Navio Negreiro

A atmosfera sufocante de um legado ignorado atravessa essa crônica em que passado e presente se encontram na forma de um genocídio deliberado

Imagem: Thais Paola
uma crônica de Diego Abrahão

O calor é infernal, as gotas que escorrem pelo rosto escorregam nos lábios e entram pela boca com o gosto amargo. O local é estreito, as pessoas se embarram uma nas outras, confinadas sem saber exatamente porque estão ali naquela difícil condição.

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Os olhares aflitos são trocados o tempo todo, não há como saber como vão as coisas lá fora. Alguém adoece e é carregado por homens alvos, não sabemos mais se ele regressará. Apreensão, medo e desespero, pois o destino não está em nossas mãos.

Parece que uma enfermidade se alastra entre nós, não sabemos ao certo, mas pelo medo e dúvida estampados no rosto de homens rudes talvez seja grave. A falta do que comer nos enfraquece e nos abate, não podemos ficar muito mais tempo aqui, temos anseio pelas paisagens de nossas memórias e medo de esquecê-las. Estamos há dois meses nessa viagem que parece não ter fim.

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A angústia nos toma, todos descendentes distantes para se ter notícia. Soluços afogados em lembranças que se alongam enquanto o tempo passa. Alguns de nós são obrigados a trabalhar, rezamos para que voltemos bem. Não sabemos ao certo o que acontece lá fora, mas estamos sempre com medo, porque a morte, como um abutre, nos rodeia.

Todos os dias são os mesmos quando se está confinado, sem vidraças que possam tocar a luz vivemos a eterna trevas. A única claridade vem das velas que causam sombras duras em nossas expressões. Alguns regressam e nos falam que estamos a ir para um novo mundo e que tudo será melhor quando acabar.

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Mas sabemos a verdade da dor incrustada em nossa pele, somos alanhados sempre que bradamos, alguns até desencarnados quando não há mais condições de apenas expressar em palavras o infortúnio. Que vida bestial! Será que tudo isso passará?

Um zunzunzum lá de fora esvanece nossas esperanças, uma voz débil nos mostra que destino atroz está por vir entre risadas e aplausos. Não consigo distinguir ao certo de quem é, mas dizem que é do capitão. O pouco que pude entender diz mais ou menos assim:

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“Sr. Presidente, a gente ultrapassou o número de mortos da China por covid-19”. E ele responde “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

Um comentário

  1. Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas
    De teu manto este borrão?… Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!
    Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa… Dize-o tu, severa Musa,
    Musa libérrima, audaz!…
    São os filhos do deserto,
    Onde a terra esposa a luz. Onde vive em campo aberto
    A tribo dos homens nus…
    São os guerreiros ousados
    Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão.
    Ontem simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos,
    Sem luz, sem ar, sem razão. . .
    São mulheres desgraçadas, Como Agar o foi também. Que sedentas, alquebradas, De longe… bem longe vêm… Trazendo com tíbios passos, Filhos e algemas nos braços,

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