Incidente na sala de estar

“Dirigindo-me ao quarto tropecei em um grande volume no chão. Recuperado do susto e mais desperto, olhei para baixo para ver o que era”

Imagem: Maria Kuza
por William Dunne

Largado no sofá da sala, em uma região da consciência entre o sono e a vigília, ouvia os tiros vindos do seriado que passava na TV, em volume bem baixinho. Era uma sexta-feira à noite e, depois do divórcio, engordar em frente à tela comendo amendoins e tomando cerveja barata até capotar tornou-se minha ideia mais econômica do que se poderia chamar de diversão. Quanto mais idiota o seriado, melhor para entorpecer a mente, inebriada por estímulos capazes de a distrair de qualquer fio de pensamento longo de mais, ou de qualquer preocupação pesada de mais.
O inconveniente de dormir assim era acordar muito mais cedo do que eu gostaria de acordar num sábado. O sol entrando pela larga janela batia em cheio na minha cara logo nos primeiros raios de luz entre as nuvens matinais esmerdeadas da metrópole. Como um tapa. Atordoado, eu me levantava sem me lembrar nem dos meus sonhos nem do que eu tinha assistido na noite anterior.

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Sem consultar o calendário, guiando-me por acontecimentos decisivos da minha irrelevante biografia, eu já não saberia dizer há quanto tempo estava vivendo daquela forma. Um ano ou dez, os dias todos iguais iam apagando a percepção da passagem do tempo. Naquele dia minha camiseta estava particularmente suja de restos de pele de amendoim, sal e gordura. Ao me levantar dei algumas batidas na camiseta para afastar a sujeira, que caiu sobre o chão emporcalhando-o um pouco mais, sem que a camiseta ficasse, por sua vez, apresentável. Eu precisaria de um banho e um café para despertar, mas antes tentaria dormir um pouco mais no quarto.

Dirigindo-me ao quarto tropecei em um grande volume no chão. Recuperado do susto e mais desperto, olhei para baixo para ver o que era. Um corpo sem vida estendido na sala bloqueava meu caminho. Não reconheço sua fisionomia. É o corpo de um completo estranho para mim. Uma prova de uma existência anônima que passara por este mundo e de que agora só restava um cadáver como seu vestígio biológico. Um morto apodrecendo na minha frente. Um corpo na sala, morto, compondo junto com o meu corpo, vivo, dois corpos na sala. Pensando assim éramos números: 1+1=2. De modo que 50% das pessoas na sala estavam vivas.

Menciono essa estatística que pode parecer uma ideia esdrúxula porque foi o que me ocorreu antes que eu pensasse em alguma providência concreta para o caso. Não sou uma pessoa prática. Se mais alguém estivesse ali poderia discutir esse fato matemático entre garrafas de cerveja, que nos levariam a outros assuntos sem consequência, soprados displicentemente ao vento, efêmeros como a fumaça dos cigarros, com sua dança imprevisível no ar. Acontece que minha única companhia ali estava morta, então não me restava mais nada além de dar um jeito na situação.

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Antes, contudo, nada me impediria de ir ao banheiro. Estava apertado demais para adiar essa necessidade. Deixei meu novo amigo na sala e fui mijar. Um cheiro de cafeína se levantava do vaso. Precisei tomar muito café no dia anterior para conseguir sobreviver à última tarde de trabalho da semana sem dormir na frente do computador. Era muito difícil me manter acordado sem a ajuda da cafeína. Devo ter tomado uns 10 copinhos de café. Cheguei em casa elétrico, mas a cerveja equilibrou as coisas e eu pude ir dormir. Dizem que uma quantidade moderada de café pode até fazer bem à saúde. Desconfio que essa informação tenha sido plantada pela indústria cafeeira. De qualquer modo, mesmo que isso seja verdade, a quantidade que eu precisava tomar para resistir ao trabalho estava corroendo meu estômago por dentro. Eu precisava ir ao médico, mas sempre adiava esse momento.

Só de imaginar a fila no hospital eu pensava se não seria melhor morrer logo. Infelizmente o morto na sala não poderia me aconselhar sobre isso. Sua última mensagem era definitiva: o silêncio absoluto, anunciando seu estado. Dei descarga e lavei as mãos. Ao retornar à sala o morto continuava ali, no mesmo lugar. Eu precisava resolver aquele problema, tomar providências. Tomei uma resolução repentinamente e, decidido, apanhei o telefone com firmeza e convicção. Mas logo veio a dúvida: ligar para quem? Dizer o quê? Minha cabeça doía, uma leve ressaca me incomodava. Perto do sofá, umas quinze latinhas de cerveja denunciavam a quantidade de álcool ingerida.

Fui até a geladeira na esperança de encontrar alguma garrafa de refrigerante sem gás esquecida. Mas só tinha mesmo água gelada e mais cerveja. O jeito foi tomar outra latinha. Um pouco do veneno daquilo que te mordeu para curar da mordida. Sentei-me à mesa da cozinha e fiquei olhando para os azulejos na parede, brincando mentalmente com os padrões geométricos que podiam ser formados a partir deles. O friozinho da manhã estava congelando, lá fora a neblina encobria toda a paisagem. O corpo na sala devia estar gelado. Tive um calafrio que percorreu toda a minha espinha. Era necessário tomar medidas urgentes para me livrar do cadáver.

