Ódio à ciência e aos “talentos superiores” ou do “querer grandeza”

A continuação da série Bolsonaro n’Os Demônios de Dostoiévski traz mais algumas pistas do que seria o grande absurdo do presente século

Imagem: O Suicida (Manet, 1881, detalhe)
por Mariana Lins

Conforme sugerido nas sessões precedentes, e inclusive no próprio título da presente série, sob certa perspectiva, é suficientemente razoável interpretar o surreal Brasil atual a partir de uma releitura da obra Os demônios, a única de cunho abertamente político escrita e publicada por Dostoiévski na longínqua Rússia do longínquo ano de 1871. E o é, surpreendentemente, em múltiplos aspectos. O ódio à ciência, aos intelectuais e aos artistas que hoje, por exemplo, não só nos assombra, quanto inclusive nos mata – dada a “estratégia” abertamente anticientífica adotada pelo governo no “combate” à pandemia – é explicitado nesta obra, com imenso poder de síntese. Vide, nesse sentido, o seguinte excerto: “A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, a um Shakespeare mata-se a pedradas […]. Os escravos devem ser iguais: sem despotismo ainda não houve nem liberdade nem igualdade, mas na manada deve haver igualdade”.

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Nesse significativo excerto, temos um amálgama de certa psicologia que se fará ver no romance como dotada de um ideal político a ela condizente, e com isso de estratégias políticas para o atingimento desse ideal mesmo. Psicologia, porque Dostoiévski irá representar artisticamente os motivos que subjazem a um ódio tão visceral a ponto de preconizar a aniquilação e ultraje de vindouros artistas e cientistas que se destacariam ao longo da história ao modo de um Cícero, de um Copérnico, de um Shakespeare; ideal político e suas decorrentes estratégias, porque esse ódio, gestado no interior de determinados indivíduos pertencentes a uma determinada cultura, não é politicamente neutro, e inclusive, conforme sugerido no romance, se presta de modo especial à manipulação. Que o tipo psicológico em questão seja o de um maníaco ressentido e o seu ideal e estratégias políticas verdadeiros delírios, é um juízo de valor compartilhado pelo escritor, mas um juízo de valor que, por si só, não é capaz de impedir que esse tipo com seus fins e estratégias desdobre-se como um “acontecimento social”.

Muito embora Dostoiévski tenha declarado que os indivíduos que encarnariam tal tipo seriam verdadeiros “abortos da natureza”, indignos de literatura, de outro lado viu na sua representação artística, a explicitação de um acontecimento social, passível, a despeito do seu absurdo, de vir a se tonar uma possibilidade, quiçá uma espécie regra geral na sociedade – para o caso das estratégias de alguma maneira alcançarem o seu fim. E, neste ponto, vale relembrar a altura em que o filósofo do absurdo, Albert Camus ergueu Dostoiévski, ao dizer que ele e não Marx era o verdadeiro profeta do século XX, dado que fora o escritor russo quem previu o triunfo do poder sobre a justiça; quando o poder, a despeito dos vapores e lendas que o rodeiam, não é essencialmente antagônico à mediocridade – vide, nesse sentido, que tipos de influencers temos, nesse nosso século XXI, nos Twitters e Instagrams da vida.

O escritor argelino Albert Camus, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1957. Imagem: reprodução

Um projeto “político” tresloucado

Em Os demônios, o amalgama psicológico-político sintetizado no excerto acima é encarnado de modo exemplar pelo personagem que o profere, sendo este, o ativista político clandestino do romance, Piotr Stiepanovitch – quem, nas sessões anteriores, justamente tomamos como o duplo literário do nosso presidente Jair Messias Bolsonaro.  No tipo representado por Piotr Stiepanovitch – e, por tabela, em Bolsonaro –, testemunhamos como o ressentimento profundo pela própria mediocridade, quando associado a uma ânsia desmesurada por domínio e primazia pode conduzir a (ou ser a peça-chave para levar a cabo) um projeto “político” tresloucado e cruel.  Se uma das primeiras tarefas que Piotr se coloca uma vez atingido o poder é a de “rebaixar o nível da educação das ciências e do talento”, isso se dá, porque, segundo constata, o nível elevado das ciências e das artes só é acessível aos talentos superiores, quando os talentos superiores, segundo ele, sempre tomaram o poder e foram déspotas.

