Segundo Sol | por Felipe Mendonça

#FlautaVertebrada Uma evocação do tempo em que o homem será autenticamente humano, e olhará com horror para a miséria de hoje

Imagem: Yuriy Mazur
por Felipe Mendonça

Quando o segundo Sol voltar,
Não existiremos mais
Sucumbidos pelo alvorecer
De novos seres e neandertais.

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Quando o segundo Sol voltar,
Existirão novos mares e continentes,
Outros oceanos, novos peixes
E vulcões incandescentes.

Quando o segundo Sol voltar,
Novo Homem e Mulher
Se reconhecerão livres, para sempre,
Irmãos de lagartos e serpentes.

Quando o segundo Sol voltar,
Ele, até à noite, brilhará
Num dossel de estrelas sem par
Sobre cidades que serão verdadeiro lar.

Quando o segundo Sol voltar,
Além da Nuvem de asteroides,
Vermelho astro peregrino,
Errante, solitário e antigo,

Que, um dia, contemplou
Os primeiros hominídeos,
Surgirá um novo Homem
Limpo do sangue dos assassínios.

Saberá, então, o que é amar
E, enfim, terão os pássaros
Aprendido a pensar
Sem terem esquecido como voar.

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Quando o segundo Sol voltar,
Uma nova raça surgirá
Que não se preocupa só consigo,
Mas com todo o ser vivo.

Quando o segundo Sol voltar,
Há apenas meio ano-luz daqui,
Nenhum ser existirá
Sem antes ter esquecido de si;

Que só se reconhecerá
Como ser coletivo,
Profundamente pacífico,
Incapaz de atos destrutivos.

Ser cuja única necessidade
Será a de buscar a felicidade
De toda a comunidade
Sem tabus reprimidos.

Quando o segundo Sol voltar,
Surgirão novos sexos
Do calor dos amplexos
E dos afagos fraternos.

Quando o segundo Sol voltar,
Só existirão seres completos,
Sem culpa, crime ou pecado,
Sem pais, reis ou escravos.

Quando o segundo Sol voltar,
Só existirá o amor,
Porque tudo sempre foi amor,
Porque o ódio é amor,

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A dor é amor, a alegria, amor,
A esperança, a verdade,
O desespero, a vida e a liberdade
Amor, amor, amor, amor…

Amor é trair, gozar e rezar
É dançar, cair e chorar,
É falar, gritar e calar,
É nascer, viver e matar,

É mentir, sorrir e despir-se,
É trepar, morrer e vestir-se,
É erguer o braço ateu
E dar adeus.

Só existirá a lei geral do amor,
Sua mais-valia quando, da diferença
Entre o trabalho e o valor,
Só restar o amor.

Quando o segundo Sol voltar
E sua tímida luz iluminar
O novo Homem sem deuses ou mitos,
Terminarão todos os degelos,

Revelando múmias e monstros
Em cujos rostos e pegadas
Ele não mais se reconhecerá
Para além da violência e do medo.

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Felipe Mendonça é poeta de ofício. Nasceu em 1976 em Porto Alegre/RS. Formou-se pela UFRJ em Letras e fez mestrado e doutorado em Literatura Brasileira na mesma universidade. Logo cedo, mudou-se para o Rio de Janeiro e viveu boa parte da sua vida na Ilha do Governador. Hoje, mora em Belford Roxo, município da Baixada Fluminense da cidade do Rio de Janeiro.

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