O dia da quarentena

“Acordou com o alarme às sete e o desligou com raiva – Droga! Em pleno sábado e eu esqueci de desligar essa porcaria – virou para o lado, se ajeitou com seu gato e dormiu novamente”

uma crônica de Thais Paola Galvez

Larissa acordou às sete em ponto com a música calma mas insistente de seu despertador. Ainda sem ânimo de começar o dia, acessou as redes sociais para acompanhar as últimas notícias que, apesar de serem cada vez mais desesperadoras, eram um hábito matinal que ela mantinha.

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Estava uma manhã quente naquele 15 de maio de 2020 e apesar de estar atrasada para a primeira reunião da manhã, não tinha pressa pois como a quarentena já estava em andamento, não precisava de mais do que dez minutos para se arrumar da cintura para cima. Sentou em seu escritório e, portando uma xícara de café quente, treinou seu sorriso para parecer contente na imagem.

A reunião então começou! Potencial cliente, proposta, sorrisos e tentativas de ganhar descontos ocorreram como sempre e, após o encerramento, seu chefe lhe agradeceu pelo empenho e acertaram as tarefas do dia.

Larissa anotou tudo como de costume e seu chefe Gustavo comentou – E como vão as coisas? Algum programa caseiro para o fim de semana?

Sem demonstrar muito ânimo, Larissa respondeu – Tudo na mesma… sem grandes planos, acho que só vou ler e ver séries, e você?

– Está assistindo aquela série que te indiquei? 

– Estou sim, terminei o quinto episódio.

E antes mesmo de Larissa continuar, Gustavo demonstrando empolgação com o assunto, comentou – E tá gostando? Já chegou na parte em que ela mata o agressor?

Com um ar cômico a moça respondeu – Olha o spoiler! Brincadeira, já vi essa parte.

Após a conversa Larissa retomou sua rotina, mas antes resolveu dar uma última conferida nas notícias.

Acessou o primeiro site e se deparou com a manchete, “Mortes por corona vírus chegam a quase mil por dia”. Entrou no segundo site e leu outro título desanimador, “Ministro da Saúde é exonerado do cargo”, e finalizou com “Governo Federal insiste no uso da cloroquina, mesmo sem comprovação científica”.

Larissa então respirou profundamente, olhou para o caderno com as tarefas do dia e resolveu se afundar no trabalho, e só parou quando seu gato subiu no teclado e quase derrubou o resto do café frio em tudo.

Terminado o expediente tomou um banho longo, comeu algo, leu algumas páginas do livro e apagou.

Acordou com o alarme às sete e o desligou com raiva – Droga! Em pleno sábado e eu esqueci de desligar essa porcaria – virou para o lado, se ajeitou com seu gato e dormiu novamente.

A moça despertou pouco depois com um som vindo do celular, só que dessa vez era uma chamada. Olhou para a tela e leu o nome “Gustavo” nela e pensou: “que estranho… deve ter acontecido algo sério para ele me ligar no sábado”.

Com um frio na espinha e já pensando em demissão, Larissa atendeu, mas não sem antes limpar a garganta para não denunciar que acabara de acordar.

– Bom… bom dia Gustavo, tudo bem?

– Bom dia Larissa, tudo bem e você? Aconteceu algo? – perguntou o homem um pouco tenso e preocupado.

Sem entender a pergunta, a moça retornou – Não! Por quê? 

– Larissa, nós temos uma reunião marcada com uma potencial cliente hoje, você esqueceu? Estou há quinze minutos enrolando a cliente na conferência…

Ainda confusa Larissa perguntou: –Mas… você marcou uma reunião no sábado? Não recebi nenhum invite.

– Sábado? – perguntou Gustavo em tom assustado – Você tá bem Larissa?? Hoje é sexta! Bem… estou vendo que você não está bem hoje, então…

Antes mesmo de o chefe completar a frase, Larissa colocou a chamada no viva voz e foi conferir a data no celular.

“Meu Deus! Hoje é sexta-feira, mas… ontem não foi? Hoje?” Seus pensamentos foram então interrompidos por Gustavo que queria solucionar o problema da reunião.

– Desculpa Gustavo, eu confundi os dias. Vou me arrumar rapidamente e apareço em no máximo cinco minutos na reunião.

Gustavo respirou profundamente e respondeu já meio sem paciência – Ok, Larissa… Faça o seu melhor, pois já começamos mal com essa cliente.

Ela correu e conseguiu entrar em menos de cinco minutos na conferência – Olá, bom dia a todos! Peço desculpas, tive alguns problemas com a conexão.

Após apresentar a proposta e fazer um show à parte, a cliente que de início se mostrou resistente, encerrou a reunião mais amigável e aberta a aceitar a proposta.

Com a saída dela da conferência Gustavo parabenizou Larissa por seu empenho e comentou – E como vão as coisas? Algum programa caseiro para o fim de semana?

“Caramba! Meu sonho foi muito real, é exatamente a mesma pergunta e no mesmo momento”, pensou a moça antes de responder.

– Tudo na mesma. Sem grandes planos, só vou ler e ver séries. E você?

Mostrando empolgação, Gustavo perguntou – Está assistindo àquela série que te indiquei?

Considerando tudo muito bizarro a moça respondeu – Estou… terminei o quinto episódio.

– E tá gostando? – e completou antes mesmo de Larissa responder – Já chegou na parte em que ela mata o agressor?

A conversa continuou exatamente como Larissa havia previsto, e se encerrou da mesma forma e no mesmo momento.

Já sabendo suas tarefas do dia Larissa optou por dar uma conferida nas notícias, ainda mais considerando que naquela manhã não havia conseguido olhar nada.

Abriu os principais sites de notícias e começou a ler as manchetes:

“Mortes por coronavírus chegam a quase mil por dia”, “Ministro da Saúde é exonerado do cargo”, e antes de abrir o último site pensou, “agora só falta eu ler sobre a cloroquina e…” A moça entrou em choque quando leu o título, “Governo Federal insiste no uso da cloroquina, mesmo sem comprovação científica”.

Larissa baixou a tela do notebook e ficou paralisada na cadeira, pois não estava acreditando no nível de realidade que seu sonho havia tomado, era praticamente uma premonição. A moça então foi retirada abruptamente de seus pensamentos, quando seu gato saltou em direção ao notebook e quase derrubou o resto de café frio em tudo.

Considerando tudo aquilo muito estranho, mas sem saber bem o que fazer, Larissa optou por simplesmente se afundar no trabalho e passar o dia.

Como de costume encerrou o expediente no horário, tomou seu longo banho, fez sua refeição e mais uma vez apagou após ler algumas páginas do livro.

Pontualmente às sete da manhã foi acordada com o som “relaxante” do alarme. Irritada, ela o desligou certa de que, sendo sábado, não havia porque despertar tão cedo.

Passado algum tempo, o celular voltou a tocar de maneira insistente, “O que será agora…” pensou a moça ao pegar o aparelho, e ao se deparar com o nome do seu chefe no visor, mais uma vez ficou sem entender nada.

 “Agora não faz sentido… hoje é sábado! Será que me saí tão mal assim na reunião?? Será que vou perder o emprego??” Após pensar em todas as possibilidades catastróficas possíveis em apenas alguns segundos, Larissa sem muitas opções atendeu à chamada:

– Bom dia, Gustavo, tudo bem?

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– Bom dia, Larissa, tudo bem, e você? Aconteceu algo??

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