A importância de entender e produzir nossas histórias

Comete-se uma injustiça suprema ao proibir que o grupo mais numeroso da humanidade seja inundado por boas obras

Imagem: Mats Rehnman
por Matheus Dato

O texto abaixo inicia a série Estudos de literatura para a classe trabalhadora.

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Uma das coisas mais especiais de ser marxista e militar sob a bandeira do socialismo é conviver com os grandes agentes da história em nosso calcanhar. A cada passo, somos colocados sob as lentes cuidadosas do legado de figuras e povos responsáveis pela mudança do curso da história; sempre que nos lançamos a uma nova tarefa, nos dirigimos ao estudo do passado, à análise da realidade concreta do presente e ao esforço de interpretar cientificamente o futuro.

Então, torna-se importante dizer que não somos os primeiros a contribuir desta maneira para que os companheiros de nossa classe se interessem e se aprofundem em temas fundamentais para a compreensão e mudança de nossos tempos e de nossa sociedade. Seguimos os passos de pessoas como Marx, Nadezhda Krupskaya, Marta Harnecker, Ernesto “Che” Guevara, Mao Tse-Tung e muitos outros que, se possível e sempre que necessário, deveriam ser lidos e conhecidos, ao menos em suas histórias biográficas, por todos os trabalhadores que desejam avançar sua consciência.

Outro alerta é necessário. Tal como dizia Paulo Freire, não é o intuito desta série estender um conhecimento oculto e dificílimo aos que nos acompanharão. O intuito é estabelecer uma comunicação e um debate pautados pela crítica sobre a literatura de maneira geral e abrangente.

Pois bem, o primeiro ponto a ser analisado e devidamente trabalhado nestes escritos é o porquê de se buscar que todos os trabalhadores tenham acesso à literatura e sejam cada vez mais capazes de produzir escritos relevantes e de qualidade. Por que um operário do chão de fábrica, um boia fria e um proletário digital precisam mergulhar em livros sem muito significado além do alto preço praticado nas prateleiras das lojas?

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A resposta possui várias partes, mas a razão principal da necessidade deste estudo é que a literatura é a grande comunicação universal entre personagens históricos que viveram em tempos muito diferentes, a ponte entre as consciências do passado e do futuro e um dos meios acessíveis de se materializar a nossa longa experiência humana socialmente acumulada através de séculos de existência. De certa maneira, a nossa moral, nossas ideologias e o modo de pensarmos como proletários, assim como o modo pelo qual a classe dominante constrói seu pensamento, são resultados de muitos processos intermediados pela literatura.

Outro motivo, mais conhecido, pelo qual os trabalhadores podem e devem se envolver em atividades literárias é que a divisão entre arte popular e arte de elite é uma criação das próprias elites dominantes para tornar privilégio o acesso à cultura. Lutar contra a sociedade de classes é lutar ao mesmo tempo pela democratização absoluta das artes e das ciências.

Além de tudo isso, “(…) todos os governos capitalistas são provisórios, o proletariado é o verdadeiro senhor do mundo.” G. Dimitrov (1882 – 1949), grande teórico do comunismo, já nos alertava que o resultado final de nossos esforços por um novo mundo socialista é o domínio da classe operária e camponesa. Devemos preparar-nos para escrevermos adequadamente a história e a mentalidade desta época, ou então correremos o risco de permitir que nossos inimigos permaneçam no controle da nossa literatura. Criar fábricas livres do controle burguês é tão difícil quanto criar uma literatura livre deste mesmo controle.

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Diante desta análise, pode parecer que o objetivo destes textos é fundar uma nova forma de propaganda que reduza a literatura a nada mais que a política. Esta não é a meta.

Mais do que qualquer coisa, a literatura é também uma construção social muito própria do homem. Comete-se uma injustiça suprema ao proibir que o grupo mais numeroso da humanidade seja inundado por boas obras, escreva dia e noite e descubra os prazeres e as obsessões do ato de ler e escrever. O primeiro passo para todo trabalhador que deseja se dedicar um pouco mais à sua formação cultural é entender que não é natural que trabalhemos tanto que não tenhamos tempo para ler, sonhar, construir, ir ao teatro e participar da vida humana na arte. É criminoso normalizar que os livros no Brasil excluam mais da metade de nossa população por seu preço.

O ato literário mais importante que um trabalhador pode praticar é gritar que não aceitaremos ficar cada vez mais parecidos com as máquinas que operamos e alheios às coisas que o ser humano tem produzido ao redor do mundo.

Se somos a classe da revolução socialista, a vanguarda da nova ordem, temos o dever de nos apropriarmos desta construção que é nossa, chamada literatura, e torná-la revolucionária também.

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Ao fim de cada exposição serão disponibilizadas indicações de leitura relacionadas ao tema trabalhado em cada parte desta pequena exposição. Esperamos com sinceridade que esta coletânea de análises possa um dia perfurar o nicho social de excelentes escritores e artistas aqui reunidos e convença cada vez mais trabalhadores a buscarem este conhecimento libertador e este legítimo prazer que é a luta travada por meio da literatura.

De maneira breve, faço também um apelo a todos os que desejarem contribuir com esta humilde obra; o espaço está aberto.

Aos que, assim como eu, foram mordidos pelo bicho da leitura e desenvolveram a estranha doença de escrever coisas no papel: todos os artistas podem escolher não se calar diante da tortura, da ditadura e do fascismo, mas o escritor é o único que jamais pode ser calado por ninguém. Avante, camaradas, palavras voam, os escritos permanecem. 

Registro mais antigo de Homero encontrado, com 13 versos da Odisseia. Imagem: Ministério da Cultura da Grécia

Indicações de leitura:

https://vermelho.org.br/2015/03/27/ary-dos-santos-bandeira-comunista/

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  • Bertolt Brecht. Poeta alemão. “Perguntas de um operário que lê.”

https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2201742/mod_resource/content/1/POEMA%20DE%20BRECHT%20%28PERGUNTAS%20DE%20UM%20TRABALHADOR%20QUE%20L%C3%8A%29.pdf

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