lá era melhor para seu problema respiratório. Durante sua juventude foi preso algumas vezes, a primeira delas entre 13 e 14 anos enquanto estava com garotos mais velhos apostando num jogo de dados, e para um garoto negro, isso foi o suficiente para terminar o dia na prisão. Ainda nesse período de sua vida, Douglas chegou a ser sentenciado a quinze meses de reclusão no reformatório Youth Training School, onde ele acabou trabalhando no setor de impressões, ganhando experiência em tipografias, design de logos e ilustração; ali se iniciou um período de transição em sua vida.

Enquanto esteve no reformatório, gostava muito de desenhar, mas ainda eram desenhos mais abstratos, sem nenhuma ligação com temas mais urgentes, como política ou problemas sociais. Encorajado por um ex-conselheiro a ir à Universidade, Douglas cursou Artes na Universidade da Cidade de São Francisco, onde aprendeu a combinar arte com mensagem: “Sem essa base, eu não seria capaz de fazer o que eu fiz pelo partido [Panteras Negras]”.

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Nos anos 60, já na graduação, ele começa a ser influenciado pelo movimento estudantil da época, que gritava ao governo dos EUA pelo fim da guerra ao Vietnã, além de trabalhar em pautas como liberdade de expressão, justiça e direitos civis ao povo afro-americano. Ali, a contracultura começa a fazer sentido para Douglas, que havia crescido assistindo a protestos violentos antirracistas. A partir de sua admiração pelo educador de artes visuais Aaron Douglas, pelo artista Charles White, conhecido por obras sobre o povo negro e pela artista expressionista México-Americana Elizabeth Catlett, Emory começa a militar ativamente no Movimento das Artes Negras. Em 1967, enquanto trabalhava na construção de uma peça, Huey P. Newton e Bobby Seale, fundadores do Black Panther, surgiram para uma reunião onde seria discutido como seria feita a segurança da viúva de Malcom-X, Betty Shabazz, no local.

Emory se interessou e logo em seguida começou a participar de reuniões do grupo, que o acolheu por mais de uma década. O Partido dos Panteras Negras, onde ele pôde usar de toda sua criatividade e habilidades para dar vida ao jornal e aos famosos cartazes do Black Panther, além do icônico símbolo do Partido, a pantera negra.

Arte revolucionária e política

Emory Douglas se filiou ao Partido dos Panteras Negras em 1967, onde se tornou ministro da Cultura do Partido aos 22 anos. Responsável pela estética visual do jornal, seus pôsteres estampavam sempre a última página desse periódico e as principais temáticas de suas poderosas obras abordavam a violência policial contra a comunidade negra, desigualdade social, autodefesa armada, racismo e políticos corruptos. Sua arte revolucionária foi amplamente inspirada por momentos igualmente revolucionários, como as Revoluções em Moçambique e Angola, além disso, Emory usava como referência algumas artes de agitação e propaganda veiculadas na China, em Cuba e no Vietnã.

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Ao passo que as ideias do Partido iam amadurecendo, as obras de Emory também iam ganhando mais profundidade e impacto, com cartazes cada vez mais refinados e que nem sempre usavam da violência como mensagem. A fim de expandir sua comunicação e responder à demanda de injustiças sociais, sua arte passou a representar outros grupos oprimidos, como mulheres, crianças, países vítimas das barbaridades dos EUA e até a população dos bairros ao redor dos Panteras Negras, fazendo a vizinhança se reconhecer na arte combativa do grupo: “Eles costumavam comprar o jornal para ver a arte. Eles poderiam dizer através do trabalho de arte qual direção os Panteras Negras estavam tomando sobre determinado assunto em cada momento em particular”, nas palavras de Douglas.

O “Artista Revolucionário” foi ganhando destaque não só no movimento negro, mas também no radar do governo dos Estados Unidos, que o investigava e a todos que tinham relação com os Panteras Negras. Esse fato foi confirmado anos depois de Emory ter recebido uma suspeita ligação, nos anos 70, de alguém que se dizia ser um negociante de arte. Na ligação, o tal homem teceu inúmeros elogios ao trabalho artístico de Douglas, fez propostas prometendo muito dinheiro e sugeriu um encontro entre os dois.

Como já estava acostumado com investidas suspeitas, ele hesitou e quando o tal negociante de arte voltou a ligar, Douglas disse que não estava interessado e desligou a chamada. Após isso, o número que havia ligado para ele não aparecia mais como válido. Anos depois, foi divulgado que nos registros do FBI Emory Douglas era listado para investigações. Sobre esse episódio, Emory disse: “Isso não me incomodou em nada. Isso apenas significava que estávamos fazendo o nosso trabalho.”

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Enquanto esteve ativo no partido, Emory e seus companheiros acordavam cedo para distribuir o jornal, além de colar algumas artes pelas paredes dos bairros, fazendo a revolução parecer iminente e encorajando a autodefesa às comunidades atingidas por violência policial, além de incentivar essas comunidades a terem orgulho delas mesmas. Foi com Emory Douglas que a imagem do porco representando a polícia se popularizou e ganhou o mundo, sendo replicada em centenas de manifestações contra as ações racistas e violentas do Estado. Muitos dos cartazes feitos por Emory para os Panteras Negras mostravam fins violentos aos “porcos”, fosse com tiros, esfaqueados ou queimados no ácido.

 

O Artista Revolucionário do presente

Mesmo após o fim do Partido dos Panteras Negras, nos anos 80, Douglas continuou inspirando e impulsionando movimentos antirracistas, anticapitalistas e nacionalistas pelo mundo todo. Não à toa, sua arte revolucionária foi objeto de inúmeras exposições em museus, incluindo o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles em 2007 e 2008, na Galeria de Artes de Manchester Urbis em 2009 e na Gus Fisher Gallery, na Nova Zelândia, também em 2009. Essas são apenas algumas das muitas exibições de que sua poderosa e refinada arte revolucionária foi tema.

Hoje, o cabelo black power que Emory Douglas exibia por aí nos anos 70 e 80 deu lugar a uma suave cabeça raspada, às vezes enfeitada com um belo chapéu, dando uma nova característica ao seu papel de avô. Ele ainda mora em São Francisco, na casa de sua falecida mãe e, esporadicamente, trabalha como artista gráfico independente, usando sua arte em campanhas sobre problemas sociais, violência, política e o sistema prisional aviltante dos EUA.

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