O diário de Zé Ricardo: segunda-feira

As desventuras de um vendedor de seguros feio, velho e desatualizado que não gosta do chefe nem de sindicalistas…

Imagem: Neo Stocker
por João Teixeira

Segunda Feira, 23/03

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Há alguns dias tenho notado que o olhar dele para mim mudou. Foi como se nesses oito anos, desde que virou chefe da repartição, ele nunca houvesse me notado. De uma hora para outra, boom! Eu caí como um meteoro na vida dele. Meteoro. Acho que não. Acho que muito mais para um picão, desses que grudam na roupa quando a gente sai para dar um passeio no mato no interior. Isso. De uma hora para outra eu virei um picão na roupa do meu chefe.

O Márcio é um cara que, no começo, eu até conseguia admirar, um cara que construiu uma carreira importante na firma. Importante para quem? Com certeza não para mim. Em pouco tempo eu já percebi que ele não passa de um otário. Quem se importa se você tem um bom salário e um cargo de coordenador numa empresa de seguros? Grande bosta. O cara fede a gel de cabelo. Se tem um cheiro que mais me irrita nesse mundo, é gel de cabelo. Idiota. E ainda fica falando tudo abreviado. Poxa, vamos tomar uma cerva hoje, pessu? Quer dizer, que tipo de gente se refere a minutos com a palavra min? Vou chegar aí em vinte e cinco min, belê? Fica se gabando por saber usar esses programas novos de análise de risco. E quando atende um cliente só falta lamber os pés do cidadão. Simpatia em pessoa. Pergunta dos filhos, pede uma indicação de uma boa escola particular para o filho retardado dele. E a sua vó, está melhor daquela gripe? O cara não sabe nem o nome da velha. Aliás, se ele tivesse esse poder, colocaria o pior dos cânceres no corpo da senhora, para vender a apólice mais cara.

Pros infernos com isso, eu sou da velha escola. Do tempo em que a gente ia com uma pasta na casa do cliente e já colocava os pingos nos is. Apavorava mesmo. O valor é esse, você quer morrer e deixar sua família com uma mão na frente e a outra atrás? Por que o que você deixar vai tudo para a receita federal, sabia? Não? Então assina aqui. Obrigado, tenha certeza de que fez um bom negócio. Tchau e benção. Se não fechasse negócio, ia de casa em casa até encontrar um empresário com uma família grande e um belo problema crônico de saúde. Mas parece que o mundo mudou, não é mesmo? As pessoas estão carentes. Querem que você faça um leitinho quente para elas e leve na cama. Que diga que não se preocupem, a empresa vai tomar conta de tudo quando você partir. Meu estilo não vende mais. Essa geração nova está dominando tudo, expurgando o pessoal da minha época.

Leia também:  Sem tempo de terminar a escrita | por Fernanda Noal

Bom, se eu tinha dúvida de que ele estava encanado comigo, hoje tive certeza que sim. Meu dia já começou bem filha da puta. Acordei vinte e seis minutos atrasado porque a porra da pilha do despertador acabou. Por sorte meu corpo já está acostumado com esse horário infeliz e não deixou que eu me atrasasse mais que isso. 5h45 da madrugada. Esse é o horário que me levanto todos os dias. Vou dar uma olhada na mamãe. Moramos só eu e ela. Ela tem diabetes e tenho que medir a pressão e a insulina dela todas as manhãs. Ligo o rádio na CBN para ir ouvindo as notícias enquanto passo um café. Tomo banho e saio. Esse é meu ritual toda manhã. Mas hoje não teve insulina, CBN, nem café. Dei um pulo do gato, coloquei a roupa. A mesma que uso a semana inteira. Acho lavar roupa um saco. Tenho quatro conjuntos de calça, camisa social branca e gravata. Um para cada semana do mês. Às vezes o mês tem cinco semanas e tenho que fazer uma logística para distribuir os dias que sobram entre os quatro conjuntos.

Corri que nem um jegue para o terminal Santo Amaro. Quinze minutos de trote, caminhando seriam trinta. Correndo e tentando fumar. Não posso entrar no onibus sem fumar um cigarro, se não fico em ponto de matar um. Das vezes que fiz isso sempre arrumei uma confusão. Uma vez tomei um tapão de um fortão. Pisei no pé dele e me neguei a pedir desculpas. Vai pra casa do caralho, não tá vendo que essa merda tá lotada? Foi o suficiente pro bombadão se enfezar. Pow! Um tabefe bem no coco. Meus óculos foram pro chão. A multidão espremida naquela lata de sardinha ficou sapateando em cima deles até que eu conseguisse pegar. Claro que já estava todo arrebentado, sem remédio. Nesse dia voltei com uma dor de cabeça terrível para casa. Fiquei lendo sem os óculos o dia inteiro. Tive que tomar umas dipironas e meia garrafa de conhaque. No dia seguinte acordei zerado. Não adianta, não posso viver sem a minha nicotina matinal.