De um lado, portanto, é por Piotr se reconhecer como medíocre ante aqueles que segundo a sua perspectiva seriam dotados de um talento superior, que os compreende como “déspotas”, já que tais “talentos superiores” justamente por conta da superioridade do seu talento ocupariam os postos de poder e destaque que indivíduos como ele – medíocres, não obstante dotados de desmesurada ânsia por domínio e primazia –, almejavam. De outro lado, é devido a esse reconhecimento mesmo que Piotr e os seus, quer manipulados ou não, necessitam de um projeto de poder que reduza a maioria às condições mais abjetas, que elimine os vindouros Cíceros, Shakespeares e Copérnicos – para que assim, na sua mediocridade mesma, possam dominar. Daí que o personagem arremate com os seguintes postulados: “Não precisamos de educação, chega de ciência! Já sem a ciência há material suficiente para mil anos, mas precisamos organizar a obediência. A sede de educação já é aristocrática.”

Galileu Galilei demonstrando as novas teorias astronômicas na Universidade de Pádua. Foto: Félix Parra – 1845

Postulados dos quais se pode inferir que a organização da obediência é tida, por ele mesmo, como precondição para a redução da maioria à condição de mediocridade, em nome do despotismo da mediocridade mesma. Algo que visto do Brasil de hoje, ressoa o protagonismo de bastidor que vem sendo exercido pelas nossas Forças Armadas, para as quais, segundo nos informou o general Pazuello: “É simples assim: um manda e o outro obedece” – ainda que neste caso (como era também o caso do grupelho comando por Piotr) a obediência não pareça estar assim tão organizada.

O ponto nerval, porém, é que o drama do reconhecimento da própria mediocridade não é exclusivo ao tipo representado por Piotr, antes é o drama de praticamente todo aquele que experimentou o progresso das luzes da periferia, seja de uma periferia global, nacional, local que não se excluem mutuamente, antes assomam-se umas às outras. Mas qual seria o drama em ser uma pessoa mediana, a qual somente num sentido pejorativo pode ser chamada de medíocre? Não é o meio-termo o segredo da vida? E aí é que está. Pois se há algo que devemos aprender com Dostoiévski, em detrimento de Nietzsche, é que é uma ingenuidade ou, no mínimo, uma injustiça nomear “os instintos do homem moderno” de gregários ou julgar que o seu ideal seja algo aparentado a um “animal de rebanho”.

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Em O idiota escrito e publicado alguns anos antes de Os demônios, encontramos sintetizado de modo bastante direto e simples qual seria o ideal de ser humano gestado como um efeito colateral do desigual progresso das luzes, isto é, qual seria o mais caro desejo, antevisto por Dostoiévski, como o mais central, espiritual e característico aos indivíduos formados no interior das tardias sociedades modernas, as quais o escritor compreendia sob a insígnia do niilismo. E este desejo diz respeito a ser um indivíduo reconhecidamente original, poderoso, destacado; insubstituível ao modo de um Napoleão, um “grande homem”, um gênio, a self-made man – o que atualmente poderia ser chamado de celebridade, milionário, bilionário. Afinal, conforme anteviu um dos personagens secundários de O idiota, para um homem da sua época e da sua tribo não havia nada pior do que saber que é considerado um indivíduo fraco, comum, ordinário e medíocre, desprovido de qualquer talento e singularidade – e isso intolerável até o ponto de tornar preferível ser considerado um patife do que um indivíduo comum e ordinário. E se o personagem medíocre em questão se mostrou disposto a se valer dos meios inescrupulosos e vergonhosos a eles disponíveis, isso não se devia sequer a mau-caratismo de sua parte, mas, sim, exclusivamente, à sua tentativa de através de um montante considerável dinheiro – a ele inacessível de qualquer outra forma que não fosse a contravenção – , vir a se tornar “um homem original no supremo grau da palavra”; já que segundo ele, um pobretão desprovido de qualquer habilidade específica, filho de um pai alcoólatra e oriundo de uma família desestruturada: “o dinheiro é mais abjeto e odioso porque ele dá até talento. E continuará dando até a consumação do mundo”.

