O diário de Zé Ricardo: quinta-feira

“Na TV do bar passava a notícia de que o Presidente tinha sancionado a nova lei trabalhista. As centrais sindicais lá em Brasília quebrando tudo”

Imagem: Photobank gallery
por João Teixeira

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Quinta-feira, 26/03

Acordei e fui dar uma olhada na mamãe. A situação não era nada boa. Pressão 16/10. Índice glicêmico lá em cima. Mãe, quantos dedos tem aqui? Tudo errado. Minha visão tá preta filho, tô sentindo um calorão. Puta merda. Tinha que levar ela para o hospital de qualquer jeito, e rápido. Aqui em São Paulo nem adianta chamar ambulância. Se a pessoa não tá espatifada no chão já, é melhor pegar logo um táxi e pedir pro motorista pisar fundo no acelerador. Corri para a cozinha e peguei o número da companhia de táxi daqui do bairro. Chegaria em 8 minutos. Aguenta aí, mãe, que o homem do táxi tá vindo. Vamos pro hospital. Ai filho, tá bom, não gosto de hospital, mas eu não tô bem não, vamos sim. Vai ficar tudo bem, mãe. Coloquei um roupão e chinelos nela e descemos. Chegou o táxi. Amigão, por favor toca o mais rápido que você puder aí pro Hospital Santo Amaro. Pode pisar, faço um cheque pra você segurar, se vier multa depois você desconta ele. Mãe, tudo bem? Ai filho, estou com muita dor no peito, meu braço está formigando.

6:40 da manhã. Chegamos lá em 15 minutos. A velha não estava nada bem. Se contorcia com dores no peito. A essa altura eu já imaginava que estivesse tendo um infarto. Deus queira que ainda não seja a hora dela. Ainda não estou preparado para estar sozinho neste mundo. Quer dizer, tem a minha tia Iracy, mas ela não vai muito com a minha cara pra falar a verdade, depois que o meu primo morreu ela meio que pegou raiva de mim. Até hoje não entendo o porquê, se eu não tive nada a ver com isso.

Ela disse pra minha mãe uma vez que eu sou um traste, que não quero nada com nada, que a Lídia morreu por minha causa. E que rapaz bom mesmo era o Elton, filho dela. O Elton estava terminando a faculdade de engenharia e morreu de uma maneira trágica, em um acidente de carro. O garoto gostava de correr, o laudo da polícia mostrou que ele estava em alta velocidade. Mas ela não quer acreditar, quer por a culpa em alguém. Descontar a raiva em alguém. Acho que eu fui o escolhido, só não sei o motivo. Não culpo ela. Sei a dor de perder uma pessoa querida de repente, a gente não fica bem da cabeça depois de passar por essas coisas não.

Fora a Tia Iracy, não sobrava ninguém. Seria eu e eu. Ninguém para avisar quando chegasse em casa. Ninguém para dizer para onde eu ia quando fosse sair. Natal ouvindo a rádio CBN. Aniversário com a turma do bar? Talvez. Talvez aquele bar se tornasse então a minha casa. Talvez eu encurtasse a minha vida como meu velho encurtou a dele. Sozinho no mundo? Só sei que no caminho todo eu pensava na Gisele. Se eu conseguisse agir, tirar ela do radar do Márcio, teria uma chance de não ficar sozinho no mundo.

Bom dia, moça, minha mãe é diabética, a pressão dela está muito alta, ela não está enxergando e está com dor forte no peito. É uma emergência. Tudo bem, só preciso do cartão do convênio. Eu acabei de dizer que é uma emergência e a filha da puta me pede o cartão do convênio. Não sei nem se escovei os dentes antes de sair, quem dirá se lembrei de pegar o cartão do convênio. Mas é emergência, moça. Sim, senhor, só me empresta o cartão do plano de saúde que eu agilizo o atendimento, ela vai passar na frente, mas preciso da liberação do plano. Puta merda. Por sorte olhei na carteira e o cartão estava lá. Toma aqui, sua puta gorda do caralho, tive vontade de falar. O convênio aprovou o atendimento. Logo veio uma maca lá de dentro e colocaram ela. Fui acompanhando até um ponto que o enfermeiro disse que eu deveria aguardar ali. Esperei por uma hora na sala de espera. Veio o médico. Sua mãe teve um infarto leve, já conseguimos estabilizar a pressão dela, não vamos precisar realizar intervenção cirúrgica, mas ela vai ter que ficar internada pelo menos três dias, ok? Fui lá ver a velha. Já eram 8:45. Liguei para a tia Iracy. Depois de muita discussão consegui convencer aquela velha insensível a vir ficar com a mamãe. Fui correndo para casa me trocar para ir para a Eloy. Relatórios. Márcio. Metas. Não dava para perder um dia de serviço.

