Poema para os homens futuros | por Felipe Mendonça

#FlautaVertebrada: “Havia um tempo em que o ouro só pertencia às estrelas e as matilhas uivavam e ganiam para a lua como nunca se vira antes”

Imagem: Diego Rivera
por Felipe Mendonça

A grama era verde,
O céu era azul
E quanto mais ao sul
As flores rebentavam,
Todos nós nos rejubilávamos,
Porque ainda havia flores nos canteiros.

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Havia relvas, matas, florestas,
Montanhas verdes
E imensidões cerúleas
Que todos os dias
Rasgavam-se, ante os olhos,
Para nosso prazer e visão.

As abelhas zuniam nas colmeias
E fecundavam azaleias e bromélias,
Levando, por toda a parte,
A cor, o olor e o estio
De verões e primaveras,
De prados e campos
Onde ziniam as cigarras.

Havia a grama e os céus:
E como era verde!
E como eram azuis!
Sobre lírios e girassóis,
Perfeitos e exatos,
Para nosso deleite e agrado.
Odoríficos, exalavam as fragrâncias
Mais intensas e desejadas
Que nos faziam amar
Mesmo diante da morte e do nada.

Os rios corriam com a força dos primeiros anos,
Abrindo cânions e vales,
Formando deltas e bacias,
Pântanos e lagos
Onde se ergueram
Cidades, fortalezas e palácios.

Os glaciares eram muito brancos e nítidos,
Como o são os mares de gelo de Europa,
Lar de ursos e focas
E onde são mais brilhantes as boreais,
O luzido das polares
Sob intensos ventos austrais.

Grossas massas de gelo
Expandiam-se e recuavam
Deixando, na rocha, sulcos profundos,
Testemunho das eras,
Geleiras e rasgos
A esculpir penhascos e geografias.

Havia um tempo
Antes da dúvida e do medo,
Antes do chão calcinado de indústrias,
Do degelo e das fontes que secaram;

Havia um tempo
Em que o ouro só pertencia às estrelas
E as matilhas uivavam e ganiam
Para a lua como nunca se vira antes,
Enquanto Lucy contemplava o céu
Repleto de diamantes;

Em que enormes lagartos e feras
Davam origem aos pássaros;
E peixes e insetos marinhos,
Aos anfíbios e sapos,
Aos besouros e térmitas.

Havia um tempo
Em que a inocência não era mais
Do que eras e eras
Que ficaram para trás
Junto com deuses da terra e do ar
E com um mundo ígneo,
Natural e físico.

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Felipe Mendonça é poeta e ensaísta brasileiro, nascido em 1976, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, que cresceu no Rio de Janeiro no bairro da Ilha do Governador. Hoje vive em Belford Roxo/RJ. É mestre e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Administra um blog de poemas chamado “Poesia, necessário pão” em que publica poemas de sua autoria, tendo publicado em 2018, pela Chiado Books, um livro de poemas intitulado “Reescritos”.

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