O dia mais quente da história: deve ser delírio

O dia mais quente da história de São Paulo. Eu fui. Temos relâmpagos pra lá e pra cá. Parece que vai cair uma chuva nunca vista antes

Imagem: reprodução
por fucking leo

Hoje foi o dia mais quente da história. Sem força de expressão. Foi o dia mais quente da história da cidade de São Paulo. Foi tão quente que no meio dele esqueci dos dias não quentes que vivi. Foi como se a vida inteira tivesse sido aquele quente. Até agora parece que não houve dia diferente.

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Quente. Duas horas e trinta minutos da madrugada. E quente. Como era antes disso? Não faço a menor ideia. Se vivi, não lembro. Duas horas e trinta e seis minutos da madrugada. E suando. Se mexer demais, o suor escorre. Não é o dia mais quente do ano. Nem dos últimos vinte anos. É o mais quente da história. Talvez o segundo, mas vamos considerar o mais.

Nunca. Vejam bem: nunca a cidade de São Paulo teve um dia tão quente como o de hoje. Logo a cidade de São Paulo que já teve tudo de tudo. Isso ela nunca tinha tido. Puta meu, se você quiser pizza às duas e trinta da madruga você tem. Tem mesmo. Sempre teve. Agora, esse calor, duvido que alguém tenha pedido.

Quase chorei de verdade. Não sei se era delírio. Se era só meu estado emocional completamente desequilibrado. Se era o calor doendo. Ou se era tudo junto. Sei que chegou uma hora da tarde que quase chorei. Olha esse calor. Completamente desorientado. Vale lembrar que tudo isso se passou na sombra de casa.

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Deu sete da noite e saí correndo pra tomar banho porque tinha aula pra dar às oito. Tinha tomado um banho logo depois do almoço e tinha que tomar outro banho. Fui correndo. Saí do banho correndo. Correndo, assim, andando rápido. Fazendo as coisas rápido. Suei de pingar. Eu correndo e o suor escorrendo.

No meio da tarde, não conseguia fechar um raciocínio bem simples que era só o que faltava pra aula. Deitei na cadeira e levei as mãos à cabeça como quem diz e agora sem falar nada. Olhei pro slide que tava na tela e nele tava escrito: e agora? Se algum vizinho me viu nessa hora, deve ter pensado: alá pensando e agora?

Cinco minutos antes da aula começar fui ao banheiro e lavei meu rosto. Enxuguei com cuidado. Comecei a aula e vi que minha testa já tava brilhando. Galera, vou desligar a câmera aqui porque não gosto de aparecer oleoso assim não. Antes de começar, preciso dizer pra vocês que é o dia mais quente da história de SP.

Falei mesmo. Falei porque precisava já deixar todos avisados que sairia vez ou outra pra ir ao banheiro visto que tomei mil litros de água pra sobreviver. Sobrevivi. Não sei como cheguei ao fim do dia de hoje, mas cheguei. E cheguei feliz por ter vivido esse dia histórico. Foi um dia histórico.

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O dia mais quente da história de São Paulo. Eu fui. A verdade é que comecei a escrever isso só pra falar do céu de agora. O céu de agora é todo vermelho de nuvens carregadas. Temos relâmpagos pra lá e pra cá. Parece que vai cair uma chuva nunca vista antes.

Antes de fechar fazendo a viradinha com moral da história, preciso falar sobre a lua de hoje. Hoje tivemos início da lua cheia. Ela veio não só cheia como veio vermelha. Sempre vi falarem de lua vermelha, mas nunca tinha visto. Hoje vi. Cheia, vermelha. Linda. Inacreditável. Durou pouco porque logo ela subiu e ficou prateada.

Vai. Vamos pra viradinha com moral da história. Tinha tempo que não escrevia assim tão só sobre o dia. Tava sentindo falta de escrever só por escrever assim. Falar do agora como as palavras chegam na hora. Me perdi aqui. Nem lembro mais a moral que queria dar. Tinha a ver com a chuva que ameaça agora.

Todo grande calor

vai acabar numa grande chuva.

O dia mais quente do ano

vai trazer relâmpagos assustadores.

Acho que era por aí.

O pior calor é

aquele

que

não mostra nenhum oásis.

Quente por quente.

Queima por queimar.

Faz suar como faz chorar.

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Calor sem oásis é dor.

Amor sem resposta é

calor

sem

nenhum oásis.

É dor.

Claudinho e Bochecha.

Uma tempestade se anuncia.

E é melhor que nada.

Que chova.

É melhor que nada.

Hoje quase chorei de calor.

Por que tão quente?

Por que?

Calor sem oásis é dor.

Hoje foi tão quente, mas tão quente, que tô escrevendo textão sobre como hoje foi quente. Não só textão. Textão com poesia. Hoje foi o dia mais quente da história de São Paulo. Não me conformo com isso até agora. Tão quente que tô escrevendo sobre como tá tão quente. Deve ser delírio.

Que calor horrível.

Como era antes dele?

Chega. Cansei.

Queria ter completado ali atrás assim:

Que amor horrível.

Como era antes dele?

Mas não tenho nem um amor pra achar ruim.

Na falta de amor, escrevemos sobre o calor.

Faz sentido.

O importante é reclamar.

Que

calor

da

porra.

Que

amor

da

porra.

Hoje quase chorei de calor.

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Meu próximo livro vai ser: o calor não existe e eu vou provar.

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