Puizya na repartição | por Andri Carvão

#FlautaVertebrada: o poeta desmistificado da repartição nem sempre escreve bem e vive esmagado pelo cotidiano mesquinho e suas pequenas contradições

Imagem: StudioByTheSea
por Andri Carvão

(1)

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O poeta acorda de madrugada,
usa o banheiro, se veste às pressas
com a roupa que havia separado
na noite anterior, dá um beijo
na mulher e nos filhos e ganha a rua
de estômago vazio antes do sol nascer.

Os mesmos rostos conhecidos
de todos os dias no ponto de ônibus;
no mesmo horário, os mesmos desconhecidos.
Alguns ensaiam um cumprimento com a cabeça,
outros desviam o olhar como se nunca
tivessem se visto na vida.

O poeta viaja de pé, espremido
entre a massa trabalhadora,
devaneando e divagando
perdido em seus pensamentos.
O poeta chacoalha mais de uma hora
fazendo baldeação entre uma e outra condução
até chegar ao seu destino.

(2)

Na repartição,
entre um copinho descartável de café e outro,
entre arquivos cinzas, telefonemas,
memorandos, pastas suspensas,
livros ata, relatórios, documentos,
despachos, carimbos, clipes, percevejos,
entre um verso e outro,
entre um verso seu e o de outrem,
entre a arte e a política,
entre o caderno de cultura e os classificados,
entre a coluna social e a página policial,
entre o caderno de empregos e o de variedades,
entre o horóscopo e os quadrinhos,
entre as palavras cruzadas… as palavras, as palavras…
entre garrafas de café, galões de água,
bebedouros em manutenção,
escadas e elevadores,
extintores de incêndio,
placas de proibido fumar,
placas de cuidado piso molhado,
entre idas e vindas ao banheiro
para urinar,
para defecar,
para fazer hora,
para vomitar,
entre um cigarro e outro,
entre um bate papo e um papo furado,
entre um chefe chato e outro pior,
entre um colega puxa-saco e outro dedo duro,
entre um reacionário e outro alienado,
entre um promovido e outro desligado,
entre o funcionário do mês e o funcionário do passado,
entre o funcionário novo e o outro no obituário,
entre o horário do almoço e o fim do expediente.

(3)

O poeta faz um caminho diferente na volta pra casa,
porque antes dá uma passada no botequim da esquina
e lá revê seus amigos, alguns
já aposentados da repartição;
perde na sinuca,
paga uma rodada de cerveja
e voa pra casa.

O poeta vasculha os bolsos a procura da chave
e depois de umas três tentativas,
a porta se abre por dentro.
As crianças, já de pijamas,
fazem festa com a sua chegada.
O poeta chega em casa com cheiro de cachaça.
A mulher pergunta “quem é a vagabunda?”
Mas não tem vagabunda nenhuma.
– Só vagabundo.

O poeta urina fora da privada,
entreabre a porta do banheiro gritando pra mulher
pegar uma cueca
e depois deixa a
toalha molhada jogada
na cama. O poeta não presta
e a maioria de seus versos também não.
O poeta começa a assistir qualquer coisa na tevê,
mas logo pega no sono. O poeta não dorme – desmaia.
O poeta acorda de madrugada.

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Andri Carvão cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA – Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, o autor tem diversas publicações online e antologias. Um Sol Para Cada Montanha [Chiado Books, 2018] e Poemas do Golpe [editora Patuá, 2019] são as suas mais recentes publicações.

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