Numa palavra: no seu tempo, Dostoiévski identificou que ser um patife era, na maioria dos casos, o único meio de se aproximar dos parâmetros de homem ideal da época. Mas se em O idiota, o personagem em questão não conseguiu ser um patife, dada a moralidade no seu coração – o que, para dizer a verdade, faz com que ele seja esquecido ao longo do romance – não é esse o caso de Piotr de Os demônios.  Pois o que marca o tipo encarnado em Piotr não é tanto o ressentimento oriundo da consciência da própria mediocridade quando comparado aos indivíduos laureados como geniais e originais, dado que um tal ressentimento é, sob a ótica dostoievskiana, quase que universal aos indivíduos das periferias das modernas e liberais sociedades aos moldes europeus, hoje também estadunidenses.

O que caracteriza o tipo encarnado em Piotr é uma combinação em que um grau elevado desse ressentimento, ao invés de abafar, sob a forma de baixa autoestima, inflama uma ânsia desmesurada por domínio e primazia, que associada ao mau-caratismo puro e simples pode conduzir a verdadeiras catástrofes no plano social sobretudo se o indivíduo em questão tiver ao seu alcance os mecanismos necessários para manipular, em larga escala, esse mesmo ressentimento naqueles que por si só não poderiam lançar mão da ignomínia em nome de um instante, de uma breve ilusão da supremacia da sua mediocridade e fraqueza como força e verdade – o que Bolsonaro parece estar a orquestrar no anunciado motim de 2022, se até lá conseguir manter insuflada nos seus minions  a ânsia por domínio e primazia de modo a evitar que eles se afoguem no ressentimento pela própria mediocridade, que num mundo organizado como o nosso, não diz respeito somente a eles.

Mais um idiota

Aqui temos então uma chave para interpretar a avaliação, bastante veiculada na mídia, do coronel Carlos Alberto Pellegrino acerca do caráter de Jair Messias Bolsonaro, quando este último, na condição de primeiro-tenente do exército, era seu subordinado. Pois o coronel Pellegrino, conforme os documentos apresentados por Luiz Maklouf Carvalho no seu livro O cadete e o capitão, escreveu na ficha de Bolsonaro, em 1983, que ele, naquele ano, deu “mostras de imaturidade ao ser atraído por empreendimento de ‘garimpo de ouro’”, “mostras” essas que são esclarecidas como “demonstrações de excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente”. O coronel fez ainda a gentileza de destacar, há quase quarenta anos atrás, o caráter fantástico das aspirações de Bolsonaro – chamou-lhe a atenção que as ambições do seu então comandado se baseassem em “lendas” e “histórias” que consistiam “sempre em relatos fantasiosos sobre fortunas feitas da noite para o dia” –; assim como destacou a sua obstinação, já que mesmo quando Bolsonaro viu esse seu primeiro empreendimento nos garimpos de ouro dar com os burros n’água, continuou a reafirmar “a sua ambição de buscar por outros meios a oportunidade de realizar sua aspiração de ser um homem rico”. Uma aspiração que a despeito da sua mediocridade, ao que parece atingiu algum sucesso, dado, atualmente, ser uma praxe na família Bolsonaro, a compra de imóveis de luxo com dinheiro vivo. O coronel foi ainda além nesse seu esboço tipológico do então insuspeito futuro presidente Bolsonaro, aproximando-o matematicamente do tipo elaborado pela pena de Dostoiévski; quando o coronel afirmou por exemplo que apesar da falta “de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”, Bolsonaro “tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos”. Uma ambição que tampouco se pode dizer que Bolsonaro tenha sido nela malsucedido; afinal, são muitos os jornalistas que afirmam que o presidente, justamente por conta da sua mediocridade tresloucada e golpista, estaria a humilhar as Forças Armadas e o seu alto generalato, como se as Forças Armadas tivessem se convertido num tipo especial de vítima que, em contrapartida, coloca tanques nas ruas. Que os nossos tanques periféricos sejam velhos ante os olhos do desenvolvido mundo das máquinas de guerra, não implica que localmente não tenham poder de fogo para aniquilar qualquer um de nós, bastando que para isso relembremos que as taxas de morte violenta no Brasil, ultrapassam com folga as mesmas taxas de países abertamente declarados em guerra.

