Uma senha para outro tempo │por Sergio Rocha

#FlautaVertebrada: “Mas o pouco do nome e os dois últimos números nada significavam a não ser um desespero doce”

Imagem: JBrooks Images
por Sergio Rocha

Revirei o bolso esquerdo e trouxe entre os dedos o pedaço de papel de linhas desmanchadas. Ainda se lia um pouco do nome e os últimos dois números daquilo que seria um telefone, uma ponte que me levasse de volta ou a trouxesse entre as mesas, esbarrando os quadris nos quadris de outras moças enquanto eu do balcão tentava decifrar a cena, o propósito dos esbarrões, os olhares perturbadores, insinuações alinhavadas nas curvas. Mas o pouco do nome e os dois últimos números nada significavam a não ser um desespero doce, um último gole de cachaça antes de sair à rua e encontrar um sol boquiaberto e a natureza desatenta, as mesmas caras de sono cuspindo bons-dias vazios e o mesmo sentimento morno, quase agradável de sentir-me só e vivo.

Ando sozinho; prefiro. Ando devagar, tão devagar quanto consiga o equilíbrio. Noto que as pessoas notam. Mais que notar, observam. Nessas horas tenho a sensação de levitar e não sei bem se sorrio ou se a luz frontal maquia meu rosto que parece tranquilo e, de certo modo, ainda jovem. Olho outra vez o pedaço de papel de linhas desmanchadas e tento reconstituir a cena; o desenho da caneta no papel, as primeiras letras dando sentido às outras ou delas roubando quaisquer estórias de outros dias silenciosos e outras noites densas.

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Um nome é mais ou menos uma senha para outro tempo. Sabia, porém, que jamais reconstruiria noite alguma e que viver minha felicidade plastificada longe da chuva e dos amores mais profundos seria a melhor maneira de manter-me são e salvo. Mas de que amor mais profundo falaria esse sujeito? Haveria a possibilidade de um amor à superfície? E sendo assim não seria outra coisa diferente do amor, talvez afeto, carinho, atração, vontade de dar as mãos pelos corredores ou salvar-se mutuamente daquelas mesmas profundidades onde residiria o tal amor verdadeiro?

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Então, tentar, combinar letras e números sempre desejando que seu quadril por alguma razão ou falta de espaço esbarrasse no meu e um girar de corpos no mesmo espaço da canção ao fundo, mas não tão ao fundo que não pudéssemos voltar à luz e ao oxigênio. Talvez eu perguntasse se a salvação teria asas em outra estampa ou se vinho tinto àquela hora seria mesmo o ideal, quem sabe um passeio antes que o sol se calasse e as pessoas desistissem de tentar compreender meus passos longe do chão. Combinar letras e números todos os dias até que você atendesse dizendo olá como se nunca adeus fosse uma palavra possível entre nós dois. Um olá que seria mais um abraço, um encontro antes do almoço ou da festa, um olhar nos convidados e um convite para dançar, uma insinuação no ouvido, quase um gemido pedindo para que partíssemos dali e nunca mais dependêssemos de um pedaço de papel cujas linhas se desmanchassem pouco depois de um esbarrão.

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Sergio Rocha, paulistano dos altos de Santana, escritor, poeta, jornalista (de)formado pela Filosofia, mas principalmente pai da Mariana, Fernanda, Giovana e avô do Ravi. Tem dois livros publicados, “Terceiro fragmento”, J. Andrade Gráfica e Editora, 2012, Aracaju/Se e “Um poema depois da chuva”, Rusvel-Triver Studio e Editora, 2018, São Paulo/SP. Vem participando de várias antologias impressas e virtuais. Organiza o Sarau Santa Sede, ministra oficinas de criação literária e é editor na Casa Editorial Livrará. Escreve n’O Partisano quinzenalmente aos sábados.

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