O estupro

“Logo que fui sequestrada por esse monstro e trancafiada nesse cômodo de madeira, gritei, esperneei, chutei a porta e as paredes até perder a voz”

Ilustração: Thais Paola Galvez
uma crônica de Patrícia Farias

Estava amarrada, aliás, as minhas mãos estavam amarradas para trás. Não sei precisar quanto tempo esse monstro me manteve presa nesse cubículo sem janelas, apenas uma porta e um claraboia como ventilação. Perdi a noção do tempo, do passar das horas e dos dias. Fazia as minhas necessidades num buraco e mesmo tampando com uma tábua o cheiro era insuportável.

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Logo que fui sequestrada por esse monstro e trancafiada nesse cômodo de madeira, gritei, esperneei, chutei a porta e as paredes até perder a voz. Como não amordaçou minha boca, percebi que estava confinada num local muito distante de qualquer região habitada.

O monstro me fazia duas visitas ao dia: a primeira para a sessão de tortura e a segunda para me deixar água e comida. Tinha que comer e beber como um animal, pois não podia usar as mãos. Empurrava a tábua do buraco e me aliviava de cócoras, depois tornava a tapar o buraco com a tábua. E não me limpava. Não tomei banho durante todo o tempo em que permaneci ali, nem eu me aguentava mais. Mas o porco nojento devia se excitar com o meu cheiro porque me chupava e me lambia, o verme.

Na última vez que evacuei a tábua caiu e ficou presa na transversal. Tentei, tentei, mas não consegui resgatá-la. O monstro percebeu, mas não se incomodou. Deixou a comida e saiu. As moscas invadiram. Lambi o prato e bebi um pouco da água do copo, o que foi possível alcançar com a minha língua. Como o zumbido incessante e o mau cheiro me causaram náuseas, pus toda a comida pra fora. Dormi ou desmaiei em cima do vômito. Acho que estava ficando doente.

Na última visita para ‘brincar comigo’, pedi pelo o amor de Deus para que me soltasse ou pelo menos que tapasse o buraco. Eu não aguentava mais. Chorei e me desesperei porque não tinha mais forças.

Ao final das sessões, desmaiava. Depois acordava faminta e me alimentava como um bicho. Acostumei com o zumbido das moscas, com o cheiro da vala, com o meu próprio cheiro. Deixei de me importar. Só desejava morrer.

Então o monstro entrou e me mandou ficar de joelhos. Baixou o zíper da calça e colocou para fora. Mandou que eu colocasse a boca no seu pinto fedido, me mandou chupar aquele pinto duro e fedido. Ele não podia me obrigar a abrir a boca. O monstro grunhiu, berrou, me xingou e depois me surrou com vários tapas na cara e na orelha. Meu ouvido zumbiu como uma casa de marimbondos.

O monstro esfregava o pinto duro e fedido na minha cara. Então abri a boca. Vamos acabar logo com isso de uma vez. Fechei os dentes com toda a força concentrada nas minhas mandíbulas. O monstro urrava e dava com as duas mãos na minha cabeça. Eu não podia voltar atrás, precisava resistir. Era a minha única chance. Travei as mandíbulas como um crocodilo ou um pitbull. O sangramento daquele pinto mole e fedido mudou o gosto na minha boca quando, depois de alguns minutos que pareceram horas, arranquei e cuspi o seu cogumelo roxo. O monstro caiu desfalecido, se esvaindo em sangue.

A porta estava apenas entreaberta, mas na emoção da fuga tropecei na soleira e fui ao chão. Olhei de relance em direção ao interior do meu cativeiro, receando que o monstro estivesse no meu encalço. Parecia morto.

Difícil correr com as mãos amarradas nas costas. Mas corri o mais que pude seguindo a trilha que encontrei na floresta. Corri muito, até a exaustão. Com o coração disparado e a respiração opressa, parei pra tentar me recompor. E chorei de alegria, de desespero, de ódio, de tudo, numa mescla de sentimentos que não consigo nomear.

O som da mata, dos pássaros, dos insetos, do vento na folhagem filtrando os raios de sol, acalmou meu espírito. Caminhei rápido no plano e com dificuldade nos trechos mais íngremes. Enfrentei alguns obstáculos: árvores caídas, pedras no caminho.

Depois de algumas horas de caminhada ouvi buzinas, barulho de automóveis. Na beira da estrada gritava por ajuda para os carros e caminhões que passavam em alta velocidade. Mas era inútil. Quem ia parar pra socorrer uma mulher com as mãos amarradas, toda ensanguentada, suja e machucada? Só podia ser uma emboscada, um assalto. Daí tomei a decisão: me atirar na frente do próximo caminhão que passasse. Foi quando vocês apareceram.

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Patrícia Farias, vulgo Pati Farias, nasceu em Porto Alegre, RS, em 1997. Tentando graduar-se em Letras pela UFRGS, se auto-intitula Deusa, anjo, bruxa, rainha, mas cansa de ser chamada ou tratada como louca, puta, vadia. O conto “O Estupro” é a sua estréia literária fora de sua timeline da rede social.

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