Leia também:  Das mortes que me ressuscitam | por Helena Arruda

O terminal estava abarrotado. Cinco filas! Cinco Filas para entrar no Terminal Bandeira. De cair o cú da bunda. Pelo menos eu não tinha fama de atrasildo na empresa. Sempre cumpri o horário certinho. Bato o ponto redondo, nem um minuto a mais, nem a menos. Nesses quinze anos devo ter atrasado umas três vezes. Isso deveria contar para limpar a minha barra.

Primeira fila embarcou. Segunda Fila embarcou. Terceira. Quarta. Quinta. Me escorei no cantinho que sempre fico. Nem penso em procurar assento. Ficar pensando que vai conseguir sentar no ônibus de manhã só te deixa mais frustrado e estressado. Bobagem. Vou no meu cantinho de sempre onde ninguém quer ir. Um trânsito do caralho, como todas as manhãs. Aquela fumaça de ônibus entrando para dentro e deixando todo mundo enjoado. Sol de rachar. Cheguei na Eloy às 8h23. Meu horário é as 8h00. Bati o ponto e saí correndo para minha mesa.

Eaí, Teixeira, o Márcio tá na área? Tá sim Zé, e já perguntou de você. Porra, o que aquele merda queria comigo? Será que veio cobrar o atraso? Ou só queria saber dos relatórios que ficaram pendentes da semana passada? Achei que ele não encanaria no atraso. Ou talvez só perguntaria se havia acontecido alguma coisa. Lá veio ele. Chegou cedo para o almoço hein, Zé? Falei para ele que o terminal Santo Amaro estava impossível. Não quero saber de Santo Amaro nem de Santo Antônio nem de Santo Expedito. Um monte de relatório para essa semana e você me dá uma dessas. Não é porque você já é um senhor de idade que eu vou relevar não, viu?

Senhor de idade? Esse porra acha que eu tenho quantos anos? Quarenta e sete e eu já sou considerado um idoso por esse idiota? Puta que pariu, os outros idiotas da repartição estão sempre chegando atrasados e o Márcio não fala nada. Acho que ele tem implicância com os mais velhos. Não. Na verdade eu já sei que a implicância é comigo mesmo. Não é questão de idade. Tenho notado os olhares. Quando me topa pelo corredor é aquela cara de quem comeu coisa estragada. O bom dia parece que é feito de arame farpado, dói para sair. Aquela cara azeda que faz você se questionar se fez alguma coisa que ofendeu a pessoa em outra ocasião. Não muito explícita. Na medida. Na dose certa para você notar que é incômodo. Talvez seja a minha voz, vai saber. Ou a minha cara mesmo. Tenho que admitir que não sou a pessoa mais apresentável do mundo. Até minha mãe já me disse que me acha feio. Talvez seja isso. Minha aparência não agrada ele. Minha aparência e a minha voz. Agora sei que não posso vacilar, por que sei que ele não gosta da minha cara e da minha voz. Tudo bem. Engoli a seco a chamada de atenção e corri com os relatórios. Nem fiz hora de almoço, comi uma coxinha no bar do Seu Manoel lá embaixo e logo voltei. Consegui adiantar bastante coisa. O atraso seria descontado de qualquer forma, mas consegui colocar o serviço em dia.

Leia também:  Palavra-lava | por Fernanda Noal

Cheguei em casa umas 19h15. Até que o trânsito estava bom para voltar. Mamãe estava assistindo TV, como sempre. Mediu a pressão e a insulina, mãe? Desculpa, acordei atrasado, não tive tempo de fazer nada de manhã. A pilha do relógio falhou, mas já comprei outra. Medi sim, filho, tudo em ordem fica em paz. Olha lá, tão falando aí que vai mudar aquela lei de trabalho lá. Diz que os patrão agora vai poder demitir sem pagar nada. Deu mó quebra pau hoje lá na frente da câmara. Os sindicalistas quebraram tudo lá.

Nem dei atenção, não me ligo nessas coisas de política. Quebrar tudo vai adiantar alguma coisa? Esse papo de sindicalista eu nunca gostei. Já me convidaram para me sindicalizar várias vezes. Papo de arruaceiro. É melhor trabalhar certinho para não ser mandado embora do que ficar levando borrachada de policial em manifestação. Papo de cachaceiro. Não querem trabalhar. E outra, até parece que essa lei vai mudar mesmo. Nessa de direitos trabalhistas ninguém mexe. Isso daí já tá na Constituição faz muito tempo. Agora vou lá comprar cigarro que já acabou o maço. Até amanhã.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Continua…

Deixe uma resposta