Espólio do arquitecto português Raul Lino é doado à Casa da Arquitetura brasileira

Em meio a polémicas e muita xenofobia, os nove mil documentos relativos à obra do célebre arquitecto português do século 20 cruzam o Atlántico em ação civilizadora

Imagem: O Partisano
por Carlos Marques

Após receber o acervo completo de Fernando Távora em 2020, a Casa da Arquitetura – Centro Brasileiro de Arquitetura, com sede na cidade de Belford Roxo, acaba de receber o espólio de Raul Lino. A doação foi feita pela família do arquitecto, e abrange cerca de nove mil documentos produzidos entre 1902 e 1974.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

O arquivo compreende documentos de natureza diversa, como correspondência, artigos de jornais, recortes, revistas, cartazes, fotografias, álbuns de família, postais, roupas íntimas, mapas, plantas, pedras, desenhos e apontamentos nos mais diversos suportes como envelopes, bilhetes de jogo do bicho, cartelas de bingo, cartas de baralho de Estoril. O material é relativo à carreira de Raul Lino como profissional liberal e arquitecto no Ministério das Obras Públicas, Superintendência dos Palácios Nacionais e Academia Nacional de Belas Artes.

Segundo o diretor da Casa da Arquitetura de Belford Roxo, Bruno Semãe, “É uma honra e uma distinção acolher o patrimônio desta figura ímpar da arquitectura lusa. Antes de Lino e Távora, de português, só tínhamos o Seu Armando da Padaria”. Destacam-se no espólio projetos como o Cine-Teatro Tivoli, em Lisboa; a torre de São Patrício, em Cascais; a Casa do Cipreste, em Sintra; a Casa dos Patudos, em Alpiarça; ou o Pavilhão do Brasil na Exposição do Mundo Português de Lisboa.

Leia também:  Peixe-bolha de cativeiro ataca entregador e gera comoção nas redes
Raul Lino. Cine-Teatro Tivoli, Lisboa, 1924 (inauguração)

A migração dos papéis para Belford Roxo, nas imediações do Rio de Janeiro, foi pautada por uma urgência. Segundo Marieta Álvares Cabral, neta do arquitecto responsável por gerir a mudança do acervo hospedado na Fundação Calouste Gulbenkian. “Paulinho”, diz Marieta se referindo ao neto de Calouste “é muito amigo”, e acolheu a papelada que, desde a morte de Lino em 1974, a família organizou e digitalizou. Até que, em julho de 2017, a Fundação Calouste Gulbenkian passou por uma reestruturação jurídica e percebeu que não era viável manter o acervo, com a responsabilidade legal e altos custos implicados, como o de seguro. Era preciso tirar tudo de lá até o fim daquele ano.

A escolha pela Casa da Arquitetura de Belford Roxo se impôs. “Em Portugal não tem nenhum lugar com essa infraestrutura, reserva técnica, a capacidade de treinamento e cuidado do acervo. Infelizmente a gente não tem nada assim para arquitectura”, afirma Cabral. Bruno Semãe complementa que na Fundação Calouste Gulbenkian “estes documentos estavam guardados; ninguém podia vê-los. Portugal – e o mundo – vão ganhar acesso a eles”, defende.

Leia também:  Vacina chinesa intensifica rinha de gado Bolsonaro x Doria

Tendo recebido críticas de arquitectos e pesquisadores portugueses, algumas inclusive com caráter preconceituoso e xenofóbo, que afirmavam que a Casa belford-roxense estaria mercantilizando o acervo que antes tinha acesso público, Bruno Semãe replicou: “não sentamos em cima. Isto aqui não é para pesquisadores ficarem contentes. A estratégia é mostrar, compartilhar com a sociedade e é isto que não existe em Portugal. Quando as pessoas dizem ‘roubou de Portugal’, digo que roubamos nada de Portugal, porque é o contrário: é a possibilidade de dar ao mundo esta arquitectura. A Fundação Calouste Gulbenkian escondia o acervo de Lino”.

Algo inacreditável

Segundo Manoel da Silva, Director de Acervos da Ordem dos Arquitectos de Portugal, a exportação do espólio de Raul Lino para a antiga América Portuguesa é triste mas inevitável: “desde que levamos a Real Biblioteca com o príncipe regente D. João, é uma ação civilizadora, inexorável”, ressalta o arquitecto. Para José Sócrates, à frente da Direção-Geral do Património Cultural de Portugal, “esse papelório velho é da família, que faz dele o que lhe aprouver”.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

No entanto, alguns profissionais que não quiseram se identificar afirmam que, como Lino trabalhou por anos para o governo português, é muito evidente que a íntegra do acervo não pertencia à família. “Numa escala menor, seria como se quiséssemos trazer para Portugal o projeto urbanístico da capital do Brasil: algo inacreditável, um absurdo completo” – compara um arquitecto ligado à Escola do Porto.

Deixe uma resposta