Para que serve uma onça?

A mesma pergunta pode ser traduzida hoje em outras modalidades: pra que serve um quilombola? Que utilidade tem um índio? Pra que serve o mundo? Que utilidade tem a vida?

Imagem: Bernard Dupont
por Tito Kehl

Há muito tempo, quando ainda éramos um país, com um presidente de verdade, com leis e uma Constituição, assisti a uma cena que ficou gravada na memória, como exemplo típico de uma mentalidade que, hoje em dia, está mais presente do que nunca no dia-a-dia do nosso Brasilzinho.

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Estava eu numa barbearia (típico reduto de machos alfa e cidadãos de bem), aguardando minha vez, quando parou na porta uma SUV daquelas, tipo Hilux ou sei lá o que, e desceu dela um desses sujeitos endinheirados mas meio toscos, bem tipicamente fazendeiro, de óculos escuros, chapéu vistoso e relógio de ouro no pulso.

Entrou na barbearia, saudou as pessoas conhecidas com bastante intimidade, e imediatamente começou a fazer uma espécie de discurso, dirigindo-se a todos os que estavam ali, incluindo o roqueiro cabeludo que esperava sua vez, sentado no canto da sala.

Acontece que o tal sujeito havia comprado uma propriedade em São Pedro, “umas terra linda”, na qual pretendia plantar laranja, mas descobrira que ela estava numa reserva ambiental, por se tratar de cerrado, e que, como se tratava de área de proteção, ele não poderia levar adiante o plantio que planejara.

O homem estava furioso, e bradava sua indignação em alto e bom som.

* ligar o sotaque caipira no último:

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“Porque o pobrema do Brasir é dois: corrupição e essa tar de ecologia! Porque eu comprei umas terra, umas terra linda pras banda de São Pedro, i agora discubro qui num posso usá pra prantá as laranja qui eu quiria! Porque lá é um tar de cerrado!”.

“Cerrado! Cerrado! Umas arvrinha raquítica, tudas torcida, que parece qui esganaro elas, uma coisa feia de se vê! E diz que é por causa do verde! Aquilo lá é verde, por um acauso?”.

“Agora, eu quero prantá umas laranja lá, i num posso, pur causa do tar cerrado, pur causa do verde! Ara! Quer coisa mai verde que um pé de laranja? Quer coisa mais verde que um laranjar?”.

O homem virou-se para mim, como se eu tivesse alguma coisa a ver com aquilo:

“Agora, mi diga: si num é essa tar de ecologia qui acaba co Brasir? Me responda! De que qui serve uma onça? Qui utilidade tem um jacaré?”.

A essa altura eu já estava desistindo de cortar o cabelo, enquanto o sujeito continuava esbravejando.

“Pra que qui serve uma onça? Qui utilidade tem um jacaré? Pra que qui serve uma onça? Qui utilidade tem um jacaré?”.

Essas perguntas, verdadeiramente metafísicas, nunca mais saíram da minha cabeça, como exemplo típico dessa mentalidade, a mesma que matou Chico Mendes, a mesma que matou a Irmã Dorothy, a mesma que faz do Brasil o campeão de mortes de ambientalistas, ano após ano.

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A mesma pergunta pode ser traduzida hoje em outras modalidades: pra que serve um quilombola? Que utilidade tem um índio? Até o limite: pra que serve um professor? Que utilidade tem um livro?

As variações sobre o tema vão até o infinito. Pra que serve um gay? Que utilidade tem uma feminista? Pra que serve uma negra? Que utilidade tem um ativista?

Sempre a mesma receita, na qual, se a coisa não serve ao propósito único e imediato do fulano, é porque ela não tem sequer o direito à existência. Esse é o Brasil de hoje, no qual a eliminação do “outro” adquire proporções que seria difícil acreditar há alguns anos.

É como perguntar: pra que serve a diversidade? Que utilidade tem o plural? Pra que serve o mundo? Que utilidade tem a vida?

Assim se faz a negação da própria existência, reduzindo-a a uma bidimensionalidade irredutível, na qual só cabem o “eu” e o “meu”. O resto deve ser urgentemente eliminado.

É a redução da riqueza infinita da existência, que vai da biodiversidade à diversidade cultural, a um beco sem saída, no qual só contam investimento e lucro. O mundo transformado pelo dinheiro é a vitória da burrice, da hipersimplificação da realidade, da negação da vida – que, por definição, é vária, múltipla, paradoxal, imprevisível, plural, contraditória e dinâmica.

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Esse mundo em preto e branco, em intermináveis tons do mesmo cinza, é o mundo da “razão”, do 2+2=4, o mundo cartesiano, provavelmente a ferramenta mais pobre que o homem desenvolveu para o conhecimento do universo que o cerca.

Nunca esqueço o diálogo do chefe sioux com Jung, ante a afirmação desse de que tinha a cabeça ocupada na solução de determinado problema: “Mas você pensa com a cabeça? Como é possível pensar com a cabeça? O pensamento é uma coisa que se faz com o coração”.

Essa é uma das questões mais fundamentais que temos a fazer no mundo de hoje, antes que o abismo se torne inevitável.

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Talvez, se ouvíssemos mais chefes sioux e menos Jungs (sem ofensa a esse grande psicoterapeuta), não estaríamos, para o bem ou para o mal, nos perguntando para que serve uma onça, ou que utilidade tem um jacaré.

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