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Cheguei lá na Eloy 9:30. Uma hora e meia de atraso. E aí, virou festa agora Zé Ricardo? Dei de cara com o Márcio assim que cheguei no andar. Não, Márcio, dessa vez a coisa foi séria mesmo. Sério são os clientes que vamos perder se você continuar negligenciando o seu serviço. Não, não, Márcio, de verdade, minha mãe teve um infarto hoje, olha aqui, eu trouxe o atestado médico para comprovar. Ele pegou o papel. Ficou olhando um tempão, linha por linha, lendo o nome do hospital, o horário de entrada, o parecer do médico. Olhava para mim. Olhava para o papel. Olhava a frente, olhava o verso. Ficou com uma cara azeda, ficou olhando e pensando um tempão, até que conseguiu falar: mas você vai poder trabalhar hoje? Sim, eu vim aqui pra isso, Márcio. Tá bom, vai lá então e tenta dar uma agilizada que você está com serviço atrasado, melhoras para a sua mãe. Saiu com uma cara de ódio. Por quê?

Eu sentia que aquela cara de ódio era não só para mim, mas era também para a mamãe. O cara estava com ódio da minha mãe, porque ela teve um infarto. Acho que se dependesse dele ele mandaria a velha pro inferno, para aquele atraso nunca mais se repetir. Se perdesse clientes a culpa era da velha, ele não perdoaria isso. A premiação dele quando o setor bate a meta anual é bem alta. Se por acaso não batesse, se ele não pudesse levar o filho para os Estados Unidos esse ano, a culpa seria da velha. Márcio queria a minha mãe em um caixão. Eu pude sentir que esse era o sentimento dele. Em uma fração de segundos eu pude sentir. Sem que ele dissesse nada. Por causa daquela bufada de ar, aquela apertada no maxilar. Ele não precisava falar, eu simplesmente senti.

Fui para a minha mesa. Contei a situação para o Teixeira, ele ficou preocupado. Demonstrou um pouco de humanidade. Vamos almoçar juntos hoje, Zé, esfriar essa cabeça, cara. E fomos. Apesar de toda aquela preocupação, não conseguia tirar a Gisele da cabeça. Abri o jogo com o Teixeira. Contei para ele o meu sentimento pela Gisele. Ele deu risada. Falou que o susto de hoje tinha mexido com a minha cabeça, que eu surtei e estava louco. Essa aí já é do Márcio, esquece, Zé. Além do mais, sua lata já está meio velha para a Gisele, não acha? Vai pra merda, Teixeira. Eu gostava do Teixeira, mas ele me irritava por que apesar de ele ser falido e frustrado que nem eu, ele se contentava com isso. Nunca vi o Teixeira reclamar de nada, para ele estava sempre tudo numa boa. Nunca arrumou problema na Eloy, mas também nunca foi promovido, e para ele estava tudo bem. Tinha uma mulher que não gostava dele e um filho rockeiro meio bixa, mas estava tudo bem. Eu queria ser que nem o Teixeira. Ó lá, Zé! Na TV do bar passava a notícia de que o Presidente tinha sancionado a nova lei trabalhista. As centrais sindicais lá em Brasília quebrando tudo, parecia mais uma praça de guerra. “Grande vitória para a economia brasileira”, dizia em entrevista o deputado redator da emenda.”Agora o Brasil tem a oportunidade de voltar a crescer. Vamos dar mais fluidez ao mercado de trabalho e facilitar a criação de novas vagas.”. Me parecia uma boa coisa, a criação de novas vagas de emprego, realmente o desemprego estava coisa de louco, alguém precisava fazer algumas coisa.

