Halloween nos trópicos?

“Já não basta ser colonizado e ter o cérebro derretido por uma indústria cultural alheia, ainda tem que ser alienado também e importar hábitos deploráveis de outro lugar que aqui não existiam”

Imagem: LOLA61
por Vinícius Carvalho

Sábado passou uma porrada de marmanjo fantasiado por aqui (marmanjo mesmo, mais de 20 anos, e fantasiados mesmo, super produção) pedindo “doce ou travessura”. Minha cabeça ficou “oi?”, “o quê?”, “como?”, demorei uns 20 segundos para lembrar que era essa porra de dia das bruxas. Fiquei assim, tipo “pô, cara, já não é muito maneiro com criança, mas…criança é criança, né?, não tem jeito! Agora, porra, gente velha, cheia de cabelo no cu? Por quê, bicho?”.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Mas até aí tudo bem, não vou ser caga regra de felicidade e diversão alheia. Cada um com o seu fetiche. Eu sinceramente acho que se for para copiar algo dos EUA, eu prefiro copiar algo realmente decente e honesto, como o Death Metal, por exemplo, que por sinal para mim foi a maior invenção da humanidade.

Só que se não bastasse isso, uma marmanjona saiu correndo na rua tacando ovo e pedra na casa de geral na volta. Achei bonitinho. Já não basta ser colonizado e ter o cérebro derretido por uma indústria cultural alheia, ainda tem que ser alienado também e importar hábitos deploráveis de outro lugar que aqui não existiam. São pessoas assim que depois vão falar que “carnaval é coisa de vagabundo”.

Leia também:  Poema para os homens futuros | por Felipe Mendonça

Foi como disse o Luiz Antonio Simas esses dias, “vivemos uma época de total adultização das crianças e infantilização dos adultos”. Só ver os modos, os trejeitos, as reações frente aos percalços do cotidiano, as frescuras, as afetações e as preocupações das pessoas. Aliás, num país que tem 67,2 milhões de pessoas recebendo auxílio emergencial (que vai acabar), fome galopante e 10% de recessão, desperdiçar OVO assim. Deve ser porque na casa delas está sobrando, não é mesmo?

Sabendo que sou minoria dentre uma maioria consolidada, vou lembrar de dia 31 de outubro do ano que vem entrar na brincadeira e esperar sentado aqui na minha grama fantasiado de LUNGA, do BACURAU. E colocar uma placa aqui no meu portão, “BACURAU, SE FOR, VÁ NA PAZ”. Aí é só vir tacar ovo, pô. Tenta a sorte que o azar é certo.

Leia também:  nas bocas do mundo | por Helena Arruda

Só que, cara, Halloween, porra, aqui nos trópicos nós temos pelo menos umas 666 festas onde crianças podem se fantasiar e pedir doces… nas mais “variadas variações” culturais. Venha no meu portão dia 27 de setembro, dia de São Cosme e Damião ou 12 de outubro, Dia das Crianças, que certamente eu vou lembrar que você tá querendo doce e etc. Mas até isso a rapaziada tem tolhido também. Inclusive no nosso campo.

Lembro que uma vez lá no bar do Pacheco, primeiras fases do curso de história, só ameacei dar uma chiada sobre o Halloween e falando de Cosme e Damião, e caralho, uma mina dessas que dizem que “é neta das bruxas que vocês não conseguiram queimar” e etc (provavelmente e segundo o DataVinicius, 99,99999% de quem diz isso teve uma avó católica que rezava o terço 10 vezes ao dia, mas enfim), ME CAGOU na cabeça, de que “Cosme e Damião é absurdo”, “porque é festa católica”, “a inquisição”, e “blablabla”, aí eu perguntei “tá bom, mas e se eu te falasse que as festividades de Cosme e Damião na verdade começaram da cultura afrobrasileira, de Erê, Doum? E que na verdade não tem nada de paganismo na comemoração do Halloween no Brasil, mas apenas servidão colonial mesmo e etc?” Enfim, não adiantou, eu virei vilão. Retratos do nosso tempo…

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Lembrei aqui de um livro, “O espelho de Próspero: cultura e ideias nas Américas”, meio anacrônico e bastante problemático, é verdade, de um cara dos Estados Unidos (tão vendo aí como eu não sou xenófobo), chamado Richard Morse, que fazia um comparativo (essa ideia de comparativo em si que é anacrônica, mas o livro é legal), entre a América anglo-saxônica e a ibérica, e dissertava sobre uma série de práticas culturais daqui, que no cotidiano, seriam mais “avançadas” do que lá.

Deixe uma resposta