Mas eu não desperdiçaria o sábado acordando cedo. Eu poderia acordar a hora que quisesse. Fui para o quarto. Ao passar pela sala, voltando da cozinha, dei bom dia para meu finado e improvável hóspede. Ele não respondeu nada, e eu entrei no quarto entretido ao especular se a pessoa que um dia aquele corpo inanimado tinha sido foi uma pessoa simpática, que daria bom dia sorrindo, ou se foi uma figura antipática, que passaria quieta, com os olhos voltados para a calçada. Já debaixo das cobertas adormeci com esses devaneios na cabeça.

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Cerca de dez horas da manhã o telefone tocou. Fiquei puto da vida com aquela merda. Meio tonto, fui cambaleando até a sala atender. Era propaganda. Desliguei na cara da pobre funcionária mal remunerada do telemarketing. Meu sono estava perdido de uma vez por todas. Agora só poderia descansar novamente quando chegasse a noite, e eu colocaria mais uma vez em algum seriado besta, a que eu assistiria provavelmente tomando umas sozinho. Abri o Tinder para ver as perspectivas de alterar esse desfecho solitário para o meu sábado. Na sala, minha visita continuava em seu sono eterno.

“Onde será que eu almoço hoje?”, pensava comigo, enquanto um incômodo me perseguia: eu precisava tomar alguma providência com relação ao corpo na sala. Antes de almoçar eu gostava de passar por uma livraria perto de casa, e por isso eu costumava sair uma ou duas horas mais cedo. Não era exatamente um compromisso, nenhum contrato me forçava a cumprir essa tarefa. Só que não fazer isso era uma chatice do caralho, eu sentia que meu dia estava arruinado sem dar uma passada na livraria durante as manhãs de sábado, um pouco antes do almoço. De volta ao quarto, pensei, enquanto trocava de roupa para sair: “o defunto pode esperar”.

Olhei-me no espelho. Apesar do meu estilo de vida nos últimos tempos, ainda tinha algum charme embaixo daqueles poucos cabelos grisalhos que me restavam. “Vale a pena eu me arrumar um pouco melhor”, considerei. Despi-me novamente e fui tomar um banho. Um longo banho quente, devo ter ficado pelo menos meia hora sentindo os pingos quentes massagearem minhas costas, pensando na morte da bezerra. Lá pelas tantas lembrei-me da última menina com quem eu tinha ficado, uns vinte dias antes. Repassei mentalmente cada cena do nosso encontro depois que entramos ali, no apartamento, começando justamente pelo sofá, onde esbanjamos um bom tempo de uma longa e intensa madrugada. As lembranças foram se sucedendo e esticaram um pouco mais o meu banho.

De volta ao espelho, escolhi uma roupa decente e voltei a me avaliar. “Agora sim, bem melhor.” Passei um pouco de perfume, peguei minha carteira e parti para a rua. Passando pela sala lembrei-me de que precisava tomar uma providência. Um corpo gelado e morto estava no chão e o tempo ia passando. Resolvi fazer uma lista de compras, com itens que eu usaria para desinfetar meu apartamento posteriormente, depois de tirar o presunto de lá. Fui até a cozinha, arranquei uma folha de um bloquinho de notas e peguei uma caneta para começar a anotar. O relógio na parede, porém, já marcava 11h. Eu precisava sair logo. “Depois vejo isso.”

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Saí pela porta que dava para o corredor lá fora, andei até a porta do elevador e o chamei. Ele estava vazio e veio rápido, aquilo era bom, melhorou meu humor. Enquanto descia pensava em como Deus estava conspirando a meu favor naquele dia, que começava muito bem, descontando o inoportuno telefonema às 10 da manhã. O elevador abriu no térreo, saí e passei pela portaria. “Bom dia, seu Antenor”, disse eu sorridente para o porteiro. “Bom dia, Dr. fulano”, ele respondeu também sorrindo. A manhã estava quente e agradável agora. Fui até a livraria observando as mulheres bonitas que passavam por mim.

No meio do caminho pedi um café expresso e um pãozinho de queijo que estavam divinos. Uma jovem morena, com um generoso decote e uma boca carnuda cheia de dentes sorriu para mim enquanto passava em frente à cafeteria. “No fundo a vida é boa, apesar dos pesares”, pensei. Acabei me recordando de novo do corpo na sala. Que providências eu tomaria? Agora que eu tinha saído de casa as estatísticas deveriam ser atualizadas. Entre os habitantes do apartamento naquele minuto, 100% deles estavam mortos. “Trágica demografia!”, disse para mim mesmo, divertido com aquela brincadeira aritmética, esboçando um sorriso. O dia estava ótimo, parecia que o próprio sol piscaria pra mim a qualquer momento. Paguei a conta com uma nota de 50 e disse para a mocinha do caixa ficar com o troco pra ela.

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Continuei rumo à livraria, pensando no que eu comeria na hora do almoço, dali a mais ou menos uma hora. Todo tipo de gente ia passando por mim, uns com pressa, outros mais tranquilos. Velhos com o jornal debaixo do braço, jovens andando de skate, famílias passeando e indo fazer compras, imigrantes com produtos para vender nas calçadas e calçadões, policiais vigiando e mantendo a ordem, com as mãos cruzadas atrás, andando vagarosamente. Enfim, a vida seguia normal.

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