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Voltamos para o andar. Nada da Gisele. Eu já estava começando a pensar que ela estava indo tirar as cópias no andar de baixo. Provavelmente o Márcio disse para ela não ficar muito próxima de mim. Ele notou a conexão entre nós dois e ficou com medo de perdê-la. Com certeza foi isso. O Márcio estava com medo de perder ela para mim, era inegável que ela tinha mais afinidade comigo do que com ele. Pronto. Era só eu esperar para cruzar com ela no corredor. Ia dar tudo certo. Lá veio a Simone do RH. Boa tarde, Zé, tudo bem? Pode dar um pulinho no RH agora, por favor? Fui lá. Você prefere José ou Ricardo? Pode ser Zé Ricardo mesmo. Olha, Zé, infelizmente foi aprovado um corte de pessoal aqui na Eloy hoje, o Márcio disse que tava tendo problemas com você. Você será desligado da empresa com base na nova lei sancionada pelo presidente hoje. Nova lei? Sim, Zé. Você vai receber somente o pagamento do salário que a Eloy te deve e estará dispensado. Mas estou há quinze anos aqui, como assim? Cortes são cortes, Zé, a nova legislação nos permite.

Cortes são cortes. Fui para a minha mesa recolher minhas coisas. Quinze anos de firma. Para sair assim sem mais nem menos. Agora com quarenta e sete, quem contrataria um corretor obsoleto como eu? O Teixeira ficou lá perguntando o que tinha acontecido. Não queria falar com ele. Mesmo se eu quisesse. Tinha certeza que engasgaria com as palavras. Estava com um nó na garganta. Se eu abrisse a boca, choraria. Eu lá sou homem para chorar na frente de outro homem? Chamei o elevador, a Gisele saiu de dentro dele. Esperei tanto por aquele momento, para falar com a Gisele. Meu pai sempre dizia que homem não chora na frente de mulher, elas odeiam isso, não tem coisa mais ridícula. Ela sorriu para mim. Abaixei a cabeça e segurei a porta do elevador para ela sair. Não falei nada. A Gisele estranhou. Zé, tá tudo bem? Não respondi. Fiquei apertando o botão do térreo repetidamente, desesperado com medo de não conseguir segurar o choro na frente da Gisele. Zé? Zé? A porta se fechava e ela olhava para mim. Os olhos fundos da Gisele. Com olheiras, mas puros, lindos. Os olhos da Gisele perfuraram meus olhos. Entraram pelo meu crânio e desceram pelas minhas entranhas, dilacerando tudo no caminho. A porta se fechou. Dava tempo de derramar uma ou duas lágrimas antes de chegar no térreo.

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Peguei o ônibus de volta para Santo Amaro. Observando a cidade. Pensando como ela era grande e iria me devorar. Devorar eu e a mamãe. Lamentei de ela não ter partido hoje. Seria melhor que morresse do que ter que encarar a vida que agora teríamos. Quem contrataria um corretor obsoleto como eu? A pensão que ela recebia não dava para nada. No próximo infarto iríamos para um hospital público. Pobre mamãe. Que decepção ser mãe de um Zé. Um Zé Ricardo. Lembrei do dia em que cheguei em casa e contei para ela que havia abandonado a faculdade. É por isso que você não é nada, cara. É por isso que você não é ninguém. Ah, ela me disse: ninguém vive sozinho, seja alguém na vida, se esforce um pouquinho. Deveria ter me esforçado mais. Quem sabe eu teria o emprego do Márcio? Quem sabe eu teria a Gisele? Olho para fora, vejo essas famílias vivendo na rua. Por que eu estou reclamando? Pelo menos eles estão em família. Se a mamãe morrer vai ser só eu e eu. Um corretor obsoleto, sozinho no mundo. Cortes são cortes. Eu deveria ter me esforçado para ser como o Márcio.

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E eu não dava a mínima para aquela conversa de legislação trabalhista. Achava que isso era coisa da indústria, que não tinha nada a ver com a minha profissão. Não dava a mínima para essa de sindicato. Talvez se eu estivesse lá com eles, se todos estivéssemos, isso teria sido evitado. Agora não adianta reclamar. Eu deveria ser mais como o Teixeira. Numa situação dessas o Teixeira estaria numa boa. A cidade é muito grande. O que é um homem de quarenta e sete anos desempregado contra a cidade? Nada. Davi contra Golias. Se a mamãe morre, sou só eu contra a cidade. Sem legislação trabalhista. Sem plano de saúde. Sem Lídia. Sem Gisele. Vou parar por aqui. Vou descer direto no hospital. A tia Iracy já deve ter ido embora. Mamãe está sozinha. Era melhor que tivesse morrido hoje de manhã. Antes vou comprar cigarros. Já vou escolher uma marca mais barata. Boa noite.

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