De fato, não é preciso de Dostoiévski para concluir que o “projeto” bolsonarista de poder tem como uma das suas finalidades mais claras e urgentes atacar, minar e inviabilizar o desenvolvimento das ciências, das artes e da educação; um ataque concentrado especialmente na educação superior e nas instituições de pesquisa. Os cortes em séries aplicados à pasta da educação, desde 2019, não são uma novidade para ninguém. Conforme anunciado recentemente, o CNPq teve, neste ano de 2021, o menor orçamento das duas últimas décadas, de modo que das 3.080 solicitações de bolsas doutorado e pós-doutorado aprovadas no seu último edital “apenas 396 (13%) vão receber as bolsas de fato”. Já no que diz respeito à CAPES, os cortes concentrados em 2019, foram escamoteados em 2020 através de regras inéditas para a distribuição de bolsas; quando aqui os números variam em diferentes reportagens: fala-se de cortes de 8000 a mais de 11000 bolsas em 2019, e em 2020, de cortes de até 50% das bolsas para programas de pós-graduação com notas 3, 4 e 5 – concentrados, via de regra, nas regiões mais pobres – e de cortes de até 20% para os programas com notas 6 e 7. Quanto ao funcionamento das universidades federais, como também sabemos todos, não é apenas a UFRJ que está sob o risco de ter de fechar as suas portas por falta de verba, especialmente quando se der o retorno das aulas presenciais. E nesse horizonte há ainda o FUTURE-SE, o projeto de lei 3076/2020, que se aprovado conforme alertado por muitos acadêmicos será o primeiro passo “para que o Estado se desobrigue do financiamento público da educação superior” – algo que com ou sem FUTURE-SE já é um presente. E, nesse sentido, vale lembrar que mesmo a educação básica, anunciada como prioridade do seu governo, não só recebeu o menor orçamento desde de 2011, como o Ministério da Educação conseguiu a proeza de, em tempos de pandemia e ensino remoto, não aplicar todos os recursos, mas apenas 71% do pouco que estava destinado. Que o presidente tenha ainda vetado integralmente o Projeto de Lei 3477, conhecido como PL da Conectividade, aprovado pela Câmara e pelo Senado, que pretendia assegurar internet grátis a professores e alunos da rede pública, ou que o atual Ministro da Educação tenha também sido contra esse projeto de lei pela alegação estúpida de que a distribuição de tablets, chips e conexão não seria uma solução para o problema do ensino remoto para jovens e crianças que justamente não têm aparelhos eletrônicos ou conectividade à internet, são variações de uma mesma mediocridade e ressentimento que se desdobra em ataque.

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Treinamento de pentatlo na Academia das Agulhas Negras, em 1977, no Rio. Foto: Família Bolsonaro

Desse modo, não é indicativo de uma diferença de substância para com o projeto bolsonarista que o personagem Piotr Stiepanovitch chegue ao paroxismo de defender abertamente a necessidade de eliminar os traços de genialidade já na primeira infância através do rebaixamento da educação e da ciência, ou de expulsar e executar os indivíduos que tenham se firmado minimamente como talentosos. Quando, de outro lado, tampouco é possível negar que o extermínio dos talentos antes que possam se tornar “superiores” é um problema que diz respeito ao Brasil muito antes de Bolsonaro. Se pensarmos no imenso contingente de pessoas negras e pobres que tiveram os seus talentos ceifados já na primeira infância, por falta das mínimas condições materiais e sociais favoráveis ao seu desenvolvimento; ou nos indivíduos que apesar de furarem o cerco, tiveram por isso mesmo a sua vida executada – e aqui é inevitável render homenagem a Marielle Franco; ou ainda se apenas relembrarmos da conhecidíssima declaração de Darcy Ribeiro de que “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é projeto”; não é possível dizer que uma política algo deliberada a favor de uma “igualdade na escravidão” seja para nós exatamente uma novidade.

