
Em tempos de ascensão do conservadorismo e avanço do neoliberalismo, as crises são a desculpa certeira àqueles que querem atropelar os direitos da população e suprimir o papel do Estado na vida dos que não têm mimos recebidos para mostrar na internet, nem herdaram uma herança gordinha. Sempre com parcimônia, e a fim de não provocar grandes manifestações de fúria popular, mas conquistar o coração dos grandes capitalistas, a burguesia do baixo clero impõe sua política: tudo para eles, nada para o povo. A partir dessa constatação, o atual cenário de pandemia que de alguma forma obriga a população a ficar em quarentena, mostra sua face mais cruel, que é o afrouxamento dos direitos e relativização do que é ou não importante para a vida de um trabalhador.
Sem a possibilidade de cumprir com uma quarentena satisfatória, famílias pobres vêm sofrendo com o fechamento ou redução de atendimento de vários serviços públicos essenciais. Em diversas cidades e bairros, mulheres chefes de família reclamam que não estão conseguindo fazer cadastros indispensáveis para sua sobrevivência, como Bolsa Família, por darem de cara com o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) de portas fechadas. A falta das refeições servidas nas escolas públicas também vem fazendo a diferença na vida das crianças, que sentem no vazio de seu estômago o ódio do Estado à sua classe. Mesmo com a prorrogação da quarentena, Doria ainda não liberou o prometido auxílio-alimentação para os alunos de escolas públicas, anunciado há duas semanas pelo governador de São Paulo.
Outro direito que já vinha sendo duramente atacado por grupos extremistas religiosos e que agora vem tendo seu acesso dificultado, é o direito ao aborto seguro nos casos previstos em lei. O Hospital Pérola Byington, por exemplo, havia suspendido o serviço de interrupção de gravidez a fim de diminuir a circulação de pessoas no local, contudo, é papel do Estado possibilitar a conciliação da quarentena e a garantia do procedimento.
Ainda nesse período, as denúncias de violência doméstica aumentaram 9% segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em estados como São paulo e Rio de janeiro, o aumento chegou aos 50%, isso se deve ao fato de que muitos casos de violência são cometidos por pessoas da família ou muito próximas da vítima. Nessa perspectiva, tramita um projeto na Câmara dos Deputados que pede a obrigatoriedade das casas-abrigo e Centros de Atendimento Integral e Multidisciplinares para Mulheres permanecerem abertos no período da quarentena, para que possam receber as vítimas de violência.
Em paralelo a isso tudo, os profissionais da área da saúde e serviços públicos sofrem com a escassez de materiais de higiene e de trabalho para atender a população. Linha de frente em diversos setores, médicos e assistentes sociais precisam se virar com o que têm para garantir o possível aos seus usuários, que muitas vezes são pessoas em situação de vulnerabilidade e grupo de risco. Nessa onda de forçação de barra em cima do Sistema Único de Saúde e diminuição de alguns serviços por conta da quarentena, a privatização vira a “solução” para uma situação provocada pelo próprio Estado burguês, que tende a suprimir as brechas que a população pobre encontra para sobreviver nessa selva.
