Entre Chico Pinheiro e Maria Beltrão, a Globo fica com a filha da ditadura

Após 32 anos como jornalista da Globo, Chico Pinheiro dá adeus a emissora que reivindicou sua parcialidade, mas que mantém gente como Maria Beltrão propagando mentiras sobre Lula

Chico, o carismático. Beltrão, a musa do Mises
por Bibi Tavares

Na última sexta-feira (29), o jornalista e apresentador Chico Pinheiro se despediu da Rede Globo. Sua saída da emissora começou a tomar forma já em 2018, quando circulou um áudio dele falando o óbvio sobre Lula: “Realizaram o fetiche. O fetiche deles era Lula na cadeia. Não foi feito do jeito que eles queriam, mas o Lula foi. E agora?”, questionou o jornalista. O áudio, provavelmente publicado num grupo de amigos de Chico, foi motivo para o diretor-geral de jornalismo da Globo, Ali Kamel advertir Pinheiro.

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Logo após o incidente, Kamel enviou aos seus funcionários um aviso em tom passivo-agressivo. No texto, dizia que “não se pode expressar essas preferências publicamente nas redes sociais, mesmo aquelas voltadas para grupos de supostos amigos. É impossível que os espectadores acreditem que tais preferências não contaminam o próprio trabalho jornalístico”. Em outras palavras, estava proibido denunciar a farsa sobre os processos contra Lula.

É engraçado pensar que a Globo afirmava empenhar-se em ser imparcial – a ponto de advertir um de seus jornalistas por falar em privado o que pensava sobre o caso – enquanto gastava mais de 400 horas impulsionando as denúncias infundadas contra o ex-presidente. De fato, um jornalismo contaminado por opiniões não é saudável para nenhuma democracia, mas o título de imparcial nunca passou nem perto das mãos dessa emissora.

Sai Chico, o progressista, fica Beltrão, a filha da ditadura

Enquanto Chico Pinheiro comemora seu momento sabático – no melhor estilo sextou – no rolê com Caetano Veloso, outros jornalistas de parcialidade tão duvidosa quanto maionese de rodoviária sentem-se em casa na Globo. Esse é o caso da Maria Beltrão, jornalista da GloboNews. A “Filha de Deus”, como diz em sua bio do Twitter, também é filha de Hélio Marcos Pena Beltrão, apenas um dos signatários do AI-5, período marcado por cassações e retirada de direitos políticos, além de incontáveis torturas e mortes. Seu irmão, Hélio Coutinho Beltrão, participou da fundação de nada menos que o Instituto Millenium e o Instituto Mises, o qual hoje preside. O compromisso da famíia com o neoliberalismo é arraigado.

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É por isso que ela sim, Maria Beltrão tem pouco apreço pela verdade. Quem acompanha a GloboNews, sabe que ali tem festival de cara feia quando vão noticiar fatos que passam credibilidade à esquerda, e talvez seu grande momento na emissora tenha sido um alô para um certo Cuca Beludo. No mesmo dia em que Chico mandava um “até logo, até mais ver, bon voyage, arrivederci, até mais, adeus, boa viagem, vá em paz, que a porta bata onde o sol não bate, não volte mais aqui, hasta la vista baby, escafeda-se, e saia logo daqui” à Globo, Beltrão se mostrava indignada com a inocência de Lula diante da parcialidade de Sérgio Moro, aquele do terno preto que o Andreazza adora. Aliás, o jornalista adorador de marrecos e gravatas também é filho de um ministro da ditadura militar: Mário Andreazza – aquele cujos olhos verdes encantavam uma personagem de Didi Mocó. A emissora por décadas acoitou e gestou em sua redação canalhas apologetas notórios da ditadura como Alexandre Garcia – o ex-porta voz do presidente general João Figueiredo –, âncora da Globo desde meados dos anos 80 até ser demitido há poucos anos por defender abertamente Bolsonaro. Nem a ultrarreacionária CNN conseguiu segurar o jornalista após ele defender o tratamento precoce contra Covid-19. Restou a Jovem Klan para manter figura tão abjeta entre seus comentaristas.

Rede Globo aliada?

Maria Beltrão, muito parcial e pouco por dentro do Direito, entregou mais do que uma opinião. Entregou também o que pensa a Rede Globo e o que Ali Kamel espera de seus jornalistas: um compromisso com a manutenção da burguesia no poder. Nem mesmo a bronca que Bolsonaro e seu grupelho tem contra a Globo fazem dessa emissora uma aliada da esquerda, do progressismo ou de Lula.

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Os conservadores não gostam da Globo por pensarem que ela é libidinosa, aliada da comunidade LGBTQA+ e por ter meia dúzia de atores que fazem defesa casual e festiva da democracia. Já a esquerda pode ter certeza que a Globo não é uma aliada, nem nunca será, por atitudes como essa. A Rede Globo encerrou os trabalhos com um excelente jornalista, que contagiava seu público com bom humor e carisma. Em contrapartida, manteve em seu quadro alguém que é aliada do Instituto Mises e mente sem nem ficar vermelha. Isso é motivo mais do que suficiente para saber que lado a Globo está, caso ainda reste alguma dúvida.

Amizade de longa data

A manutenção de jornalistas como Maria Beltrão, ligada por familiares à ditadura, não é novidade na Rede Globo. A amizade entre a emissora e esse período tão sombrio da história é antiga e envolve uma série de benefícios, como a entrada de capital estrangeiro na empresa, coisa proibida à época, mas que os militares deixaram passar em troca de apoio, tornando a Globo uma das maiores emissoras do mundo.

No dia 2 de abril de 1964, o jornal O Globo publicou em seu editorial um texto se vangloriando por apoiar o golpe, dizendo que:

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Já em 7 de outubro de 1984, quando a ditadura estava momentos finais de decadência, Roberto Marinho, proprietário da Globo até 2003, destacava o apoio que deram ao golpe de 64, chamado por ele de Revolução:

Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de preservação das lnstituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada. Quando a nossa redação foi invadida por tropas anti-revolucionárias, mantivemo-nos firmes e nossa posição.Prosseguimos apoiando o movimento vitorioso desde os primeiros momentos de correção de rumos até o atual processo de abertura, que se deverá consolidar com a posse do novo presidente.

Pode parecer um assunto batido, algo que todo mundo está cansado de saber, mas a real é que a Globo consegue se passar por progressista e aliada à democracia. É um mero disfarce. Ela permite que alguns atores se manifestem sem grandes problemas, mas seu conteúdo mais consumido, os jornais, são recheados de falas tendenciosas à direita, a exemplo da Beltrão e tantos outros propagandistas dos interesses do grande capital.

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Texto atualizado pela última vez com pequenas alterações às 15h03 de 4/5/2022.

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