A novidade é que Bolsonaro – quiçá de modo menos consciente e mais instintivo e atabalhoado do que o seu duplo literário –, parece ser capaz de encarar esse projeto de crise permanente na educação até que não sobre nada dela, sem maiores necessidades de escamoteações; dado o seu fito claro de  restringir a maioria às condições mais abjetas, limitadas e limitantes, de modo a um indivíduo mediano como ele poder sonhar em exercer um despotismo ilimitado que nos bons tempos de campanha para presidente, ele jurava que lhe possibilitaria metralhar opositores políticos. O ponto, porém, que interessa aqui destacar até por parecer um fato incontestável é que os principais “quadros” políticos do governo Bolsonaro, tal como ele, caracterizam-se, via de regra, por uma ânsia autoritária, que se confunde com uma militância anti-intelectualista em proporção direta à ausência do preparo intelectual e profissional requeridos para os altos cargos que lhe foram atribuídos. Assim, é quase uma obviedade o que aqui reivindicamos como descoberta: que os principais representantes do bolsonarismo apresentam as duas características psicológicas que mais se destacam no personagem Piotr Stiepanovitch – uma ânsia demasiada por domínio e primazia que é decorrente de um profundo ressentimento pela própria mediocridade e daí que uma tal ânsia seja dirigida de modo mais concentrado àqueles cujo conhecimento a própria sociedade reconhece como superior – o que numa situação de pandemia mundial desdobrou-se no genocídio que, de modo mais ou menos direto, todos nós sentimos na pele.

De modo a aplicar as considerações acima à nossa realidade imediata, retornemos um pouco no tempo, para o momento anterior à pandemia e analisemos, por assim dizer, o bolsonarismo raiz. Pois ao pensarmos em Damares, ou nos idos Ministros Abraham Weintraub e Ernesto Araújo é quase uma obviedade que o destaque que obtiveram deveu-se à militância anti-intelectualista que, em não poucos momentos, chegou ao extremo de flertar com a loucura. Vale lembrar que o primeiro Ministro da Educação do governo Bolsonaro, Ricardo Velez, chegou abertamente a decretar a não existência da “ideia de que o ensino superior deve ser para todos” – o que recentemente foi repetido  pelo seu mais novo sucessor, Milton Ribeiro; como também vale lembrar que Abraham Weintraub fez questão de dedicar o último número do seu Ministério à expansão dessa não-existência, posto que anulou sorrateiramente a portaria que visava a inclusão de negros, indígenas e pessoas com deficiência nas pós-graduações das instituições federais. Nos seus esforços de manter as chamadas minorias na igualdade da escravidão, Weintraub, lembremos ainda, fez chegar ao Supremo Tribunal Federal a “necessidade” de operações policiais nas universidades públicas com o fito paradoxal de impedir a propaganda eleitoral irregular; além de ter tentado institucionalizar a espionagem ideológica e denúncia dos alunos e seus pais para com seus professores. O que inclusive se coaduna com outra das demais estratégias que conduzem ao ideal político acalentado pelo personagem Piotr Stiepanovitch: “cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado é delatar. Cada um pertence a todos e todos a cada um. […] Nos casos extremos recorre-se à calunia e ao assassinato”, descreve sem meias palavras. Ora, talvez seja até o caso de considerar que esse absurdo ex-ministro da Educação e atual diretor-executivo do Banco Mundial, vai ainda mais longe no fanatismo do que o próprio Piotr, para o caso de levarmos à sério sua temerária declaração, em agosto do ano passado, de que a “Pena de Morte pode nos devolver a esperança”.

