Pelo direito de fazer lockdown sem passar fome

Parte da esquerda aderiu ao bolsonarismo ao romantizar a miséria e apontar o “fique em casa” como “privilégio”, mortos já são mais de 250 mil e o isolamento é a única saída

Enterro de vítima da Covid no Rio de Janeiro, em abril de 2020. Imagem: Photocarioca
por Vinícius Carvalho

O Brasil e a sua relação pérfida, perversa, sarcástica em relação aos mortos do coronavírus não é fruto apenas de uma liderança genocida e que tem desejo de morte — Bolsonaro quer essas centenas de milhares de mortos — é fruto também de um arremedo de nação, de um não-país, um espaço geográfico que não se entende como tal, uma construção fajuta. Aí chegamos no entrave: Brasil tem 10% de todas as mortes do mundo por Covid (isso porque ainda está subnotificado), sendo que não estamos nem perto de ter 10% da população mundial.

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Há 17 estados brasileiros em estado de colapso e os governadores não têm força, coragem e nem muita vontade de peitar o governo federal para aplicar o tal de lockdown, porque também não possuem sequer apoio popular para tal. Quem, num local que está beirando meio milhão de mortes, fica em dúvida entre ouvir ou não o principal culpado por isso, que debocha, aglomera, tira onda, diz que não é coveiro, que foda-se, que é gripezinha, que sabota a vacina é tão criminoso quanto ele. Tem desejo de morte igual.

Uma nação que vinculou a “brasilidade” e o ethos de seu povo ao hedonismo total não tem condições mínimas de disciplina, e isso, diferente do que dizia a Beth Carvalho, e que eu concordava e dissertava longamente sobre, “a alegria é a resistência do brasileiro”, é pura balela, puro pobrismo cultural. Na verdade tudo isso é terreno fértil para o fascismo, o morticínio, o genocídio e o bolsonarismo. Porque tudo acabará sempre em música e piada.

O teste da nação

Essa pandemia é, talvez, o primeiro teste de nação deste país, Guerra do Paraguai, Diretas Já, Segunda Guerra Mundial, foi tudo fichinha perante o que estamos passando agora. E é perceptível que não dá pra contar com ninguém. Nem com o presidente, nem com governadores, nem com o povo, nem com seu vizinho e nem com o seu parente e nem com porra nenhuma.

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Quem queria viver um período de Estado Mínimo, esse momento chegou. Quem queria viver uma crítica pós-Maio de 68 ao Estado de Bem Estar Social francês como algo terrivelmente sufocante (piada até), esse momento chegou também. Quem almejava do fundo do seu fígado o romantismo de um Estado Hobbesiano, seja bem vindo, seu desejo foi tão cheio de tesão que nem mais a paz entre seus cidadãos (que seria, neste caso, a única função do Estado) o Brasil consegue.

Na verdade, como um bom país colonizado, que abandonou o seu projeto industrial e segue o seu trilho natural de chiqueiro/celeiro do mundo, que nasceu e vive para tal, atingimos o hollywoodiano Estado de MAD MAX.

Krokodil

Primeiro de tudo, mas nem fudendo que existem apenas 252 mil mortos por coronavírus. Depois de passado esse terror vamos precisar fazer uma espécie de Tribunal de Nuremberg para contar, caso por caso, de cada morte por síndrome respiratória aguda entre março de 2020 até o final aparente desta pandemia. O problema é que não temos disposição, vontade política, imprensa, elite, classe-média e povão para tal. Não tem nada.

Queria começar um texto de segunda-feira de manhã um pouco mais animado, mas não vou conseguir. Pessoalmente tô tranquilo, mas no ponto de vista coletivo estou sentindo um verdadeiro vazio. Lembro quando certa vez assisti um documentário russo sobre uma droga chamada Krokodil, onde, em determinado momento, o narrador dizia que a relação da antiga União Soviética com a sua população era uma espécie de relação de mãe e filho. Inclusive a correlação psicanalítica de “mãe e filho” é um clássico russo. A Rússia é chamada de “mãe” pelos seus cidadãos.

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Quando a União Soviética com aquele estado pesado, hegemônico e protetor cai, o russo médio perde a sua referência e o seu lugar no mundo. Daí uma sociedade super avançada se transforma nos primeiros anos em algo individualista, bizarro e super violento em vários aspectos: sexual, prostituído, racial, político e suscetível aos vícios do Ocidente. Não à toa o Putin, que de socialista não tem nada, ao chegar ao poder passa a evocar vários símbolos da autoridade soviética e conduz essa nova retomada russa ao protagonismo mundial.

Mas enfim, não é sobre isso. É sobre apatia, incapacidade de revolta. As pessoas se revoltaram mais com a PEC das Domésticas, com os 20 centavos de 2013, do que com falta de seringa, leitos e oxigênio em UTIs. Pelo visto a vontade de ter hospitais padrão FIFA e um SUS poderoso acabou junto com o governo PT.

Uma esquerda que aderiu ao bolsonarismo

É uma apatia generalizada de um país que já não come direito, já fica difícil comprar gás e proteína animal até para a classe-média, imagina para quem é mais pobre. Bolsonaro desfila e esfrega a piroca na cara de cada cidadão e tem um público fiel que gosta e um outro público que está mais preocupado em fazer narrativas antilockdown. Isso mesmo, existe um pseudomoralismo também no campo das esquerdas que é a turma do “se não pode resolver tudo o que eu quero agora, então não se resolve nada”, são tão entusiastas do crime e do morticínio quanto o bolsonarismo.

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Porque na ânsia de produzirem narrativas classistas (o que seria justo e necessário em outra ocasião), deixam de fazer o básico, que não é contestar o lockdown como uma coisa inacessível para pobres, e sim EXIGIR que pobres também tenham direito a fazer seu lockdown. Porque se o governo não tem condições de ampliar a segurança alimentar e econômica da população nesse momento de pandemia, de salvar as empresas de serviços (geradoras de emprego e renda) ELE TÃO MENOS IRÁ ABRIR MÃO DE MANTER A ECONOMIA FUNCIONANDO.

Aí entra naquele velho espiral da nova esquerda desse vômito geográfico, esse aborto de fronteiras apinhadas uma em cima da outra chamado Brasil: na incapacidade de cobrar direitos trabalhistas para todos, porque também passaram muito tempo pedindo uma liberdade fajuta e sem sentido, na vergonha de defender uma lei varguista, começam a romantizar a precariedade. E, romantizando a precariedade, acham que ter direitos trabalhistas, ter sido criado num ambiente familiar, ter direito a almoço todo dia, ter acesso a universidade, ter férias, ter um pouco de conforto É PRIVILÉGIO.

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Lockdown não pode cair no discurso de privilégio. E tá aí uma coisa que une PARTIDO NOVO, Bolsonarismo e a esquerda Lumena.

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