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No caso de Damares Alves e Ernesto Araújo, a confusão entre a ânsia desmesurada por domínio, o ressentimento pela própria mediocridade e o descrédito às ciências e aos “talentos superiores” atinge o nível do insuportavelmente didático, na medida em que uma confusão dessa magnitude possa ser algo como didática. Damares, nossa Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – cujo grau de fantástico possivelmente não seria antevisto sequer por um Dostoiévski como passível de concretude –, chegou a postular a necessidade de a ciência estar subordinada ao Cristo evangélico com quem ela conversou na goiabeira; postulado que, num debate muito mais sofisticado, embora não por isso menos violento, julgávamos, do alto da nossa sapiência, encerrado na Idade Média. Conforme bastante noticiado em janeiro de 2019, Damares chegou a declarar numa entrevista que a “Igreja Evangélica perdeu espaço na história” ao deixar a “Teoria da Evolução entrar nas escolas”, ao não “ocupar” a ciência. Para ministra era então uma espécie de paradoxo que “os cientistas” tenham tomado “conta dessa área”, isto é, a ciência, que a Igreja Evangélica tenha deixado “a ciência para lá […] caminhando sozinha”. Notadamente desprovida de qualquer traço de genialidade e, o que é muito mais grave, de uma formação acadêmica e cultural minimamente robusta, Damares só pode garantir a sua superioridade e a dos seus pares ante o “despotismo” dos cientistas, através de uma eleição votada exclusivamente pelo Deus com quem testemunhou ter conversado.

E nesse sentido é que se desfaz a coincidência de que tantos Ministros do governo Bolsonaro tenham mentido no sentido de “incrementar” a sua formação acadêmica: Ricardo Vélez, Weintraub, Ricardo Salles, Dacotelli (o único massacrado pelo “incremento”) e, mais uma vez, a nossa Damares que, também nesse caso, é exemplar na sua insensatez original. Afinal, quando questionada sobre os títulos de mestre em “educação” e em “direito constitucional e direito da família” que declarou ter, sem que efetivamente os tivesse, a sua resposta não poderia confirmar com maior precisão a tese que estamos aqui a defender. Disse a ministra sobre os seus títulos declarados, embora inexistentes: “Diferentemente do mestre secular, que precisa ir a uma universidade para fazer mestrado, nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico”. Note-se que nesses variados casos que conduzem ao mesmo – a declaração de uma formação acadêmica (muito) superior à que se efetivamente tem –, temos, como identificara o mestre dos metres, o gigante Fiódor Dostoiévski: não exatamente atos, mas um mesmo “caso psicológico”, uma mesma “atitude psicológica” – por sua vez, característica ao fenômeno do bolsonarismo, representado na figura do seu Messias.

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Muito embora pudéssemos seguir analisando os inúmeros “quadros” do governo Bolsonaro nessa toada até o show na temporada da cloroquina da CPI da Covid, contentemo-nos, para concluir, com o ex-Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, cuja ânsia delirante por primazia revelou-se nas macrodimensões das relações internacionais. Pois no seu textículo intitulado “Querer grandeza”, bastante divulgado pelas mídias antes da sua posse, Araújo se deu a tarefa de contestar as “tradições diplomáticas brasileiras”, as quais, segundo trocadilho de sua autoria, seriam a expressão da desistência de transformar o Brasil de “um país grande” num “grande país”. Num arroubo patológico de genialidade imaginária, Araújo advogou que o “desejo de grandeza é o que de mais nobre pode haver numa nação que se coloca diante do mundo”, e diagnosticou que o problema dos brasileiros seria justamente repudiar esse desejo, sendo por isso, segundo ele, que nos contentaríamos, no que diz respeito às relações internacionais, com a condição de “bom aluno na escola do globalismo”; e o que é pior: um bom aluno que jamais quererá ser o “melhor”, posto que querer ser o “melhor” é algo que vai de encontro à “vontade de grandeza” que, segundo ele coloca, é justamente o que nós brasileiros “repudiamos” e que ele, libertado das correntes dessa caverna pelo olavismo, não. Que o seu “remédio de voltar a querer a grandeza”, tenha convertido o Brasil em “pária internacional”, segundo as suas próprias palavras em outubro do ano passado, é a prova dura e amarga de que o “talento” não é fruto de algo como um “querer grandeza”, mas, em primeiríssimo lugar, de uma boa formação educacional e cultural, do estudo e trabalho árduos; e quiçá, no caso dos insuperavelmente grandes e extraordinários, como os Shakespeares e Dostoiévskis das mais diferentes áreas, também de alguma uma espécie de talento inato – dado pela natureza, como diria Kant (ou pela ciência, como vêm pretendendo aqueles que trabalham para além dos limites da ética com mutações genéticas; pois a ciência, convenhamos, a despeito do ganido bolsonarista, sempre trabalhou para além dos limites da ética…).

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